Guilherme Fiuza

Jornalista e escritor que iniciou a carreira em 1987, no "Jornal do Brasil". Entre outras redações, trabalhou em "O Globo" e revista "Época". Escreve também sobre política para a "Gazeta do Povo".


Povo? Que povo?

Que direitos, bobo? A Constituição é um estado de espírito. Vale o que der na telha do seu intérprete ocasional

Aquele negócio de democracia de povo saiu de moda. Estava ficando muito trabalhoso mesmo. O negócio agora é democracia de gabinete. Ou home democracy. Em vez de ter que ver o que milhões e milhões de pessoas estão desejando, meia dúzia de iluminados no zoom decidem o que é bom para todos. E nem adianta ficar fazendo passeata, que isso não tem mais efeito.

Governadores decidem quem pode trabalhar com base na ciência que eles não contam para ninguém – Foto: Wilson Dias/Agência BrasilGovernadores decidem quem pode trabalhar com base na ciência que eles não contam para ninguém – Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

Os senhores da verdade dirão tranquilamente que a sua passeata foi inexpressiva, ou que você e seu filho de colo são parte de uma milícia que não tolera a democracia. Aí bastam umas três manchetes repetindo a mesma coisa e a história oficial está prontinha para o delivery. E você aí crente que estava se manifestando por liberdade e respeito aos seus direitos constitucionais.

Que direitos, bobo? A Constituição é um estado de espírito. Vale o que der na telha do seu intérprete ocasional – e aí vai depender se ele está de bom humor ou se acordou com vontade de dar uma sacudida no tédio das leis.

Antigamente era uma trabalheira para fazer justiça levando em conta uma série de princípios que passaram séculos sendo transformados em regras para o funcionamento das sociedades dentro do que se convencionou chamar de civilização. Chega disso.

Por que tanto cuidado e perda de tempo, se uma única excelência pode alegar segurança sanitária e decidir que está valendo para você o que ela resolver que vale? É uma revolução moderna. Quanto tempo foi jogado fora pela humanidade com essa mania de institucionalizar tudo?

Se um prefeito acordava com vontade de bater em alguém acabava tendo que chutar o cachorro, ou mesmo jogar a televisão na parede – porque até para cachorro já tinha coisa escrita inibindo o sublime direito à bordoada. Isso acabou.

Hoje um prefeito que acorde com vontade de bater em alguém simplesmente manda bater – não precisa nem se descabelar para dar vazão ao seu instinto puro. Logo virá uma manchete ou notícia na TV explicando que aquela mulher sozinha numa praça ou de biquíni num vasto litoral estava botando vidas em risco – e fim de papo. Bordoada sancionada. É ou não é muito mais prático?

Ah, você quer saber onde estão os humanistas de plantão? Deixa de ser distraído. Eles estão felizes no zoom discutindo a ditadura do século passado. Mas se precisar eles aplaudem o prefeito batedor. Ficou então combinado assim. Governadores decidem quem pode trabalhar com base na ciência que eles não contam para ninguém, e não é você que vai ficar fazendo pergunta sobre assunto de foro íntimo. Deixa de ser abelhudo.

Se insistir, vem uma dessas eminências do novo direito e te enquadra na velha Lei de Segurança Nacional. O novo & o velho unidos pela home democracy. Não gostou? Então presta atenção nesse segredinho: a democracia de gabinete morre de medo de você.

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