Altair Magagnin

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Cronologia de fatos revela caminho de crise e suspeitas na Polícia Civil de Santa Catarina

Sem alarde, governador Carlos Moisés e secretário Jorge Tasca assinaram ato que trocou chefe da Deic e abriu caminho para mudança em dois delegados, apontada como motivo da saída de Akira Sato


Com base em documentos públicos, é possível entender melhor os meandros da crise institucional instalada no governo do Estado de Santa Catarina. Cada vez mais, ganha contornos de escândalo a situação na Polícia Civil. Depois de substituir o delegado-geral Paulo Koerich pelo delegado Laurito Akira Sato, sem alarde, o governador catarinense Carlos Moisés (sem partido) fez alterações importantes na corporação. Passadas mais de duas semanas, alguns dos fatos narrados a seguir são inéditos.

Reunião pouco depois das 8h de segunda-feira (20) com a participação de Paulo Koerich, Akira Sato e delegados – Foto: Divulgação/NDReunião pouco depois das 8h de segunda-feira (20) com a participação de Paulo Koerich, Akira Sato e delegados – Foto: Divulgação/ND

Na segunda-feira, dia 20 de setembro, a cúpula da Polícia Civil de Santa Catarina foi dispensada. O ato, assinado pelo governador Carlos Moisés e pelo secretário de Estado da Administração, Jorge Eduardo Tasca, foi publicado nas páginas 2 e 3 da edição daquele dia do “Diário Oficial do Estado”. Logo em seguida, outro ato redistribuiu os cargos vagos.

Salvo a divulgação no “Diário Oficial do Estado”, que é obrigatória por lei, não houve comunicação pública, nem mesmo na página institucional da Polícia Civil.

No ato nº 2002/2021, foram dispensados dos cargos: a corregedora-geral, Maria Carolina Milani Caldas Sartor; o diretor de Administração e Finanças, Valerio Alves De Brito; o diretor de Inteligência, Alfeu Orben; o diretor de Investigações Criminais, Luis Felipe Del Solar Fuentes; a diretora de Polícia da Grande Florianópolis, Eliane Márcia Chaves; e o diretor de Polícia do Litoral, Luiz Angelo De Assis Lacerda Moreira.

Por meio do ato nº 2003/2021, foram designados: o corregedor-geral, Marcos Flavio Ghizoni Junior; o diretor de Administração e Finanças, Ricardo Marcelo Casarolli; o diretor de Inteligência, Aldo Pinheiro D´avila; o diretor de Investigações Criminais, João Adolpho Fleury Castilho, a diretora de Polícia da Grande Florianópolis, Tatiana Da Rocha Klein; e o diretor de Polícia do Litoral, Raphael Johann Giordani.

Atos publicados no “Diário Oficial do Estado” em 20 de setembro mexeram nos principais cargos da Polícia Civil – Arte: Altair Magagnin/NDAtos publicados no “Diário Oficial do Estado” em 20 de setembro mexeram nos principais cargos da Polícia Civil – Arte: Altair Magagnin/ND

Comunicação destacou reunião de boas-vindas, mas não mudanças em cargos de cúpula

No mesmo dia 20, segunda-feira, pouco depois das 8h, uma reunião de boas-vindas marcou a transição entre Koerich e Sato. Este encontro está registrado no site da instituição.

“Eu me despeço com a sensação de dever cumprido. Desejo que todos nós continuemos trabalhando para uma Polícia Civil mais forte e para o bem da população catarinense”, afirmou Koerich.

“Esse convite de assumir a delegacia-geral da Polícia Civil é uma honra. Venho para cá com muita vontade de trabalhar e quero fazer o meu melhor”, disse Akira.

Os nomes que seriam substituídos já não participaram da reunião de trabalho realizada naquela mesma segunda-feira.

Trechos das declarações de Paulo Koerich e Akira Sato divulgados à imprensa no dia 20 – Arte: Altair Magagnin/NDTrechos das declarações de Paulo Koerich e Akira Sato divulgados à imprensa no dia 20 – Arte: Altair Magagnin/ND

Caminho aberto para mudanças e suposta coação

Com a troca do delegado Paulo Koerich pelo delegado Akira Sato, na delegacia-geral, e a substituição do delegado Luis Felipe Fuentes pelo delegado João Fleury Castilho, no comando da Deic (Diretoria Estadual de Investigações Criminais), os atos nº 2002/2021 e nº 2003/2021 abriram caminho para outras mudanças na Polícia Civil de Santa Catarina.

Entre as alterações, a dispensa do delegado Jeferson Alessandro Prado Costa da função de titular da Delegacia de Investigação à Lavagem de Dinheiro; da delegada Beatriz Ribas Dias dos Reis, da chefia da Delegacia de Repressão a Crimes Ambientais; e do delegado Cláudio Monteiro, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes, os três pertencentes à Deic.

Diferentemente das decisões que mexem na cúpula da Polícia Civil, que devem ser assinadas pelo governador e publicadas no “Diário Oficial”, mudanças como as realizadas com os delegados da Deic são publicadas no BID (Boletim Interno Digital) e são assinadas pelo delegado-geral.

