Guilherme Fiuza

Jornalista e escritor que iniciou a carreira em 1987, no "Jornal do Brasil". Entre outras redações, trabalhou em "O Globo" e revista "Época". Escreve também sobre política para a "Gazeta do Povo".


Os diplomatas do centrão

Qual foi, afinal, o problema com a política externa brasileira? Ninguém sabe. Só se sabe que o centrão voltou suas baterias para o ministro da área

Não temos aqui informações de bastidor sobre as pressões pela demissão do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Só sabemos que essas pressões vieram do centrão. E que integrantes dessa imaculada instituição brasileira têm estado aflitos e ansiosos com temas que vão desde a tecnologia 5G até o mercadão do Ceagesp.

Ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo pediu demissão nesta segunda (29) – Foto: Valter Campanato/Agência BrasilEx-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo pediu demissão nesta segunda (29) – Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

O centrão tem muitas preocupações cívicas. Mas em público o que os porta-vozes da fritura do ministro declararam é que a política externa brasileira não está legal. Foi exatamente o que disse (com outras palavras, mas igual conteúdo) ninguém menos que o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco.

Aí você para e pensa (ainda não está proibido): que problema tão significativo na política externa brasileira tirou o presidente do Senado dos seus afazeres para se pronunciar de forma tão crítica sobre uma política que diz respeito ao poder Executivo? Claro que o Legislativo pode e deve falar sobre isso, tem até as comissões de Relações Exteriores.

Mas para um presidente de poder mandar recado ao presidente da República de que a política externa precisa ser corrigida, ele deve ter algum motivo muito forte. Qual foi, afinal, o problema com a política externa brasileira? Ninguém sabe. Só se sabe que o centrão voltou suas baterias para o ministro da área.

Mas para trocar o ministro seria necessário um motivo, não? Uma crise? Um evento? Um fato? Querer o cargo de alguém não pode ser classificado como crise, ou pode? Crise inventada é crise? São muitas perguntas sem resposta. Ou melhor, com resposta óbvia. Então, vamos repetir a única que ninguém respondeu: qual foi o problema com a política externa brasileira?

Interromper aquele ‘terceiromundismo’ petista – uma fanfarra demagógica para consumo interno – e restabelecer os canais normais com os Estados Unidos da América, sem falsas arengas, propiciou o compromisso do governo norte-americano com a indicação do Brasil à OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), uma espécie de federação de países confiáveis para investimento e leais quanto a regras socioeconômicas e ambientais. Isso é motivo para pedir cabeça de chanceler?

O acordo entre União Europeia e Mercosul, que teve na diplomacia brasileira um polo de articulação importante, só não teve êxito total porque o presidente da França passou a sabotá-lo – espalhando até notícias falsas sobre queimadas na Amazônia para alimentar o seu populismo interno.

O Brasil não caiu na armadilha e manteve a postura democrática nas negociações. Qual foi então o problema? As fake news (desmentidas) sobre supostos embargos por parte da Índia e da China? Ou será que o problema da política externa brasileira é a gula do centrão pelo 5G e o Ceagesp?

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