Guilherme Fiuza

Jornalista e escritor que iniciou a carreira em 1987, no "Jornal do Brasil". Entre outras redações, trabalhou em "O Globo" e revista "Época". Escreve também sobre política para a "Gazeta do Povo".


Moro contra Moro marca uma das maiores rivalidades políticas até aqui

Chega, enfim, a filiação partidária do ex-juiz, oficializando sua entrada na política e habilitando-se a uma candidatura

Sergio Moro chega, enfim, a sua filiação partidária, oficializando a entrada na política e habilitando-se a uma candidatura. Pelo seu currículo na operação Lava-Jato seria uma candidatura a presidente da República.

Agora, o ex-juiz terá de avaliar a força do vento a seu favor para confirmar-se como presidenciável. Até aqui, seu maior adversário como político tem sido ele mesmo.

Moro oficializa entrada na política – Foto: Lula Marques/Divulgação/NDMoro oficializa entrada na política – Foto: Lula Marques/Divulgação/ND

Moro andou comparando, por exemplo, a relação do governo atual com o Congresso com a prática do Mensalão. Ou demite o marqueteiro, ou se assume como cínico – e aí se junta a boa parte da velha política e segue em frente dizendo qualquer coisa que lhe pareça pessoalmente vantajosa.

Com a capacidade que mostrou no enfrentamento aos maiores bandidos da política nacional, Sergio Moro sabe que esse paralelo com o Mensalão é falso. Não é, portanto, problema de discernimento. Ou é distração, ou é cinismo. Se for distração, dá para corrigir. Troca o marqueteiro e informa que nada mais pode ser postado sem o seu conhecimento.

Infelizmente não é a hipótese mais provável, dadas as declarações públicas de Moro desde que pediu demissão do Ministério da Justiça. Ele chegou a declarar que a relação do governo do PT com a Polícia Federal era mais correta que a do governo Bolsonaro.

Bem, o PT instalou uma quadrilha no centro do governo e parte desses crimes foi desvendada pela Polícia Federal. Se isso é uma relação mais correta, o presidenciável Sergio Moro tem princípios bem diferentes dos que tinha como juiz.

É realmente impressionante ver o homem que prendeu Lula fazendo esse tipo de ressalva “institucional” para as práticas do PT no governo. O partido tentou domesticar todas as instituições – e em parte conseguiu, como se vê por exemplo em certas decisões judiciais arrepiantes em favor de réus do partido.

Como o marqueteiro João Santana pôde cancelar sua volta ao Brasil depois de avisado pela presidente Dilma Rousseff de que seria preso pela Polícia Federal? Isso é modelo de relação governamental com a PF? Sergio Moro saiu do governo do qual era tido como um dos símbolos mais confiáveis pedindo demissão de forma ruidosa em plena crise da pandemia e atirando no presidente. Uma ação dessa dimensão só seria compreensível com a revelação de um escândalo incontornável.

Um ano e meio depois, quando Moro vem oficializar sua entrada na política partidária, o país ainda procura saber qual foi o escândalo incontornável que ele denunciou ao se demitir numa concorrida entrevista coletiva ainda no cargo de ministro.

Conduta pouco reconhecível num homem que fez história derrotando corruptos de forma discreta, eficaz e nada espetaculosa. O eleitor que quiser votar para presidente no Sergio Moro da Lava Jato precisará primeiro descobrir onde ele está.

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