No site oficial, as edições do BID da Polícia Civil estão desatualizadas. Desde o dia 20, três edições foram publicadas, a mais recente na sexta-feira (1º). Em nenhuma delas consta a decisão sobre os delegados Jeferson e Beatriz.

No campo das especulações, a saída de Jeferson Costa e Beatriz Ribas teria sido determinada por questões políticas. Os dois estavam investigando, nas respectivas áreas, processos que teriam impacto em figuras influentes do Estado.

Jeferson estaria investigando uma suposta fraude em licitações, que começou pelo Porto de São Francisco do Sul e teria se ramificado em outros órgãos do governo. Beatriz estaria investigando crimes ambientais no Norte da Ilha de Santa Catarina, em Florianópolis.

Outra mudança que teria sido solicitada a Akira, mas não efetivada, era a retirada do delegado Rodrigo Raiser Schneider da função de coordenador Estadual das Delegacias de Combate à Corrupção.

A coação para mexer nos cargos teria sido o motivo do pedido de demissão do delegado-geral Akira Sato.

Delegados Rodrigo Raiser Schneider, coordenador Estadual das Delegacias de Combate à Corrupção, seria o próximo a deixar o cargo; delegada Eliane Chaves, ex-chefe da Delegacia de Repressão a Crimes Ambientais, ambos da Deic – Foto: Divulgação/NDDelegados Rodrigo Raiser Schneider, coordenador Estadual das Delegacias de Combate à Corrupção, seria o próximo a deixar o cargo; delegada Eliane Chaves, ex-chefe da Delegacia de Repressão a Crimes Ambientais, ambos da Deic – Foto: Divulgação/ND

Processos correm em segredo e delegado alega motivo pessoal

As investigações conduzidas por Jeferson e Beatriz estão sob sigilo policial. Até o momento, Sato se recusa a dar entrevista. Oficialmente, a saída, 15 dias depois da nomeação, é atribuída a questões pessoais por problemas de saúde. O governador Carlos Moisés também não comenta o assunto.

A empresa Ceon, contratada pelo Estado ainda com o nome de Iosec, que firmou contrato com o porto de São Francisco, nega irregularidades. Em nota oficial, disse que estava disposta a apresentar os contratos que firmou com entes públicos. Quando o blog pediu os contratos, a defesa afirmou que, primeiro, levará os documentos à polícia, quando convocada.

O novo delegado-geral da Polícia Civil, Marcos Ghizoni, afirmou que a Deic será prioridade e que chamará de volta aos cargos os delegados afastados. O delegado Luis Felipe Fuentes afirmou que ainda não foi chamado para voltar à Deic.

Entre ataques e defesas, assunto chega à Assembleia Legislativa

A crise instalada na Polícia Civil de Santa Catarina repercutiu na Assembleia Legislativa. Na sessão dessa terça-feira (5), o deputado estadual Ivan Naatz (PL) denunciou a interferência do Executivo na Polícia Civil e uma suposta corrupção no IMA-SC (Instituto do Meio Ambiente). Ainda na terça, Naatz anunciou que vai pedir a convocação da cúpula da Polícia Civil para prestar explicações aos deputados.

Ivan Naatz (PL), Paulinha (sem partido), Maurício Eskudlark (PL) e Laércio Schuster (PSB) discursaram em plenário sobre o assunto na sessão de terça-feira (5) – Foto: Rodolfo Espíndola/Divulgação/NDIvan Naatz (PL), Paulinha (sem partido), Maurício Eskudlark (PL) e Laércio Schuster (PSB) discursaram em plenário sobre o assunto na sessão de terça-feira (5) – Foto: Rodolfo Espíndola/Divulgação/ND

“A Polícia Civil está em polvorosa com a notícia que o governo queria alterar delegados para suspender investigações dentro do governo”, disse Naatz na tribuna. Em seguida, falou que a investigação envolve a compra de softwares “vendidos por pessoas amigas do governador, coronéis da reserva que se organizaram para vender sem licitação”.

Sobre o IMA-SC, Naatz afirmou que “opera uma facção criminosa que vende licenças ambientais”.

O deputado Laércio Schuster (PSB) também criticou a interferência na Polícia Civil. “Uma tentativa de abafar investigações da Deic sobre crimes de corrupção no governo do Estado”, disse.

Em contraponto, o deputado Maurício Eskudlark (PL) negou que houve interferência. “O delegado Akira Sato foi indicado para assumir a delegacia-geral, aceitou, veio aqui, fez as visitas institucionais, estava motivado, mas daí comunicou que não continuaria na chefia. Procurei me informar, em lugar nenhum ele disse que sofreu qualquer tipo de pressão, ele jamais informou isso, estava com problema de saúde e pediu para sair”, afirmou Eskudlark.

A deputada Paulinha (sem partido) reclamou da postura dos colegas. “Chegou a hora de parar de colocar chifre em cabeça de cavalo. Esta questão da Polícia Civil não há nada que não possa ser contado. Não houve um fio de comentário de que teria sido coagido, o objetivo é atacar o governo”, lamentou Paulinha.

A delegada Beatriz Ribas foi identificada incorretamente com foto da delegada Eliane Chaves. A foto está corrigida.

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