Candidata do PSOL, Georgia Faust apresenta propostas para a prefeitura de Blumenau

Concorrendo pela primeira vez a um cargo no Executivo, a educadora é a quinta entrevistada do Grupo ND na série que sabatina os concorrentes à prefeitura da cidade

A série de entrevistas com os candidatos a prefeitura de Blumenau tem nesta sexta-feira (16) a participação da mestre em Educação Georgia Faust, candidata pelo PSOL.

Georgia Faust (PSOL) é a quinta candidata a prefeitura de Blumenau entrevistada pelo Grupo ND – Foto: Ketlin Ciquelero/Grupo ND

Georgia detalhou para o portal ND+ e para o programa Balanço Geral propostas apresentadas no plano de governo e falou dos rumos que gostaria de dar para a cidade, caso seja eleita.

A educadora blumenauense de 38 anos contou ainda que a política institucional, partidária, entrou em sua vida pela vontade de unir todas as bandeiras pelas quais sempre militou em uma luta direcionada. A mesma motivação despertou o desejo de se candidatar à prefeitura da cidade:

“É um desafio. Nunca foi a minha meta de vida, eu sou acadêmica, pesquisadora, pretendo também seguir essa carreira, porem sou cidadã de Blumenau, sou mulher, eu vivencio os problemas e as mazelas que a nossa cidade enfrenta, vejo a falta de representatividade das mulheres na política. Isso me incomoda profundamente. Eu uso os serviços públicos da cidade, ESF (Estratégia de Saúde da Família), educação pública, eu sou professora da rede pública, da rede estadual de educação e sinto na pele todos os problemas que a cidade vivencia. Ao perceber que nenhuma candidatura ou que nenhum outro partido representava as pautas que eu considero tão fundamentais pensei que seria a minha vez de tentar enfrentar esse desafio, e principalmente trazendo comigo outras mulheres”, reflete

Confira a baixo a entrevista completa:

ND+: Você propõe romper o contrato com a Agir (Agência Intermunicipal de Regulação do Médio Vale do Itajaí). Por que? Como a sua prefeitura vai suprir a ação de regulação da agência?

Georgia Faust: Bom, essa pergunta eu tenho respondido muito, porque é uma duvida de vários entrevistadores. Na verdade, a minha dúvida é porque nós temos um convênio com a Agir se no nosso ponto de vista ele não seria necessário? A fiscalização e a regulação desses serviços que a Agir fiscaliza e regula deveria ser feita pelo poder público municipal. Tendo em vista o bem-estar da população e não o trabalho da reguladora em parceria com a empresa prestadora de serviços, que é o que nós vemos acontecer em Blumenau.

Hoje, por exemplo, a Agir age em conjunto com a Blumob favorecendo muito mais a empresa do que a própria questão do transporte coletivo. A prefeitura tem infraestrutura para isso, tem fiscais, tem departamentos que fazem essa fiscalização, só que por qualquer motivo que desconhecemos, e imagino que até por um tanto de malícia, preferiu terceirizar essa fiscalização e essa regulação para uma agência reguladora.

Nós não acreditamos que isso seja necessário, achamos que é desperdício de dinheiro público, achamos que a Agir não vislumbra o bem-estar da população e isso só seria feito por meio do poder público, priorizando vidas em detrimento de lucros, que não é o que as empresas que visam lucro pensam.

Confira também a entrevista de Georgia Faust para o Balanço Geral:

ND+: Uma das suas propostas para o transporte é a tarifa zero. Como chegar nesse valor e oferecer um transporte público com a qualidade que a população cobra?  

Faust: Nós temos essa Tarifa Zero como uma pauta nacional do nosso partido. Em quase todos os lugares que nós temos candidatura nós estamos pleiteando a Tarifa Zero. Essa proposta não caiu do céu, não veio do mundo dos sonhos, veio de um profundo conhecimento que nós temos em relação à mobilidade urbana e à visão do transporte coletivo como um direito humano. O transporte, assim como a saúde e a educação são direitos humanos que devem ser garantidos a toda a população de maneira irrestrita e isso não tem acontecido. É um direito que tem que ser oferecido para a população sem ônus, assim como educação e saúde.

O que nós vemos hoje é que com a concessão do transporte público para uma empresa privada, e elas têm um único objetivo que é visar o lucro, isso é obvio em qualquer sistema capitalista, as empresas visam lucro, e não necessariamente bem-estar da população. Nós temos um serviço de transporte público em Blumenau horroroso, medíocre eu diria, nenhum cidadão de Blumenau está satisfeito com a qualidade do transporte público, esse contrato não está contemplando a população, porém, está dando enormes benefícios para a própria empresa, que tem lucros extraordinários, exorbitantes, inclusive durante a pandemia, quando não trabalharam, não operaram, não ofereceram o serviço e estão recebendo da prefeitura, acho que agora o total está em R$ 8,5 milhões para ressarcir os prejuízos. Então, veja que curioso, o lucro é privatizado na concessão, porém o prejuízo é socializado, então, o prejuízo da empresa quem está pagando é o cidadão blumenauense.

