Guilherme Fiuza

Jornalista e escritor que iniciou a carreira em 1987, no "Jornal do Brasil". Entre outras redações, trabalhou em "O Globo" e revista "Época". Escreve também sobre política para a "Gazeta do Povo".


O dilema de Ivete

Soou um pouco estranho porque essa mesma artista não tem escolhido fazer parte de claques políticas, sejam quais forem

A cantora Ivete Sangalo estimulou um coro de xingamento ao presidente da República no seu show. Cada um faz o que acha que deve. Soou um pouco estranho porque essa mesma artista não tem escolhido fazer parte de claques políticas, sejam quais forem.

Naturalmente existe no ar uma “politização” artificial – dentro desse entulho mercadológico que premia a afetação de algum tipo de consciência virtuosa – e paga bem por isso. Ivete Sangalo não vinha entrando nessa. Não é que exista um convite para esse tipo de falsa militância. Existe um cerco.

Ivete Sangalo – Foto: Reprodução/InstagramIvete Sangalo – Foto: Reprodução/Instagram

Não necessariamente para empurrar bravatas contra Bolsonaro. Pode ser contra o aquecimento global. Ou contra o consumo de carne. Mas se não tiver carne e osso na história, não tem graça – então o jogo é investir em vilões. Trump, Temer, um jogador de vôlei, uma atriz, um cantor, um empresário. Nós, os bonzinhos, contra os malvados do mundo. Quer ficar fora dessa? Acha que não é por aí? Não é tão simples.

Pergunta à Ivete. Ou à Anitta. Alguns anos atrás essa outra rainha das paradas de sucesso tentou um discurso equilibrado. Disse que sua principal mensagem era sua música, ou algo nessa linha. Que tinha o direito de se manifestar sobre os temas que quisesse quando bem entendesse.

Em menos de 24 horas levou uma blitz da Daniela Mercury. Não é assim não, gata. Vai ter que rezar a cartilha. Claro que a abordagem foi envernizada, tipo “tem que se posicionar”, etc. Anitta e Ivete não “têm que” nada. Têm que pagar os seus músicos, cumprir os seus contratos e fim de papo.

Mas aí o tempo fecha. Anitta “teve que” virar uma panfletária de quinta categoria. Ou pelo menos achou que teve. Passou a dar pitacos demagógicos sobre uma série desses assuntos que o clubinho dos pobres milionários manda abordar. Tipo o do show da Ivete. É ridículo, mas não fiquevocê achando que isso é política. Isso é mercado.

Esse produto é vendido – ao público como virtude. Senão seria só como na máfia: se não bajular as pessoas certas e não souber as senhas está liquidado. O clubinho dos pobres milionários também tem práticas soturnas, mas a fachada é linda e tem butique com balcão na rua. Não consta que Anitta tenha perdido dinheiro recitando sua laranjada retórica. Muito pelo contrário.

Por que Ivete Sangalo, baiana, não estimula alguma forma de repúdio ao governador do seu Estado, que trata a população na base do sopapo fingindo estar cuidando da segurança sanitária? Que impôs toques de recolher brutais fingindo estar salvando vidas?

Que impõe um passaporte vacinal hediondo que não bloqueia o vírus, mas bloqueia pessoas – inclusive no acesso a direitos básicos? Ivete não rege nenhuma claque contra o inacreditável governador Rui Costa porque apatrulha não mandou. E viva a liberdade.

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