Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


O Brasil sonhado

Ocorre que os tempos andam tão sinistros que passei dias sem sonhar. Ou só vi filmes em preto e branco

Sonhei que o novo presidente do Brasil era uma unanimidade nacional. Não sendo originalmente um político, preparara-se para o posto. Como primeiro ministro de um novo parlamentarismo – só fichas limpas no Parlamento – o chefe de governo formara-se em administração pública e execução orçamentária, prestando contas diariamente pelas redes sociais, explicando o gasto e o retorno de cada centavo.

“Renda Per Capita” em alta, o povo brasileiro passou a nutrir plena confiança em suas instituições, depois que a Grande Reforma Política reduziu o número de ministérios para 10, de deputados para 150 e o de partidos políticos para cinco, abolindo o Senado.

Dizem os especialistas – e nem falo no doutor Freud – que sonhamos todos os dias, mas não nos lembramos de todos os sonhos. Só nos lembramos da parte final, vizinha do despertar. É a apoteose do cinema mental, quando o “filme” já está próximo do seu costumeiro “happy-end”.

Ocorre que os tempos andam tão sinistros que passei dias sem sonhar. Ou só vi filmes em preto e branco – alguns, apresentados como pesadelos, estrelados por essa turma que trocou a “política” pela “polícia”.

Os sonhos em cores, com direito a Oscar de efeitos especiais, são aqueles que acontecem num estado de “semivigília”, o cérebro ainda em intensa atividade, o olho na “posição REM – “Rapid Eye Moviment”. Ou seja, o olho ainda vivo, “ladino”, como diria um bom mané.

Dos sonhos que me lembro, o melhor de todos foi esse em que o Brasil “era outro”, muito melhor. As grandes cidades amanheceram sem favelas e sem tiroteios. Os políticos fizeram o seu “mea culpa” e se regeneraram.

Houve até casos de “haraquiri”, à maneira do resgate japonês da própria honra, o sujeito se auto-estripando, envergonhado da própria conduta criminosa. Já imaginaram? Um Brasil “limpinho” e asseado, tudo de volta aos seus lugares.

Bolso era bolso, cueca era cueca, os “propineiros” chegaram a fazer fila no Banco do Brasil. E sabem pra quê? Foram lá devolver o “petrolão” indevido!

Acreditem ou não: no meu sonho colorido, vereadores e deputados fizeram aprovar um projeto de lei, de origem parlamentar, tornando “voluntária” e “honorífica” a sua atividade cidadã. Todos abdicaram dos salários e das mordomias – até mesmo do auxílio-moradia…Vale a pena sonhar este sonho. Difícil será acordar para a atual realidade.

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