Alta abstenção ocorre por descrença na democracia, afirma professor

Florianópolis registrou a maior taxa de abstenção nas eleições. Com a facilitação de justificativas, povo pode expressar de forma ilesa a apatia com o regime representativo, argumenta professor

Pouco mais de 100 mil eleitores (28,5%) de Florianópolis se abstiveram nas eleições deste domingo (15). É mais que o dobro das abstenções registradas no primeiro turno das eleições de 2016 (12,25%), disputa que também elegeu Gean Loureiro (DEM).

A abstenção nas eleições é uma tendência mundial e expressa uma apatia geral com o sistema representativo, argumenta o professor Waldir José Rampinelli, titular do departamento de História da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Título de eleitorCom a pandemia, justificativa do voto pode ser feita através do aplicativo da Justiça Eleitoral – Foto: Arquivo/Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Em Florianópolis, a abstenção é a maior desde 1992, conforme registros do TRE-SC (Tribunal Regional Eleitoral). Nunca antes ultrapassaram a casa dos 20% – e raramente chegaram perto. Em Blumenau (27%) e Joinville (25,13%) os números também foram significativos.

Em todo o país, a abstenção foi de 23,1% (34,1 milhões de eleitores). Mais de dez Capitais registraram abstenção acima de 25%. Em São Paulo e no Rio de Janeiro as taxas de abstenção estiveram acima de 25%, superior ao índice nacional.

O ministro Luiz Barroso, presidente do TRE, esperava que o número de eleitores faltosos seria de aproximadamente 30%, devido a pandemia. Já Rampinelli ressalta que o TRE garantiu condições seguras ao voto. Nestas eleições o eleitor pode justificar o voto através do celular, sem sair de casa, com o aplicativo e-Título.

“O pessoal aproveitou a onda e decidiu não votar. A abstenção não ocorria antes devido ao medo de punição. Justificar o voto era um incômodo maior que votar, exigindo que a pessoas se locomovessem ou impedindo que elas tirassem documentos, entre outras coisas” afirma Rampinelli.

Descrença

A situação escancara uma pergunta ignorada – há uma descrença na democracia. “Precisamos definir esta democracia: ela é representativa e burguesa” afirma Rampinelli. “O povo não se sente ator da democracia. Eles [os políticos] estão lá em cima e nós aqui embaixo”.

O problema é mundial. Para citar alguns exemplos, na França, recordes de abstenção são “quebrados” eleição após eleição.  Já nos EUA a abstenção é um problema histórico – com exceção deste ano, cujo recorde em comparecimento ocorreu devido a uma campanha nacional para a não eleição de Donald Trump.

“A democracia representativa é um meio de exercer política que permite quem tenha dinheiro tenha mais possibilidade” ressalta Rampinelli. “Se o voto no Brasil não fosse obrigatório, mais de 50% da população não votava”.

Risco

O perigo é que essa apatia ao sistema representativo se transforme também em uma apatia a política de forma geral. Neste cenário de deslegitimação política, há políticos que “surfam na onda ” com discursos antissistemicos, e muitas vezes com projetos autoritários de poder.

“A descrença abre espaço aos aventureiros. Os outsiders. Na história, Hitler e  Mussolini também surgiram assim. Eles atacam a democracia representativa. Para o povo, se vêm um ditador ou não, tanto faz. Querem apenas alguém que ponha ordem na casa”.

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