Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


O país se recusa a aceitar a roubalheira como “a ordem natural das coisas”

Nada mais mórbido, doentio, enfermiço do que roubar dinheiro público

O que se diria de um servidor público que vivesse deliberadamente para fazer o mal? Que adjetivo qualificativo se encontraria para o presidente, o governador, o prefeito, o deputado, o vereador ou o magistrado que praticasse fraudes e roubos contra o erário?

Que definição achar para os que roubam recursos da merenda escolar? Os que afanam da saúde durante uma pandemia? Os que falsificam o leite a ser vendido à população? Os que adulteram remédios, vendendo venenos?

Vivo fosse, Pablo Picasso pintaria uma “Guernica” da roubalheira – Foto: Arte/ND

Sabemos que tudo isso acontece neste Brasil sem lei e, muitas vezes sem alma. O que é “o Mal”? Será um atributo do ser humano? O mal, sabemos, é tudo o que se opõe ao bem, à virtude, à probidade e à honra.

Como se concederia a marca de “humano” a um parlamentar que se elege para roubar? A um funcionário que vicia licitações em seu proveito? A um magistrado que vende sentenças? Sabemos que todo esse universo malsão acontece diariamente nos três níveis da administração do país.

Nada mais mórbido, doentio, enfermiço do que roubar dinheiro público.

Todo mundo sabe que Pablo Picasso, mestre do neoclássico e do cubismo, pintou sua obra “Guernica” para expressar horror à besta apocaliptica do nazismo, que destruiu a cidade espanhola em impiedoso bombardeio aéreo.

Vivo fosse, Pablo Picasso pintaria uma “Guernica” da roubalheira, retratando o horror sentido pelo povo brasileiro, coitado, bombardeado todos os dias com o inestancável noticiário de escândalos sucessivos. O Brasil já está pedindo ao espírito de Picasso que pinte uma Guernica moral.

O país se recusa a aceitar a roubalheira como “a ordem natural das coisas”, mas as “bombas” não deixam de cair sobre o telhado da cidadania. É roubalheira todo dia, toda hora.

O Brasil está transformado na mula sem cabeça da roubalheira institucionalizada.  Uma espécie de Guernica da ladroagem. Um horror que se espalha pelos ares. Políticos avisam ao governo, numa linguagem direta:

– Demitam os nossos desonestos e vocês vão ver uma coisa. Não  votaremos mais nada no Congresso!

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Ladrão é uma palavra interessante, nascida no Latim arcaico.

Latro, latronis, designava aquele soldado do príncipe que ficava “ao lado”, para guarnecer a carteira do poderoso. Depois, o “do lado” passou a ser conhecido como o soldado mercenário e salteador. Extensivamente, passou a designar todo aquele que furta mediante fraude. O depositário infiel, o peculatário, o grileiro, o golpista ou o finório em lato sentido. Latro, latronis é substantivo de grande popularidade no Brasil de hoje.

Aliás, o Brasil adora cultivar ladrões, sejam nacionais ou estrangeiros. O inglês Ronald Biggs, por exemplo. Era um ícone do turismo em terras brasileiras. O bom ladrão de Santa Tereza, o boa praça de Copacabana, Ipanema e Leblon. O malandro honorário que mereceu letra de Moreira da Silva. Um bom finório que enganava os tiras da Scotland Yard e que cobrava “ingresso” dos turistas para uma foto ao lado do assaltante “ilustre”.

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“Triste o povo que precisa de heróis” – lavrou, certa vez, Aparício Torelly, o Barão de Itararé. Muito mais triste ter um herói malfeitor.

Para começar a revolução de uma Guernica capaz de espantar o mal da roubalheira, vamos votar só em gente honesta.

É difícil procurar e escolher, mas eles, os honestos, ainda existem em solo brasileiro.