Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


Vive-se hoje a chamada “judicialização” da política

Tantos foram os “malfeitos” e os “maus-passos” dos políticos, que o judiciário decidiu governar – e o pior, sem ter sido votado

Ninguém pode se animar muito com a notícia de que há 20 indiciados em inquérito penal para apurar as responsabilidades pela fraude dos respiradores. São os “imputáveis” de sempre, geralmente os funcionários de menor hierarquia. Enquanto isso, os “inimputáveis”, também os de sempre, têm a possível ação penal arquivada, embora estejam na ponta do poder decisório.

Tantos foram os “malfeitos” e os “maus-passos” dos políticos, que o judiciário decidiu governar – e o pior, sem ter sido votado – Foto: Divulgação/JusCatarina/NDTantos foram os “malfeitos” e os “maus-passos” dos políticos, que o judiciário decidiu governar – e o pior, sem ter sido votado – Foto: Divulgação/JusCatarina/ND

Num país em que os colarinhos brancos escolheram a política como instrumento de enriquecimento ilícito, os “prontuários” impressionam.

Todos os governadores do Rio de Janeiro estão presos, ou estiveram, em algum momento, durante os últimos 25 anos. Isso mesmo: de 1995 até hoje, frequentaram a cadeia os dois Garotinhos – marido e mulher – Sérgio Cabral e, brevemente, Luiz Fernando Pezão e Wilson Witzel…

Sem falar nos deputados da Assembleia, secretários de Estado, conselheiros do Tribunal de Contas. Não há “sol redondo” para  os políticos cariocas: no Rio, o sol dos engravatados já nasce quadrado.

Descobertos, eles declaram “estado de calamidade financeira”, habilitam-se ao socorro fiscal bancado pelo resto do país e continuam a roubar…

O Rio transformou os seus “prontuários” em biografias comuns. E esses biografados agora reclamam dos rigores da lei. Ora, foram os políticos que delas fizeram letra morta e agora reclamam da sua aplicação.

Vive-se hoje a chamada “judicialização” da política. Tantos foram os “malfeitos” e os “maus-passos” dos políticos, que o judiciário decidiu governar – e o pior, sem ter sido votado para cumprir tal mandato. É o pior dos mundos.

Com a erupção da “Lava-Jato”, a porção saudável desta Justiça capturou no ar a inevitável náusea que se instalou no peito do povo brasileiro. Um sentimento de repulsa, repugnância, nojo, enjôo, engulho, enfaro, asco.

Chegou ao olfato da Justiça essa aversão ao pútrido, ao fedorento, ao mefítico, ao fedegoso, ou, como bem diria um Mané, ao “catinguento”.

Há corruptos e corruptores na cadeia. E há centenas de políticos – de todos os partidos – sendo investigados. O templo dos vendilhões ruiu no Brasil. E as instituições estão funcionando no módulo de segurança, como o veículo que precisa trocar os pneus em movimento, ao longo da jornada.

O Brasil anseia pelo dia em que o sol raiará sem novos escândalos e a pátria poderá, afinal, respirar sem a ajuda de aparelhos, como nessa interminável temporada de caça aos corruptos.

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Tinha razão Tom Jobim: o Brasil não é mesmo para principiantes. Aqui, os réus acham que podem afrontar as cortes e reescrever a lei.

Aqui, até os velhos ditados são contrariados e perdem o sentido, diante de um país surreal.

Dos males, o pior.