Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


Tapetes de Corpus Christi

Essa reverente cortina musical, pontuada pela tuba da banda da PM, transformava-se na senha para a debandada dos transgressores

Areias brancas e inas. Areias mais grossas, tingidas. Conchas, folhas de bananeira, barbas de velho debruando o “canteiro”. Os tapetes de Corpus Christi eram o atestado da fé das Filhas de Maria, o devotado suor dos irmãos e das irmãs, transformados em mestres ourives das artes sacras.

O feriado de quinta-feira convidava ao exercício da fé e da relexão. Mas o que atraía os meninos da Cruzada Eucarística do Colégio Catarinense não eram os tapetes ornamentais, cuidadosamente arranjados pelas artesãs de Deus.

Missa de Corpus Christi – Foto: Moisés Stuker/NDTVMissa de Corpus Christi – Foto: Moisés Stuker/NDTV

Era cometer pecadilhos veniais, transgredir, pisar no trilho daqueles canteiros proibidos, privilégio único de D. Joaquim Domingues Belleza de Oliveira, o Quincas Belleza, Arcebispo Metropolitano. O Belleza, com dois “eles” não era apelido, como se pensava. Era sobrenome.

Sob o abrigo do pálio, “casinha ambulante” dentro da qual se alojavam o Redentor, a Eucaristia e os políticos, o “cercadinho” era sofregamente disputado pelos candidatos a postos eletivos.

Segurar o pálio equivalia a uma indulgência plena, espécie de “Ficha Limpa” com o Senhor.– Queremos Deus, homens ingratos! – dizia o refrão do hino sacro, entoado a plenos pulmões pelos jovens cruzados. Essa reverente cortina musical, pontuada pela tuba da banda da PM, transformava-se na senha para a debandada dos transgressores, que já haviam pisoteado os tapetes e trocado a contrição pela descontração.

Na altura do “Poema Bar”, ali na cabeceira da Praça XV, à direita da Catedral, os moleques abandonavam o cortejo, misturando-se com os iéis que o assistiam. O chamariz irresistível estava na rua Padre Miguelinho, ao lado da Cúria Metropolitana: o celulóide completo de “Sinbad, o Marujo”, legítimo “capa e espada marítimo”, com Douglas Fairbanks Junior, Maureen O’Hara e Antony Queen – “ilme de pirata” do Cine Roxy, em contraste com a atmosfera de contrição e recolhimento.

Passado o feriadão, a “galera” voltava ao Colégio Catarinense, imaginando-se imune às punições, convencida de que cometera o crime perfeito. Até que padre Jeremia, o Pomboca, atirasse sua seta embebida pelo “Curare” da vingança:– Para quem foi ver “Sinbad, o Marujo” na hora da procissão, tirem uma folhinha…

Tema de redação, valendo nota: “Um Cruzado não pode ser um Iniel!”… Caprichei na redação. Mas o anjo vingador Jeremia (seu nome era assim mesmo, “no singular”), não estava abençoado pela bonomia do perdão. Tirei uma nota medíocre, muito mais pelo atrevimento de elogiar o ilme e escrever, como numa redação maluca do Enem:– “Nas procissões também há piratas de bom coração”…

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