Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


Sátira e charge são instrumentos da democracia

O riso é antes de tudo um castigo. Ele deve causar à sua vítima uma impressão nada menos que penosa.

O que salva o Brasil são os chargistas. No campo do humor ligeiro, da piada resumida pelo traço, somos um país altamente civilizado. E o que é o humor? Segundo o filósofo Henri Bergson, o humor é uma forma de punição e de recreação:

– O riso é antes de tudo um castigo. Ele deve causar à sua vítima uma impressão nada menos que penosa. Ele não atingiria o seu objetivo se carregasse a marca da solidariedade e da bondade.

A sátira e a charge – que quer dizer, literalmente “carga!” – são instrumentos tão cortantes quanto uma guilhotina. Mas são igualmente asseados, limpos, de suas lâminas não escorre sangue. O que escorre dos “chargeados” é o pus da vergonha.

Hoje pode-se medir o teor de uma democracia pela liberdade da charge, que em muitos jornais tem o peso de um editorial. O bom humor pode derrubar governos e impérios, funcionando como um projétil social. Uma charge faz pensar.

Ainda bem que não falta  “charge” e bom humor.

A democracia que aceita o humor como correção de vida, estará muito mais saudável do que qualquer regime que se intitule “livre” – aquele país que se diz no próprio nome “República Democrática”, exatamente por não ser.

Quem quer que tenha subido à ribalta ou que se candidate aos altares do Poder, estará a mercê da Charge –  esse santo óleo que costuma consolar os fracos e os oprimidos com a verrina do bom humor.

A charge – ainda mais agora, depois do martírio do Charlie Hebdo – o semanário satírico da França – é o remédio supremo contra qualquer tipo de tirania.

O mundo inteiro queda-se de espanto e indignação, mas antes que este texto avance até o próximo parágrafo, centenas de jornalistas serão ameaçados e insultados ao redor do globo, por poderosos que não conseguem conviver com a pluralidade de opiniões e com a crítica ou a sátira, seja a uma seita ou a um governo.

A intolerância é prima-irmã do “politicamente correto”, onda que assola a  ditadura do pensamento – “crença” que conta mundo afora com os seus cruzados homicidas.

Na verdade, o verdadeiro atentado é contra a liberdade de imprensa. Seus assassinos encapuzados são aqueles que falam por aí em “controle social da mídia” e outras aberrações liberticidas.

“O riso – sustentou Henri Bergson, seu maior especialista – é uma espécie de “trote social”, sempre humilhante para aquele que venha a ser o seu objeto”.

***

Rir, no Brasil de hoje, é ato de “legítima defesa” diante da imoralidade da corrupção e da excessiva auto-estima de certas autoridades. Rir faz bem ao coração. Mais do que o melhor remédio, rir é a única alternativa de vida inteligente.

É ao riso e ao bom humor que querem assassinar.