Luis Ernesto Lacombe

Opinião contundente sobre o cenário político brasileiro. Escreve todas as sextas-feiras


Luis Ernesto Lacombe: Ressuscita-me!

Medidas restritivas pesadas, que há um ano não surtem efeito, são como um remédio que foi receitado de forma errada e, mesmo assim, seu uso vai sendo prolongado

A repetição cansa. Os erros repetidos cansam. Cansa ter de apontá-los todos os dias. “Quem vai recuperar a economia, se todos estivermos mortos?”, pergunta aquela que se diz “a mulher mais influente do YouTube”. Está na turma que tem dinheiro no banco, que pede comida pelo aplicativo, que acompanha séries em plataformas de streaming…

Leitos, Covid-19, hospital, UTI, Leitos de UTI, Coronavírus, – Foto: Divulgação/Câmara dos Deputados/NDLeitos, Covid-19, hospital, UTI, Leitos de UTI, Coronavírus, – Foto: Divulgação/Câmara dos Deputados/ND

Não sei se adianta pedir a ela que explique por que países que fizeram lockdowns pesados, como Bélgica, Itália, Reino Unido, Portugal, Espanha, Peru e Argentina, estão entre aqueles com mais mortes por milhão. Por que, nos Estados Unidos, a Califórnia, que trancou tudo, está em situação muito pior do que a Flórida, que não foi fechada?

Então, enfurnados em casa, embaixo da cama, escondidos no armário, não estamos protegidos? Pois é, confinamento não é vacina, não salva e, pior, provoca mortes, muitas mortes.“Toda vida importa” é o mantra da turma da influenciadora digital. Na economia a gente pensa depois.

Esse pessoal acredita cegamente em quem fala em ciência e ignora que existem ciências. É nelas, num plural bem amplo, que encontraremos a única saída para o que estamos enfrentando: as soluções equilibradas.

Medidas restritivas pesadas, que há um ano não surtem efeito, são como um remédio que foi receitado de forma errada e, mesmo assim, seu uso vai sendo prolongado, sua dosagem vai sendo aumentada. Até a turma da OMS, de tantas idas e vindas, já bateu o martelo: países em desenvolvimento, países pobres, principalmente, não devem adotar o lockdown.

A influenciadora deve achar mesmo que tem o poder de recuperar a economia, a do país, a dos seus seguidores, as finanças das pessoas mais vulneráveis. Terá também ela o poder de ressuscitar aqueles que, por conta da paralisação econômica, morrerão de fome, sem acesso a remédios, aqueles que, atirados ao pânico, abandonaram tratamentos médicos, não fizeram exames para detecção precoce de doenças?

No ano passado, o número de diagnósticos de câncer caiu 40%! E não foi graças a um avanço médico, um milagre. Há muita gente por aí com câncer que nem sabe da sua condição. Talvez a influenciadora salve essas pessoas e ressuscite aquelas que caíram em depressão e se mataram, as vítimas da violência doméstica. Tomara que ela consiga ajudar também quem não pôde fazer um transplante de órgão, uma cirurgia eletiva.

Alguém que abandona todo mundo que padece diante da derrocada econômica e do pânico não pode falar que toda vida importa. Equilíbrio. Para ter leitos hospitalares, leitos de UTI não precisamos empurrar tanta gente para a extrema pobreza, para o desamparo. Foi o que ficou muito claro na entrevista que fiz esta semana com o prefeito de Aparecida, Luiz Carlos de Siqueira. Um relato impressionante, dilacerante.

A cidade paulista, com 70% de sua população sem renda, passa fome. O prefeito, com lágrimas nos olhos, pede cestas básicas. Ele tem pressa, muita pressa. É devoto de Nossa Senhora Aparecida, sabe muito bem que ele e qualquer influenciador digital não têm o poder de ressuscitar alguém.

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