Num sistema municipalizado de transporte, com uma empresa de transporte público municipal, nós não teríamos esse tipo de problema e poderíamos realmente focar na intenção do transporte público, que é fornecer o direito de mobilidade a população blumenauense, de ir e vir. Quando a população não tem direito de ir e vir ela também perde o direito de acessar os serviços básicos: não tem dinheiro para ir até o postinho, não tem dinheiro para ir para a escola, não tem dinheiro para viver a cidade, para ir até o Centro, para relaxar, ir a atividades culturais. O transporte público com esse valor proibitivo de R$ 4,30 é um empecilho para que a população realmente se aproprie da cidade onde ela mora.

Então, a Tarifa Zero é possível, mais de dez municípios no Brasil já implantaram sistema de Tarifa Zero. Eu tenho pesquisado muito sobre isso, é um tema muito estudado e é possível fazer se houver vontade política para fazer e até hoje em Blumenau nenhum governo nunca teve vontade política de beneficiar a população, sempre teve como prioridade beneficiar empresas privadas.

ND+: Na gestão pública, você propõe dotar os conselhos municipais de orçamento. No que isso muda a atuação dos conselhos? De onde viria o recurso?

Faust: Quando a gente fala de dotar qualquer coisa de mais recursos nós estamos falando também de boa vontade política e de organização orçamentária. O que nós vemos em Blumenau hoje é uma má administração dos recursos e muitos benefícios dados para pessoas ou empresas que não precisariam desses benefícios porque já são uma elite econômica de Blumenau, ou porque não seria função delas fornecer serviços para a prefeitura.

Hoje, por exemplo, o município de Blumenau aloca quase R$ 5 milhões em subvenções para ONGs, ao invés de beneficiar a nossa educação pública. Hoje, Blumenau dá quase R$ 2 bilhões em isenções fiscais para grandes empresas, estabelecimentos que têm muito dinheiro e que poderiam muito bem pagar o seu IPTU. O pobre não deixa de pagar IPTU, não tem isenção fiscal, o rico tem; eu não entendo essa inversão da balança, por que o pobre paga e o rico não, na cidade de Blumenau?

Então, essa questão orçamentária é uma questão de reorganizar, nós acreditamos que existe dinheiro, sim, só que ele está sendo mal organizado, mal gerido e mal aplicado nas coisas que nós não consideramos prioridade. Investir, injetar tanto dinheiro, se a gente conseguir reorganizar as contas de Blumenau, direcionando dinheiro para questões que realmente precisam, voltadas para a população e o trabalhador blumenauense, nós conseguimos fazer muitas coisas que não estão sendo feitas, inclusive dotar os conselhos de orçamento para que eles possam fazer e ter mais autonomia nas suas ações, nas suas pesquisas, nos seus empreendimentos e na participação dos próprios conselheiros.

Um conselho para ser forte, para ser realmente participativo, ter as ferramentas necessárias para que haja participação popular, ele precisa de mais coisas do que simplesmente portarias nomeando quem é o conselheiro e de qual conselho. Os conselhos precisam ter autonomia, eles são uma ferramenta de participação popular que o pessoal incentiva e encoraja muito que seja fortalecido cada vez mais, porque essa é a forma que nós queremos governar, com a participação da população. A participação da população ultrapassa ir até a urna e depositar o seu voto, participação da população é durante o ano inteiro, participando de instâncias que deem vez e voz aos habitantes da cidade e os conselhos todos são parte fundamental desse processo.

Georgia Faust (PSOL) é a quinta candidata a prefeitura de Blumenau entrevistada pelo Grupo ND – Foto: Ketlin Ciquelero/Grupo ND

ND+: O maior capítulo do seu plano de governo trata da área da saúde, com muitas propostas para a gestão da saúde, além das questões práticas. Mas, caso seja eleita, vai assumir a cidade em plena pandemia de coronavírus, que deve refletir em todo o mandato. Como você pensa em atuar na questão da pandemia, tanto na área da saúde quanto em outras áreas impactadas, como a economia?

Faust: O coronavírus agravou uma série de problemas que nós já tínhamos diagnosticado no passado. Todas as críticas que nós fazemos agora nós já vínhamos fazendo em gestões passadas, não só municipais, como também estaduais e nacionais. A crise do cuidado, que nós chamamos: crise da saúde, da assistência social e da educação pública. E  então, com o coronavírus, você teve um agravamento de problemas que talvez fossem apenas rachaduras e se tornaram verdadeiros abismos.

