Com o retorno do Talibã, no Afeganistão, ONU prevê novas – e graves – crises migratórias

Desde o início do ano, milhares de famílias já vinham deixando suas casas no Afeganistão, situação que só foi intensificada com a retomada de poder pelo Talibã na última semana

Uma grave crise migratória pode ser o novo cenário mundial nas próximas semanas, segundo o Acncur (Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados).

A agência vinculada à ONU (Organização das Nações Unidas) aponta que muitas famílias já vinham deixando suas casas desde o início do ano, prática que deve se intensificar com a retomada de poder pelo Talibã no Afeganistão, após a retirada das tropas de soldados norte-americanos do país.

Famílias afegãs se veem em situação de migração forçada com retomada de poder do Talibã no Afeganistão – Foto: Pixabay/Divulgação/NDFamílias afegãs se veem em situação de migração forçada com retomada de poder do Talibã no Afeganistão – Foto: Pixabay/Divulgação/ND

“As recentes ondas de violência e insegurança já deslocaram cerca de 550 mil pessoas apenas neste ano, sendo 390 mil desde maio. Na ausência de paz e desenvolvimento, mais pessoas serão forçadas a deixar suas casas e buscar proteção em outros locais do país ou nos países vizinhos”, disse Luiz Fernando Godinho, oficial de comunicação do Acnur.

Atualmente, o Afeganistão é o terceiro país com o maior número de pessoas refugiadas em outros locais do mundo, atrás apenas da Síria e da Venezuela. De acordo com a última edição do relatório anual Tendências Globais do Acnur, publicado no final de 2020, 2,6 milhões de pessoas saíram do país em busca proteção internacional.

Retirada dos Estados Unidos do Afeganistão

Os deslocamentos migratórios observados devem-se ao processo de retirada das tropas militares dos Estados Unidos, que ocupavam o país desde 2001, em resposta aos ataques terroristas aos edifícios do World Trade Center, em Nova Iorque. Na época, a autoria da ação foi assumida pelo grupo Al Qaeda, que recebia abrigo no Afeganistão, então governado pelos talibãs.

A decisão de encerrar essa ocupação territorial foi tomada ainda no último ano, pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que fixou até maio deste ano o prazo para a retirada dos militares. Eleito para a sucessão presidencial, Joe Biden assumiu o cargo e alterou o cronograma, que seria concluído em setembro, mas foi antecipado para agosto.

À medida que as forças norte-americanas deixavam o país, ocorreu um rápido avanço dos talibãs sobre as mais diversas cidades. A volta ao poder se consolidou no último domingo (15), quando o presidente afegão Ashraf Ghani deixou o país e o controle do palácio presidencial foi assumido pelos rebeldes.

Diante do cenário, foi montada uma operação pelos Estados Unidos para acelerar a conclusão do processo de saída de seus cidadãos do país. As tropas norte-americanas ainda controlam o aeroporto e tentam organizar o embarque de diplomatas e cidadãos. No local, o cenário é de caos.

A história se repete

Parte da população afegã está apavorada devido ao histórico dos talibãs, que governaram o país entre 1996 e 2001. Na ocasião, o grupo extremista promoveu execuções de adversários e aplicou sua interpretação da Sharia, a lei islâmica. Um violento sistema judicial foi implantado: pessoas acusadas de adultério podiam ser condenadas à morte e suspeitos de roubo sofriam punições físicas e até mesmo mutilações.

Mulheres não podem ir às ruas sem burcas no Afeganistão durante mandado dos Talibãs – Foto: Pixabay/Divulgação/NDMulheres não podem ir às ruas sem burcas no Afeganistão durante mandado dos Talibãs – Foto: Pixabay/Divulgação/ND

O uso de barba se tornou obrigatório para os homens e as mulheres não poderiam ser vistas publicamente desacompanhadas dos maridos. Além disso, elas precisavam vestir a burca, cobrindo todo o corpo. Televisão, música e cinema foram proibidos e as meninas não podiam frequentar a escola. Embora venha apresentando um discurso moderado, há receio de que o Talibã volte a exercer o poder com violência.

Apoio do Acnur

Diante da possibilidade de uma nova crise migratória, o Acnur já está desenvolvendo ações específicas para os afegãos. Em nota, a agência pediu que seja garantido ao trabalho humanitário livre acesso aos civis e comunidades que estejam em situação de vulnerabilidade no país.

O texto também cobra a responsabilidade das nações, para que permitam que os fugitivos da guerra possam ter acesso aos seus territórios e encontrem proteção. “Embora os campos de refugiados possam ser usados como uma medida temporária no caso de grandes massas de refugiados, o Acnur defende a busca por alternativas mais sustentáveis no longo prazo no que diz respeito à recepção e à acolhida”, registra.

O Acnur também recomenda cautela com processos de deportação de afegãos nesse momento. A agência se mantém exclusivamente com a ajuda financeira de pessoas físicas, governos e empresas privadas. “Diante da complexidade de crises humanitárias, as doações são fundamentais para ampliar o alcance e o impacto dos programas do Acnur na vida de milhares de crianças, homens e mulheres”, diz Godinho.

*Com informações da Agência Brasil

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