Rodrigo Constantino

Ele se define como "um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda politicamente correta".


Maratona política

Cautela e prudência, rejeição a utopias, reformismo: essas seriam as palavras mais associadas aos conservadores burkeanos.

Edmund Burke, em suas “Reflexões sobre a revolução em França”, questionou se o edifício do sistema político vigente estava tão podre a ponto de não poder mais ser reformado, tendo de ser implodido para se colocar algo totalmente novo em seu lugar.

Burke era um liberal Whig, mas estava assustado com o radicalismo jacobino. Sua ponderação foi considerada o principal pilar do conservadorismo moderno. Cautela e prudência, rejeição a utopias, reformismo: essas seriam as palavras mais associadas aos conservadores burkeanos.

Plenário do Senado Federal – Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil/NDPlenário do Senado Federal – Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil/ND

Política é a arte do possível. Nela, o ótimo pode ser inimigo do bom. Os conservadores querem mudanças, conservando a estrutura. São reformistas por excelência. Sabem que a luta política para conservar o que presta na sociedade é bem longa, infinita até, pois sempre haverá inimigos autoritários, niilistas, revolucionários.

Conservadores encaram a guerra política e cultural como uma maratona, não uma corrida de cem metros rasos.É necessário ter fôlego, engolir sapos, aceitar recuos táticos, dar um passo atrás para poder dar dois à frente em seguida. Tudo isso tomando muito cuidado com os ânimos da população, pois se pretende evitar convulsões sociais, uma guerra civil, sempre traumática demais e com resultados imprevisíveis.

O conservador não tende a apreciar a postura do “tudo ou nada”, do “vai ou racha”. Ele sabe contemporizar quando necessário, mas também sabe lutar se a luta for inevitável e questão de vida ou morte.Os “monstros do pântano” são aqueles que conhecem e controlam o sistema, os tais donos do poder.

São criaturas resilientes, sobreviveram ao teste do tempo, atravessaram turbulências e resistiram. Não são tão fáceis de se derrotar, senão não seriam tão poderosos. Conservadores reformistas precisam se adaptar a essa realidade, navegar nesse mar com cuidado, selecionando as lutas possíveis, priorizando as batalhas importantes, admitindo o inevitável sacrifício de lidar com tais criaturas.

Vão de crocodilo em crocodilo, equilibrando-se em suas carcaças, de vez em quando caindo novamente nas águas turbulentas. Navegam com seus barquinhos frágeis em meio a inúmeros icebergs, avançando quando possível, evitando uma destruição definitiva.

Sabem que estão com a torcida do povo ao seu lado, mas entendem que o establishment tem bastante poder, que não se encara ele de peito aberto, uma missão suicida.

Qual o grau de força que precisa ser empreendido para furar alguns bloqueios, quais as batalhas prioritárias, do que não se pode abrir mão em hipótese alguma, essas são questões delicadas e debatíveis, e sempre haverá controvérsias entre os conservadores.

Mas, via de regra, eles jamais vão abandonar essa visão sobre seu papel: estão em uma maratona para produzir resultados sustentáveis e de longo prazo, não num tiro curto aventureiro para ver no que vai dar, podendo ser o caos.

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