Mario Kato (PCdoB) é primeiro candidato a prefeito de Blumenau entrevistado pelo Grupo ND

Candidato falou sobre pontos dos planos de governo destacados pela reportagem do portal ND+. Confira a entrevista completa

Morador de Blumenau há 12 anos, o médico sanitarista Mario Kato é o primeiro das 12 candidatos a prefeito a ser entrevistado pelo Grupo ND em Blumenau.

Candidato a prefeito de Blumenau, Mario Kato (PCdoB) concede entrevista ao Grupo ND – Foto: Alexandre Pereira/NDTV

Durante a entrevista, realizada na manhã desta segunda-feira (12) na sede da NDTV Blumenau, Kato respondeu ao portal ND+ e ao Balanço Geral sobre as propostas que quer colocar em prática se for eleito o próximo prefeito de Blumenau.

Esta é a primeira eleição em que o médico e professor universitário coloca seu nome à disposição do serviço público em um cargo eletivo. O motivo, segundo ele, é a vontade de ver Blumenau crescendo novamente em todos os aspectos.

“A gente percebe que Blumenau estagnou, está parada. Pesquisas mostram que ela está em primeiro lugar na questão econômica, entre os  50 maiores municípios de médio porte do Brasil ela está em primeiro na questão econômica, mas é 34ª e 37ª em saúde e educação, e isso é muito baixo. A gente vê a cidade enriquecendo, mas sem saúde e educação, sem qualidade de vida para população, então, estamos buscando com muita coragem e sabedoria tentar retomar Blumenau para o caminho certo, que é cuidar das pessoas, acolher as pessoas; não é só a gente ser rico, mas não ter qualidade de vida, não auxilia em nada a função dessa cidade”.

Confira abaixo a entrevista completa para o portal ND+ e também o vídeo com as respostas de Mario Kato ao Balanço Geral:

ND+: Caso seja eleito, o senhor vai receber a cidade ainda passando pela pandemia de coronavírus e que deve ter reflexo durante todo o próximo mandato. Como senhor avalia essa situação e o que pretende fazer tanto na questão sanitária, quanto na questão econômica?

Mario Kato: Primeiro por ser médico sanitarista, os médicos sanitaristas nasceram sempre para enfrentar as pandemias e achar solução, não só na área médica, mas na área da saúde, porque o sanitarista entende que a saúde não é o biológico, ele é social também. Então, essa é uma formação que eu tenho já há mais de 15 anos, e a gente conhece o que é enfrentar uma pandemia. A gente compreende que a questão econômica vai ser importante, por isso que temos que gerar a questão da economia de uma forma ampla, tanto de uma questão de estímulo do setor superior, que a gente chama das empresas estabelecidas, de indústria, comércio e serviços, mas também de gerar a economia do setor inferior, e aí vai ser a população que está desempregada, que é a população que vai precisar de trabalho e renda, e isso a gente tem que trabalhar com cooperativas, para desenvolver essa questão econômica.

E na questão de saúde, temos que reorganizar, porque a saúde já vinha com problema de organização e a ela é preponderante. Então, não é uma questão de recurso, é uma questão, principalmente de organização. E tem uma questão importante também na reorganização, que a gente vai ter uma mudança tanto na saúde, educação, transporte coletivo e economia, então a gente vai precisar estimular a questão de usar melhor os recursos. Por isso, a gente imagina que avaliação de contratos, auditoria e renegociação de contratos é essencial. Temos contratos feitos hoje que talvez não sejam os mais adequados. É a mesma coisa daquela dívida que tu tens com o banco, no cartão de crédito, e vai lá renegociar; ao renegociar a dívida você consegue ter uma redução de despesas. Então, com isso a gente consegue criar mais recursos e receitas, para investir em áreas tanto da saúde, da educação e da geração de emprego e renda.

Candidato a prefeito de Blumenau, Mario Kato (PCdoB) concede entrevista ao Grupo ND – Foto: Alexandre Pereira/NDTV

ND+: Gestão pública: no seu plano de governo consta um item que se ouve falar com frequência nesse períodos que é a redução de cargos comissionados e uma movimentação nessa questão dos cargos. Como o senhor pretende melhorar a gestão desses recursos públicos e onde pretende investir os recursos economizados com gestão?

Kato: Primeiro, a gente tem uma clareza que a política não é a politicagem. Então, o que que eles têm feito hoje para fazer a gestão política? Vender apoio, comprar apoio, através de cargo comissionado. A gente sabe que tem vereadores que indicam 50 cargos comissionados, os menorzinhos indicam 30, mas isso vai inchando a máquina pública. O escândalo que teve com um fiscal da Faema (Fundação Municipal do Meio Ambiente) que foi preso por corrupção, já tinha ficha na polícia, era um cargo comissionado indicado por um vereador e estava num cargo de gerência. A gente percebe o quanto esses cargos comissionados, além de atrapalhar a gestão, porque a maioria são incompetentes, eles não sabem o que fazem e também geram um custo maior. Então, a questão do cargo comissionado a gente tem que realmente reorganizar isso, pôr pessoas que realmente saibam a gestão pública e administração, fazer planejamento e gestão, essa é uma questão importante.

