Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


Já acreditei em Papai Noel

"As listas de hoje seriam outras, não deixariam de rogar por este pobre e malsinado país"

O que é mesmo um presente? Se não for o verbo, através do qual o leitor conjuga neste exato momento o verbo “ler”, no presente do indicativo, é o substantivo que simboliza aquela milenar troca de mimos entre os seres que se querem bem.

É aquele objeto (o utilitário ou o “brinquedo”, nas suas várias acepções) com que os homens se contemplam, como a intenção de agradar o próximo, especialmente na noite da “Natividad”, seguindo o exemplo dos Reis Magos.

“Os Noéis anoréxicos de hoje seriam banidos como filisteus” – Foto: Arquivo/Jeferson Regis/ND“Os Noéis anoréxicos de hoje seriam banidos como filisteus” – Foto: Arquivo/Jeferson Regis/ND

Ou é o “presente de grego” – um “trote” que traz prejuízo ao presenteado, numa alusão ao Cavalo de Tróia, na guerra dos aqueus (povo da Grécia) contra os troianos.

A grande noite dos presentes tem sido, claro, a véspera do Natal. Muitos parentes trazem presentes simples para a gurizada, de um valor meramente simbólico, nem sempre bem compreendidos – ou “perdoados”.

De minha parte, garoto, aceitava bem qualquer brinquedo, por mais modesto que fosse. Mas pelo simples formato do pacote, rejeitava tudo o que indicasse a oferta de “roupas” acessórias – como uma meia ou uma cueca. Nem abria o pacote.

– Não vai olhar o presentinho que a sua tia trouxe com tanto carinho?

– É roupa! Já sei! É meia!

Os dias seguintes pertenciam ao paraíso. O que sobrara da ceia era melhor ainda no dia seguinte. E o quintal estava transformado na pista de provas de todos os brinquedos. Brincar de carrinho entre os canteiros, abrindo pistas no chão, com o auxílio de uma enxada, era uma das proibições do “Index” natalino. Os garotos rolavam no chão para empurrar com as mãos os seus bólidos, num mundo em que sequer havia o Fliperama, esse “avô” dos videogames.

A primeira voz de advertência partia de minha avó:
– Ô rapaz pequeno! Vais ficar mais sujo do que pau de galinheiro! Ou pára já com isso ou vou falar com Papai Noel pra que ele não te traga mais aquele jipe verde, com marcha e tudo!

Minha avó fazia o papel da “mediadora”, aquela entidade que servia de ligação entre a família e a corte do velho balofo.
Os Noéis anoréxicos de hoje seriam banidos como filisteus. Todo Papai Noel tinha que ser bem fornido, ter pança e costas largas, além de muque de Tarzan, pra suportar o saco com tantos mimos para a humanidade.

Criança de 8 anos, vivia minha primeira crise de ceticismos, alimentada pelos marmanjos que atiravam risinhos oblíquos de puro desdém aos crédulos. Cabia às avós, e aos pais, a quem interessava eternizar a inocência dos infantes, sustentar a crença no último ícone da ingenuidade e da candura, Papai Noel.

Cresciam minhas dúvidas sobre a memória e a força de Noel. E a avó ali, de plantão, pronta para regenerar as virtudes do velho pançudo.
– Mas ele vai se lembrar de trazer um jipe com estrela pintada no capô e no pára-lama?
– Claro. Ele não se esquece de nada.
– Mas como é que ele vai saber o presente que eu quero?
– Precisas fazer uma lista. E ele vai te trazer conforme o teu mérito…

Crédulos, os meninos de 8 anos viravam pequenos querubins, de tão bem-comportados.
As listas de hoje seriam outras, não deixariam de rogar por este pobre e malsinado país.

– Uma trégua na pandemia, que, em pleno mês do Natal dá sinais de um novo vigor no rol de suas vítimas.

– Um governo crível, um parlamento decente e um STF digno.

Não estaria de bom tamanho?