Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


Vigora em Brasília uma daquelas famosas leis que “nunca pegou”

Nelson Rodrigues, o dramaturgo da alma brasileira, matou a charada há mais de 40 anos: – O homem faliu. Trata-se de uma espécie que não deu certo...

Vigora em Brasília uma daquelas famosas leis que “nunca pegou”: o limite para o teto salarial dos poderes do Estado, por exemplo. O teto máximo seria o vencimento de um ministro do STF: algo como R$ 34 mil. O jeitinho para transgredir o teto é o conhecido “penduricalho”.

Não há contracheque de suas excelências que não inclua um desses sufixos: auxílio-moradia, auxílio-alimentação, auxílio-transporte, auxílio-paletó, auxílio-trienal, auxílio-indenização, auxílio para a escola dos filhos e mais o “adjutório” que se possa imaginar. É o Brasil. As corporações fazem as suas próprias leis e a Lava Jato que vá lavar em outra freguesia.

Nelson Rodrigues, o dramaturgo da alma brasileira, matou a charada há mais de 40 anos: – O homem faliu. Trata-se de uma espécie que não deu certo… – Foto: Divulgação/ND

Outra para “inglês ver”: criaram nas estatais habitualmente assaltadas pelos partidos políticos uma diretoria de “Compliance”. Não é moderno?

É o termo, em inglês, da regra de conduta corporativa que zela pelas “leis e regulamentos internos”. Meu Deus, mas só agora, depois dos cofres arrombados e dos assaltos até nas verbas da pandemia?

Deveria ser criada a diretoria “É Proibido Roubar”. Assim mesmo, em português, para que todos entendessem.

Nelson Rodrigues, o dramaturgo da alma brasileira, matou a charada há mais de 40 anos: – O homem faliu. Trata-se de uma espécie que não deu certo…

Num clima de pandemia, e num país em que denunciados presidem os poderes do Estado, instala-se no horizonte moral do Brasil um inevitável efeito “Orloff”: o diretor de estatal de hoje é o delator (premiado) de amanhã…

José Guilherme Merquior, falecido ex-embaixador, ex-acadêmico e autor de textos sobre o “ser” e o “existir”, tido como um filósofo “da direita”, foi feliz ao definir a primeira necessidade do país: – Desprivatizar o Estado…

O brasileiro envergonhado tem sido obrigado a conviver com uma nação traumatizada pelo domínio das gangues, decidindo processos administrativos, como uma licitação de cartas marcadas.

E infelicitada nos gabinetes de certas elites partidárias, “hipnotizadas” pela cleptomania e pela compulsão de apropriar-se do Estado, a fim de saqueá-lo.

*****

O Brasil é um país “quase” civilizado. É como diagnosticou Nelson Rodrigues, num Rio de Janeiro ainda nem tão violento: – Estamos sempre nos subúrbios de uma plenitude e nunca chegamos lá. Quase fazemos as coisas vitais e realmente nunca as fazemos.

Somos como aquela aldeia do Nonsense, onde os homens são quase capazes, a Polícia é quase honesta, a “renda per capita” é quase de primeiro mundo.

Neste “país-do-quase”, estamos de volta à Idade Média.
Não nos faltam leis somente decorativas. Leis de brincadeira, as tais, “que não pegam”…

Brasília garante que a nova lei de proteção aos animais, projeto do deputado federal Fred Costa (Patriotas), vai “pegar”: em vigor desde terça-feira (29), a lei aumenta as penas dos humanos que maltratarem cães e gatos.

Era de insignificantes três meses a um ano. Agora, passou para de dois a cinco anos. Já foi sancionada pelo presidente Bolsonaro, em homenagem ao “pitbull” Sansão, que teve suas patas mutiladas por algum desalmado.
O que significa dizer, sem medo de errar, que no Brasil de hoje os cães e os gatos já são muito melhor tratados do que os contribuintes.