Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


Um lema para o Brasil

Teria que ser algo com maior substância do que o velho enunciado positivista que desde 1889 adorna o nosso pendão

Imaginem se fôssemos desafiados a criar um bom lema para o Brasil de hoje, que só concorda em discordar. Teria que ser algo com maior substância do que o velho enunciado positivista que desde 1889 adorna o nosso pendão.

Bandeira do Brasil – Foto: PixabayBandeira do Brasil – Foto: Pixabay

O filósofo e político Darci Ribeiro, um eterno sonhador, aceitava o lema de Augusto Comte, “Ordem e Progresso”, mas achava que a personalidade “efervescente” dos brasileiros exigiria um suporte mais caloroso. E sugeriu, divertido: – Por que não “Amor, Ordem e Água Fresca”? Seria ótimo. Mas ficaria faltando o deboche dos descrentes. O Brasil de hoje está menos para frases positivistas e mais para diminuições perturbadoras, como: – “Desordem, Intolerância e Regresso”.

Se ainda temos o direito de dar um beijo nos lábios da amada – e sem pagar imposto – nem tudo está perdido neste Brasil do século 21. Já imaginaram se a Câmara Municipal, a Assembleia ou o Congresso resolvessem aprovar um projeto de lei onerando o beijo e o carinho? Já pensaram a Receita Federal obrigando o cidadão a renovar todos os anos a sua “Declaração do Imposto do Amor e do Bem Querer”?

Não vamos, pois, endurecer nossos sentimentos. “Namorar”, por exemplo. É de graça. É tão belo e tão puro que contém a palavra “amor” bem no meio do verbo. Sua conjugação é tão antiga quanto o romance de Romeu e Julieta, nascido da pena de Shakespeare e supostamente vivido na Verona medieval, nas fraldas da Renascença.

Neste friozinho de meados de agosto – ao contrário da encalorada briga que já se derrama pelo país, em torno dos vários tipos de “impeachment” – com várias carapuças à disposição – deveria prevalecer o bem-querer à pátria comum.

E não a partidos políticos, como algum desses 35 existentes na sortida sopa de letrinhas de tantos infiéis. Agosto é tradicionalmente um mês aziago para a política e não deveria terminar com levantes ou guerrilhas, mas com compaixão.

Questões de natureza legal ou constitucional não deveriam ser conduzidas nas casas legislativas, ou no meio do Judiciário, com a paixão própria das arquibancadas do futebol. Onde está o “homo cordialis”, que se supunha ser a “personna” de todo bom cidadão nacional?

Os brasileiros, que já sabem protestar em paz e sem quebrar nada, gostariam de incluir uma inscrição prática em nossa bandeira: – “Ordem, amor e paz” e – por favor, senhores políticos e magistrados com comichão política – que tal fumar o cachimbo da concórdia, só para variar?”

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