Laudelino Sardá

Causos da Ilha, seus personagens, histórias e momentos do cotidiano de Florianópolis com quem conhece os cantos da Capital de Santa Catarina.


Peixe só no fogão à lenha

A propósito, Lelo, tu andasse pela praia com a bandeira enrolada no pescoço, foi?

– Olha lá vem o sabido do Joca!

– Brigando com a sombra é Joca?

Bandeira do Brasil – Foto: Reprodução/Portal R7/NDBandeira do Brasil – Foto: Reprodução/Portal R7/ND

– Quem gosta de brigar no escuro é o Lelo! A propósito, Lelo, tu andasse pela praia com a bandeira enrolada no pescoço, foi?

– Verdade, sim, mas com a bandeira do Avaí. O Joca quer me encurralar porque ele é Figueira, além de fungar no contra.

– Não exagera, Lelo… Eu sou brasileiro de uma nota só.

– O que tu quesh dizer com isso, Joca?

– Venâncio, sou brasileiro, penso na nação e não comungo com essa libertinagem de fechar rodovias e deixar a gente sem gasolina até para o barco.

– Libertinagem? O que é isso? Mas concordo, Joca. O presidente coloca milhares nas ruas pra apoiar ele e acaba prejudicando todo mundo com fechamento das estradas.

– Lelo, libertinagem é exagero, é depravação. Eu me baseio sempre no pensamento de Karl Mannheim, para quem o povo precisa estar longe de preconceitos, de juízos preconcebidos….

– …. Explica melhor, professor, não dá pra entender, pede Venâncio.

– Bem, numa nação ninguém deve se deixar dominar por paixão política, nacionalismo, sentimento de classe ou por autopurificação.

– Calma que eu explico – É comum no mundo de hoje eliminar verdades com percepção tendenciosa ou raciocínio vicioso

– Calma, calma, eu explico. Vivemos um Brasil dividido não por ideologias, mas por incertezas. Os que estão a favor ou contra Bolsonaro nem imaginam como será 2022, justamente porque não há uma consciência de valor.

– Pera aí, Joca, aí fica difícil de entender. Quer dizer que ninguém é capaz de entender o Brasil?

– O problema nosso é de etnocentrismo…

– Puta meda, Joca, agora mesmo que barufei…

– Tá bom. Explico. É a percepção individual ou de grupo sobre um conhecimento. Ou seja, pode alguém chegar aqui e convencer vocês de que morar na Cachoeira não dá para se viver feliz?

– Pessoal, o que se passa aí?

– Ô dona Lola, é o Joca que apareceu para uma prosa. Ele tá dizendo que estamo cego, sem ver ninguém.

– Deixa pra lá. Mas afinal, pegaram peixe? Eu preciso aviar o almoço!

– Dona Lola, minha santa, cada cidadão tem a sua imagem mental. Tá difícil aqui.

– O que? Tá bom, Joca. O país tá a cara do Bolsonaro. Até o Temer ajudou a fazer uma plástica. Mas eu quero é o peixe pra botá no fogão à lenha. O gás não dá pra comprar mais.

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