Guilherme Fiuza

Jornalista e escritor que iniciou a carreira em 1987, no "Jornal do Brasil". Entre outras redações, trabalhou em "O Globo" e revista "Época". Escreve também sobre política para a "Gazeta do Povo".


Preparemo-nos para a hora da virada

A resolução de Ano Novo mais saudável em meio a tantas dúvidas é não renunciar à vida. A proteção inteligente precisa substituir a paralisia irracional

Não se pode dizer que o ano de 2020 foi o caos, porque dependendo de como vier a ser 2021, essa classificação poderá ficar defasada. O que se pode dizer é que o mundo virou de pernas para o ar – vivenciando pela primeira vez a experiência de parar as sociedades, ao menos parcialmente – e isso fez picadinho das perspectivas colocadas um ano atrás.

No Brasil, encerrava-se um ano de reformas iniciais do Estado rumo a uma maior liberalização e desburocratização. Alguém se lembra disso?

Preparemo-nos para a hora da virada. As luzes vermelhas, azuis, verdes, brancas, amarelas fizeram a festa no céu de Florianópolis para a chegada de 2020 – Foto: Cristiano Andujar/PMF/Arquivo/NDPreparemo-nos para a hora da virada. As luzes vermelhas, azuis, verdes, brancas, amarelas fizeram a festa no céu de Florianópolis para a chegada de 2020 – Foto: Cristiano Andujar/PMF/Arquivo/ND

O que veio depois jogou no lixo os planos de futuro imediato. Na agenda nacional, em lugar de futuro, impôs-se a ideia de sobrevivência. Uma cifra próxima de R$ 1 trilhão foi mobilizada pelo governo federal para auxiliar desde pessoas sem trabalho até os estados da federação, passando por empresas asfixiadas pelas medidas sanitárias.

A economia manteve os sinais vitais e aparentemente afastou a possibilidade da depressão, mas a verdade é que o endividamento com medidas de socorro ainda nem chegou ao seu ponto máximo – considerando-se que a emergência sanitária continua demandando recursos especiais da União.

As autoridades econômicas fizeram o seu papel de subsidiar o socorro, apontar as perspectivas reais de recuperação e mostrar que os indicadores macroeconômicos não colapsaram.

Mas qualquer prognóstico será precipitado enquanto não se tiver garantias de retomada do funcionamento normal da sociedade. O ano de 2020 termina com recrudescimento de bloqueios de atividades e de circulação e muitas dúvidas sobre imunização.

As melhores chances para 2021 estão concentradas numa abordagem mais pragmática da crise de saúde pública. O risco letal da Covid-19 suscitou uma reação compreensivelmente difusa da coletividade, mas o aprendizado com o percurso da epidemia possibilita um enfrentamento mais focado – especialmente na proteção aos vulneráveis.

Irracionalidades como transportes públicos circulando com aglomerações e escolas impedidas de funcionar não podem se manter. Mesmo o funcionamento de escritórios precisa vencer os tabus e adotar as normas que asseguram a convivência responsável – novamente, sem expor a vida dos pertencentes aos grupos de risco.

Se houve autoridades investigadas – e até já punidas, como o governador afastado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel – por desvios das verbas emergenciais de saúde, também há aquelas que parecem apresentar a vacinação como única forma possível de se retomar a vida em sociedade.

Nenhuma decisão é fácil no meio de uma pandemia, mas é preciso reconhecer que o ciclo abreviado de desenvolvimento das vacinas cercará esse processo de incógnitas ao menos no curto prazo.

A resolução de Ano Novo mais saudável em meio a tantas dúvidas é não renunciar à vida. A proteção inteligente precisa substituir a paralisia irracional.