Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


O maior bem do ser humano

Imaginem se Zweig tivesse feito a sua aposta neste Brasil de hoje, em que as instituições se degeneram e competem pelo poder

Stephen Zweig, o escritor austríaco que elegeu o Brasil como refúgio da Europa nazista, esteve duas vezes no país tropical antes de aqui se estabelecer como sua terra de adoção.

Foi na primeira viagem, em 1940, e na segunda, em 1941, que com a ajuda da mulher, Lotte, reuniu suas anotações pessoais e finalizou o ensaio “Brasil, País do Futuro”.

Bandeira do Brasil – Foto: PixabayBandeira do Brasil – Foto: Pixabay

Escrevendo para parentes e amigos europeus, declarou-se arrebatado pela nova pátria:– Vocês não podem imaginar o que significa viver neste belo e ensolarado país, que ainda não foi estragado por turistas e onde se pode levar uma vida sossegada e tranquila, com quase nada.

Com sua bagagem liberal e antinazista, o dramaturgo, biógrafo e romancista pincelou o Brasil como uma espécie de paraíso na terra:– Considerando que o Velho Mundo é cada vez mais governado pela tentativa insana de criar pessoas racialmente puras, como cavalos e cães de corrida, ao longo dos séculos a nação brasileira tem sido construída sobre o princípio de uma miscigenação livre e não filtrada, a equalização completa do preto e branco, marrom e amarelo.

A partir da terceira viagem Lotte e Zweig foram morar na sua nova Europa, replicada na Petrópolis de 1941. Ali finalizou sua autobiografia O Mundo que eu Vie imaginou haver redescoberto a paz, embora amargurado com o que acontecia na ocupação do velho mundo pelo nazismo.

Imaginem se Zweig tivesse feito a sua aposta neste Brasil de hoje, em que as instituições se degeneram e competem pelo poder – mesmo aquelas que não tem por missão o embate político.

Abatido por uma severa depressão, e talvez pressentindo que a nova pátria não lhe daria motivos para um pleno renascer, Zweig escreveu uma carta de despedida e suicidou-se com a mulher, Lotte, ingerindo dose fatal de barbitúricos.

No bilhete, elogiou a pátria substituta e provisória:– “Antes de deixar a vida por vontade própria e livre, com minha mente lúcida, imponho-me um carinhoso agradecimento a este maravilhoso país que é o Brasil, que me propiciou tão hospitaleira guarida. A cada dia aprendi a amar mais e mais este país, e em parte alguma poderia reconstruir a minha vida, agora que o mundo de minha língua está perdido e o meu lar espiritual, a Europa, autodestruído.Que seja dado aos que ficam ver a aurora desta longa noite”.

O escritor foi a prova de que liberdade é como oxigênio. Se um dia falta, a democracia e a vida definham e falecem. Regimes liberticidas, de esquerda ou de direita, são verso e anverso da mesma moeda. Stefan Zweig, onde estiver, estará dizendo uma prece pelo Brasil.

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