Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


Ilha Formosa

Meu Deus! Seríamos hoje, quem sabe, uma possessão inglesa, como Barbados ou as Falklands

Não, não é o hino do Avaí. É a descrição da Ilha pelo comandante suíço-alemão Carl Gustav Seidler, capitão do “Caroline”, um “quase desterrense” entre os navegadores do século 19. (Apesar dos muitos motivos, privo-me de falar da contagiosa parcialidade dos tribunais, sempre lenientes com os assaltantes do erário.

<span dir="ltr">Prefiro ficar com os tribunais da natureza, </span><span dir="ltr">que tratam da Ilha Formosa</span> &#8211; Foto: Ricardo Wolffenbüttel/Divulgação/Secom/NDPrefiro ficar com os tribunais da natureza, que tratam da Ilha Formosa – Foto: Ricardo Wolffenbüttel/Divulgação/Secom/ND

Só está faltando uma coisa: proporem ao Legislativo um projeto de lei legalizando o roubo). Prefiro ficar com os tribunais da natureza, que tratam da Ilha Formosa. Como os diários de bordo do comandante Carl Gustav Seidler, que por aqui aportou nada menos do que 24 vezes, entre 1823 e 1827. Transportava imigrantes alemães ao Rio Grande do Sul.

Nunca deixou de fazer escala na Ilha, que chamava de Ilha Formosa. Não seria um nome tão mais adequado para o recanto, no lugar da mal-pensada homenagem ao desafeto Floriano Peixoto? Seidler amou a Ilha e tudo o que aflorava de sua superfície:– Chamam esta Ilha de “Jardim do Brasil”. Ela merece esse nome pela sua luxuriante vegetação, seu clima temperado e os fantásticos panoramas que oferece, de quase todos os pontos-de-vista.

O gringo por pouco não deixou o barco que comandava, naturalizando-se ilhéu perpétuo. Em todo caso, nunca deixou de confessar sua abrasadora paixão:– Muito especialmente me haviam gabado a cordialidade e a gentileza dos moradores, a sociabilidade das senhoras, a barateza dos víveres e o romântico dos passeios. Ao ancorar aqui no breu da madrugada, desejei que amanhecesse mais cedo para que pudesse gozar imediatamente deste paraíso na terra. Não tive mais sono.

Como o amante impaciente e saudoso, ou como o enfermo febril, esperei no convés pelo raiar do dia. Ciumento, Seidler denunciou a cobiça da voraz Inglaterra, estimulada pelo óbvio desleixo da Coroa Portuguesa. Os da pérfida “Albion” queriam usurpar a Ilha de Santa Catarina e encaminharam um pedido de concessão, semelhante ao que abocanhou Hong-Kong por 99 anos.

Meu Deus! Seríamos hoje, quem sabe, uma possessão inglesa, como Barbados ou as Falklands. Ao invés de “Camarão ao bafo”, nosso prato nacional seria “Steak and kidney pie”, uma torta de rim exalando impurezas…

God save Seidler e José Bonifácio de Andrada – tutor de D. Pedro II durante a regência – que melaram o “negócio”.

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