A tendência é de que isso se agrave ainda mais em 2021. Nós teremos muitas crianças, por exemplo, cujas famílias não vão mais poder pagar escola particular, vão migrar para a escola pública, e será que as escolas públicas estão aptas para receber todo esse novo contingente de alunos? De maneira semelhante vai acontecer com a saúde pública. Muitas pessoas que, também por restrições de orçamento tiveram que cortar o plano de saúde, por exemplo, vão desembocar na atenção básica do SUS. O que nós temos nos nossos planos para a saúde eu não considero nada inovador, nós não estamos reinventando a roda, estamos debatendo coisas que fazem parte da política nacional do SUS e que por motivos desconhecidos, que eu considero falta de vontade política, nunca foram implantados no município de Blumenau.

Por exemplo, eu considero inadmissível que nós não atinjamos os 50% mínimos de cobertura de ESF (Estratégia de Saúde da Família). Eu nunca vou entender porque isso não acontece numa cidade que se gaba de ter um IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) tão alto, uma qualidade de vida tão alta e despreza o trabalhador pobre, não oferecendo a ele uma atenção básica de qualidade. Blumenau está hoje em torno de 43%, se não me engano, a cobertura de ESF, e é uma exceção no estado de Santa Catarina, porque a grandessíssima maioria dos municípios têm acima de 50% de cobertura de ESF. Dessa maioria, outra maioria tem a cobertura superior a 70% de ESF, então, porque Blumenau está abaixo de 50%?

Isso não é o PSOL que está inventando, é política do SUS. E nós só poderemos trazer as UPAs (Unidades de Pronto-atendimento) para Blumenau, que é uma coisa que quase todos os candidatos que defendem a saúde pública falam, só vamos conseguir fazer isso se tivermos pelo menos 50% de cobertura de ESF, isso é um pré-requisito do Ministério da Saúde, para trazer UPA tem que ter 50%, é a primeira coisa que a gente precisa fazer. Não só por acreditarmos e defendermos o modelo do SUS, mas também porque nós precisamos de um SUS ainda mais fortalecido para enfrentar todos os desafios de 2021.

ND+: As mulheres são a maioria do eleitorado e também da população de Blumenau. Dentro das suas propostas, quais são as políticas voltadas especialmente para esse público?

Faust: A primeira prioridade que nós temos seria efetivar a implantação do Conselho Municipal de Direitos da Mulher. Isso é um projeto que os coletivos feministas e organizações feministas de Blumenau já escrevemos, eu estava junto durante esse processo, nós participamos do processo de construção desse projeto de lei em 2015 ou 2016, se não me engano, e levamos até a Câmara de Vereadores para que algum vereador apresentasse essa proposta. Nenhum vereador teve a boa vontade de pensar na situação da mulher em Blumenau e quis levar esse projeto adiante, eles usaram a justificativa de que isso não é competência do Legislativo. Porém, nós somos mulheres e somos inteligentes o suficiente para saber que pode, sim, ser competência do Legislativo, então nós consideramos isso como uma má vontade em relação ao público feminino, as cidadãs, mulheres de Blumenau.

Ainda assim, tentamos levar via Executivo, entregamos para o então prefeito Napoleão Bernardes, na época, solicitando que o Executivo fizesse essa implementação. Ele sentou em cima desse projeto e Blumenau não tem Conselho dos Direitos da Mulher até hoje. Uma cidade do tamanho de Blumenau, com índices de violência absolutamente assustadores, e eu diria até incondizentes com a imagem que Blumenau passa para fora, de violência doméstica, de feminicídio, de machismo de maneira geral, a Oktoberfest também é um belo exemplo disso, e ninguém teve interesse, nenhum dos homens que estão no poder teve interesse em fazer uma coisa tão simples que é a implantação de um Conselho dos Direitos da Mulher, nós no Executivo vamos começar fazendo isso.

E outros pontos do plano de governo também vão beneficiar as mulheres de maneira geral, porque as mulheres são mais de 51% dos cidadãos dessa cidade. Quando a gente fala de fortalecer a Educação Infantil, por exemplo, zerando a fila de vaga das creches, nós vamos estar beneficiando as mulheres; quando nós falamos do fortalecimento da atenção básica na saúde, as mulheres são as maiores usuárias dos ESFs e do SUS de maneira geral, nós vamos estar beneficiando as mulheres. Tendo mulheres no poder as mulheres jamais serão esquecidas, como foram nos últimos 500 anos de Brasil.

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