Luis Ernesto Lacombe

Opinião contundente sobre o cenário político brasileiro. Escreve todas as sextas-feiras


Sobre um cartaz

Naquele cartaz nas manifestações pelo Brasil, nenhum de nós é um piloto de caça em meio a uma guerra

Recebi a foto por aplicativo de mensagens durante a última edição do programa dominical que apresento na internet. Aliás, foram três fotos do mesmo cartaz em manifestações aparentemente em cidades diferentes.

Mais um 1º de maio em verde e amarelo… Um mesmo cartaz, com uma frase de Winston Churchill: “Nunca tantos deveram tanto a tão poucos”. Abaixo dela, a foto de dez comunicadores, a foto de jornalistas!

Manifestação a favor do governo Bolsonaro, em Florianópolis – Foto: Leo Munhoz/NDManifestação a favor do governo Bolsonaro, em Florianópolis – Foto: Leo Munhoz/ND

Eu estava entre eles, em companhia que muito me honra: Alexandre Garcia, Augusto Nunes, Cristina Graeml, Ana Paula Henkel, Rodrigo Constantino…A frase de Churchill, proferida em discurso na Câmara dos Comuns em 1940, se referia aos aviadores britânicos que resistiam aos ataques nazistas durante a 2ª Guerra.

Naquele cartaz nas manifestações pelo Brasil, nenhum de nós é um piloto de caça em meio a uma guerra. Não a que se trava com aparato bélico, com bombas e tiros. Porque, sim, há uma guerra. Ainda assim, não somos heróis de nada. Somos combatentes posicionados, não somos militantes. Talvez sejamos. Nossa militância eterna é pela única forma de jornalismo possível: aquela que respeita os fatos, que mergulha na realidade, que conta todos os lados da história.

O jornalismo que respeita a curiosidade, a desconfiança, que pergunta e permite que perguntem, que preserva e estimula o senso crítico, o debate. A questão é que inventaram um conceito segundo o qual basta alguém enxergar meia qualidade no governo para se tornar “bolsonarista”. Daí a ser chamado de negacionista, genocida, fascista e nazista é um pulinho. A turma no cartaz é pacífica, mas não pacifista.

Não foge à luta pela verdade, não apela para conjunções adversativas para diminuir acertos e conquistas. Fala de problemas reais, enxerga soluções a caminho e também os inevitáveis tropeços,que não são aumentados, desvirtuados e endereçados a um único culpado, numa guerra política suja.

Há uma turma grande que não relativiza o conceito de liberdade, que poderia estar em muitos cartazes, em muitas manifestações. Ainda que eu consiga estranhar alembrança, a homenagem, o agradecimento feito no último primeiro de maio.

Se o jornalista trabalha com histórias reais e ainda em movimento, mais do que ninguém,tem a obrigação de defender a democracia, a liberdade de expressão, o devido processo legal, a Constituição…É nosso dever, ou seremos militantes, seres passionais,cegos, intolerantes, reféns dos nossos próprios desejos.

O objetivo principal será sempre informar da maneira correta, com clareza, objetividade, coloquialidade. Qualquer posicionamento só pode ser aceito quando baseado no mundo real.

E objetivos inaceitáveis são todos aqueles que, como escreveu Alexandre Garcia, “escapam da vocação natural e da obrigação do jornalismo: estarem defesa vigilante dos valores éticos, humanos e legais que nos mantêm em civilização, livres de qualquer tipo de totalitarismo”.

Se há jornalistas homenageados em manifestações é porque há os que não merecem reconhecimento… E todo jornalista deveria ter o compromisso com a verdade, o único caminho para a liberdade.

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