Alexandre Garcia

Jornalista com décadas de atuação na TV e rádio, como apresentador, repórter, comentarista e diretor de jornalismo. A coluna aborda temas do cotidiano, entre eles comportamento, política e economia.


Liberdade e passividade

O manifesto adverte sobre “submissão arbitrária do indivíduo ao estado...respeito aos direitos individuais... excesso, abuso, intimidação”

O mês de abril entrou com um alerta de perigo para a democracia brasileira. Seis presidenciáveis assinaram um manifesto, que saiu nos jornais de 1º de abril. Mandetta, Ciro, Dória, Leite, Amoedo e Huck. Não constam as assinaturas de Lula, Moro e Bolsonaro.

O manifesto afirma que “a democracia brasileira é ameaçada”, uma constatação tardia: há tempo que estão presos, por crime de opinião, um jornalista e um deputado federal – no que o Brasil se assemelha à Venezuela.

Governador de São Paulo, João Dória – Foto: Twitter/Reprodução/NDGovernador de São Paulo, João Dória – Foto: Twitter/Reprodução/ND

A ameaça se torna mais consistente com o silêncio da mídia a respeito do jornalista e com a anuência do próprio legislativo a que pertence o deputado. O manifesto adverte sobre “submissão arbitrária do indivíduo ao estado…respeito aos direitos individuais… excesso, abuso, intimidação”.

Mas, ironicamente, os dois governadores que o subscrevem, baixaram medidas que atingem direitos fundamentais do artigo 5º, cláusula pétrea da Constituição, como liberdade de locomoção, de trabalho, de reunião, de culto.

A prisão do deputado infringiu a inviolabilidade do mandato prevista no art. 53 da Constituição e o asilo inviolável da casa, também do art. 5º. A censura e prisão do jornalista feriu a liberdade de manifestação, da mesma cláusula pétrea, e as liberdades de expressão e informação, garantidas pelo art. 220.

Quando liberdades garantidas pela Constituição são feridas, a democracia é atingida. O manifesto constata que “não há liberdade sem justiça”. Aí vem a lembrança de que se anularam condenações por corrupção, resultado de julgamentos em três instâncias da Justiça.

E ainda houve um julgamento por suspeição do juiz que presidiu na primeira instância os processos anulados -, com base em provas obtidas por meios ilícitos – o que é inadmissível, como está no pétreo art. 5º.O manifesto registra que democracia é direito ao voto.

Por três vezes os legisladores criaram um comprovante que garantisse o voto digitado na urna eletrônica – por três vezes as leis foram derrubadas pela Justiça – projetos de Roberto Requião (MDB), Flávio Dino (PCdoB) e Brizola Neto (PDT) e Bolsonaro (PP).

O PSDB, após derrota de Aécio, constatou que a urna eletrônica não comporta auditagem. Ora, a insegurança no direito do voto também é perigo para a democracia.

O manifesto não “dá o nome aos bois”, nem registra os atos que motivaram o alerta, mas alguns indícios mais evidentes estão na nossa cara. Perigo é a passividade, que rima mas não se mistura com liberdade.

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