Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


Sobral nosso que estais no Céu

A novidade é a obscena desfaçatez com que um advogado da nobre profissão proclama a prevalência não da lei, mas da impunidade

Nada de novo sob os céus do Brasil. Um advogado cujo escritório atua nos tribunais superiores, produziu a seguinte pérola:- Se o crime já aconteceu, de que adianta punir? Se quer punir, tudo bem, mas não acredite que isso vá combater a corrupção. Novos tempos, velhos hábitos.

A novidade é a obscena desfaçatez com que um advogado da nobre profissão proclama a prevalência não da lei, mas da impunidade. Confronte-se o novo e o velho. O lendário advogado Heráclito Sobral Pinto elevava ao máximo a prerrogativa do direito de defesa. Mas não admitia mentir para beneficiar um cliente.

Exemplo de anúncio utilizado pelos canais para a veiculação do horário eleitoral gratuito – Foto: Reprodução/NDExemplo de anúncio utilizado pelos canais para a veiculação do horário eleitoral gratuito – Foto: Reprodução/ND

Se estivesse diante de um réu confesso – um homicida, por exemplo, – não lhe recusava a defesa, desde que sustentada na verdade dos fatos. Buscava, então, as atenuantes do caso, não a sua inversão pela mentira, ou pela falsa versão. Hoje, os novos tempos proclamam o império da mentira e o assassinato da verdade.

Adotar a mentira transformou-se numa “prerrogativa” corrente, que cancelou a máxima do doutor Sobral:- O advogado é o primeiro juiz. Ou seja: se o seu cliente é um criminoso, não se associe a ele, tornando-se co-réu de algum banditismo. Não só certos advogados mudaram. Há juízes e tribunais ressuscitando a impunidade, abrindo gaiolas e soltando todos os seus pássaros, segundo as novas “prerrogativas”. Sobral nosso que estais no Céu.

Queriam o quê, num país de 32 partidos políticos, cada um com o seu projeto de poder e a chave do cofre dos ditos Fundos Eleitorais? Neste ano teremos eleições gerais e o inacreditável “Horário Eleitoral Gratuito” – que, como se sabe, de gratuito não tem nada – volta a invadir a sua sala de visitas.

Trata-se de mais uma ferramenta para perpetuar o mandato dos que já têm um mandato. Ou seja: mais um instrumento pela falta de renovação dos parlamentos. É frustrante ligar-se a tevê em horário nobre e lá encontrarmos um oportunista prometendo um “partido honesto”, com o nosso dinheiro.

Partidos, hoje, são meros “acampamentos de conveniências”, responsáveis porto da a degenerescência moral que assusta os brasileiros de bem. É uma pena. Fora de partidos sérios e de um sistema político baseado na representação popular, com voto distrital, não há salvação. É preciso suspeitar das promessas de “governos salvacionistas”, de líderes “messiânicos”, de “projetos de poder” sem qualquer comprometimento com a boa gestão fiscal.

Com os políticos trocando departido de hora em hora, ninguém acredita mais na mensagem, nem nos mensageiros. O efeito é devastador para todos os lados. O descrédito é geral. Os malfeitos dos “outros” são propagandeados como um novo óleo vegetal.

E a banalização do mal se consolida diante da certeza de que, depois de atuarem nas propagandas de campanha, os “apóstolos” e os do “lado oposto” serão comparados apenas pelas mútuas denúncias que se fizeram, realçando o que têm de pior. Com tantos líderes de partidos no Congresso, a construção de uma maioria que garanta a governabilidade está comprometida – e o país, ingovernável.

Não nos surpreenderia, dentro dessa nova ekafkiana realidade, se os novos advogados e os seus representantes reeleitos, fizessem votar no parlamento uma lei declarando a normatização da impunidade geral – já que, “com o crime uma vez praticado, de que adianta a punição”?

A primeira providência é votar só em pessoas comprovadamente honestas – e pesquisando o seu caráter verdadeiramente íntegro. A segunda é rezar para que o doutor Sobral Pinto ressuscite, deixe lá a sua vivenda eterna, e restabeleça a prevalência da lei e do direito neste país, tão perigosamente ameaçado pelo crime institucionalizado. Sobral nosso, que estais no Céu…

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