Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


Mocinhos e bandidos

Parece que estamos voltando aos bons tempos de anarquia e vale-tudo. Roubar é uma arte, com a novidade de que, agora, é uma “arte impune”

O Brasil é cíclico quanto ao culto aos seus heróis. De tempos em tempos muda radicalmente a galeria de ídolos. Bandidos viram mocinhos e vice-versa. Quem diria que ainda veríamos o notório senador Renan Calheiros como um herói da mídia?

Senador Renan Calheiros (MDB-AL) o relator da CPI da Covid-19 – Foto: Pedro França/Agência Senado/Divulgação/NDSenador Renan Calheiros (MDB-AL) o relator da CPI da Covid-19 – Foto: Pedro França/Agência Senado/Divulgação/ND

Pois é: Renan é o novo herói e o ex-juiz federal Sérgio Moro o maior bandido. Pode? No Brasil pode tudo, principalmente a popularização e o culto aos picaretas. Parece que estamos voltando aos bons tempos de anarquia e vale-tudo. Roubar é uma arte, com a novidade de que, agora, é uma “arte impune”.

Quase conseguimos remendar o Brasil fora da lei. Quase. Hoje é a Lava Jato que vai para a cadeia.Voltamos aos tempos em que deputados, senadores, presidentes, todos estavam etiquetados com um preço. A grande empreiteira saía às compras e adquiria nessa “feira” quase todos os “representantes”, a preços variáveis. Não só os mandatos ou os cargos estavam à venda. As leis também.

Os interessados arbitravam uma “ajuda” – e pronto: os legisladores faziam a lei sob medida. O estadista Otto von Bismarck talvez estivesse pensando no Brasil quando cunhou uma frase imortal:– Um cidadão de bem não dormiria se ficasse sabendo como são feitas as leis e as salsichas…Falta institucionalizar a roubalheira. Nunca se viu palavra mais cultivada em discurso de político do que a tal “transparência”. Por que não ser totalmente transparente e avisar logo ao eleitor?

Na hora de pedir o voto, “esclarecer”:– Olha, sou correto no que faço. Tenho as minhas despesas de campanha, minhas dívidas pra saldar. Pouco me adianta o salário de deputado federal, por exemplo. O que é que eu vou conseguir pagar com risíveis R$ 33 mil por mês? Fico com metade da verba do gabinete (R$ 75 mil), é certo, tem funcionário que me repassa até 80% do salário, claro, “na rachadinha”. E ainda passo a mão em duas ou três emendas do orçamento, desviadas para as minhas ONGs piratas…

Do contrário, como é que vou me ressarcir dos dois milhões que gastei na minha última eleição? Não seria melhor “legalizar” logo o roubo, o furto? E cobrar imposto! Roubo acima de um milhão, alíquota máxima! O ladrão pagaria 27,5% sobre o total “aliviado” do tesouro.Quem será o primeiro parlamentar “totalmente transparente” a acolher esta ideia, transformando-a em projeto de lei?

Ao eleitor restaria o consolo de não ser enganado. O próprio Estado regularia a “profissão de ladrão do dinheiro público”: Como a “atividade” no Brasil é informal, não paga imposto e é escassamente reprimida, com baixíssima taxa de risco, que tal uma boa partilha dos lucros?

Vamos legalizar logo o furto e assim os contribuintes serão menos lesados. Afinal, ficará valendo a sábia máxima tributária, segundo a qual, “quando todos pagam, todos pagam menos”. Ou, “quando todos estão olhando, todos roubam menos”.Que tal uma CPMF incidente sobre a ladroagem? – uma “Contribuição Permanente para a Movimentação dos Furtos”?

Assim, legaliza-se o furto, tributa-se o roubo, aumenta-se a arrecadação e corre-se um único risco: a sonegação ter cem anos de perdão. Só para confirmar o novo final do filme: o “xerife” foi declarado bandido e os bandidos – todos – estão deixando a gaiola.

Participe do grupo e receba as principais notícias
da Grande Florianópolis na palma da sua mão.

Entre no grupo Ao entrar você está ciente e de acordo com os
termos de uso e privacidade do WhatsApp.