A segunda é a questão dos contratos, porque tem contratos que são muito ruins. A gente tem um contrato para distribuição de medicamentos, de insumos para educação e saúde, que é cobrado por quilômetro rodado, R$ 6 o quilômetro rodado para entregar medicamento, é muito mais barato contratar Uber, mas antes tínhamos uma administração pública que fazia isso com muito menos custo. Então, contratos como esse têm que ser revistos, porque senão a gente não consegue reduzir os custos da máquina pública. Um exemplo que teve em São Paulo onde a  vice-prefeita foi do nosso partido, a Nádia Campeão, ao rever contratos eles economizaram em 30% nesse tipo de pagamento, é um bom dinheiro e dá para investir principalmente em saúde, educação e serviços públicos para todo mundo.

ND+: Especialistas consultados pela reportagem apontam três principais deficiências na saúde: a falta de medicamentos na farmácia básica, o tempo de espera por consultas de especialista e por exames. Como o senhor pretende resolver isso?

Kato: Eu falei para você do sistema de logística e distribuição de medicamento. A partir do momento que a gente criou esse sistema de logística nós temos gasto muito mais na distribuição do medicamento do que na compra. Então, com os mesmos recursos que a gente tinha antes, quando era uma logística pública, estamos usando o mesmo recurso e comprando menos medicamentos. Esse contrato tem que ser revisto porque ele tem diminuído o número de medicamentos a serem entregues porque a logística ficou muito cara, então é uma questão de organização da saúde. O número de medicamentos é importante, mas a gente também precisa saber usar os programas federais.  Tem um programa federal muito bom que é a Farmácia Popular, que tem uma série de medicamentos distribuídos gratuitamente nas farmácias comerciais e que a gente poderia estar diminuindo dessa lista de medicamentos, transferindo para as farmácias comerciais e abrindo para comprar outros medicamentos, essa é uma forma de ter mais medicamentos.

A questão dos especialistas e exames, temos um sistema que a gente chama de regulação, que é a marcação de consulta e exames, e que é muito bagunçado! Eu já trabalhei lá e dá para compreender lá que essa marcação está equivocada, eles não conseguem otimizar recursos. Em Pelotas (RS), quando eu trabalhei lá na Secretaria de Saúde, montamos uma central de leitos clínicos e sem aumentar um único leito nós aumentamos em 30% o número de internações no ano. Então, a partir do momento que eu otimizo recursos é que eu vou ver se eu preciso contratar mais ou não especialistas, se eu preciso contratar mais ou não exames, mas primeiro é saber gerir a máquina pública, que muitas vezes eles não estão conseguindo fazer isso.

E esse sistema de regulação, só para ter uma ideia, se eu tenho um problema no ombro e vou no posto de saúde, não posso pedir o ultrassom: eu tenho que ser encaminhado para o ortopedista para ele pedir o ultrassom. Só que o médico no posto de saúde sabe que tem que pedir o ultrassom! Então eu “gasto” uma consulta com o ortopedista para ele fazer o serviço que o médico do posto sabia fazer. Isso é uma organização que não é admissível. Se é médico tem que pedir exame e esse sistema de marcação é que vai regular se precisa ou não: se for um pedido absurdo ele vai negar, se for um pedido correto ele vai autorizar e eu vou fazer o ultrassom sem precisar ir para o ortopedista. Com isso eu reduzo as filas, é outra organização. Se a gente não tiver organização, sabedoria para gerir máquina pública, a gente gasta dinheiro porque não sabe fazer.

ND+: Uma questão crônica da cidade é o transporte coletivo. No seu plano de governo o senhor propõe a criação de uma empresa pública de transporte. Como isso funcionaria?

Kato: Primeiro, temos que imaginar que o sistema tem que ser remodelado. Você tem um contrato, que a gente acha que não é adequado porque diminuiu o número de linhas, diminuiu horários, então precisa reorganizar isso. Em Curitiba eles têm sistemas que são troncais, que vão de terminal a terminal; ônibus alimentadores que vêm dos bairros para o terminal e circulares que vão pela periferia ou o circular Centro. Com isso a gente vai ter que aumentar o número de linhas e horários. A atual empresa vai ficar com uma parte desse sistema e a gente vai ter que ampliar para outras empresas.

E uma empresa pública de transporte serve para uma coisa muito importante: se ela for criada para assumir 5%, 3% do sistema, ela já está cumprindo uma função importante, que é de saber qual é o custo do pneu, do trabalhador, qual é o custo dos insumos, porque quando as empresas vêm negociar com a prefeitura o aumento de tarifa elas trazem planilhas de custo e a gente não é do setor de transporte. Com uma empresa pública que a gente confie na idoneidade dos dados eu consigo calcular melhor os custos e saber que essa tarifa talvez não seja o que eles estão pedindo; o custo do pneu não é 100, é 50, o custo do diesel tá sendo tanto, não é tanto. Então, eu consigo saber qual é o real custo para negociar uma tarifa menor e conseguir propor, e em conjunto com os trabalhadores, que eles tenham mais salários, porque as empresas privadas estão pensando só no lucro delas, e lucros cada vez maiores. A empresa pública não vai pensar no lucro, ela vai pensar na efetividade. Então se ela tiver 2%, 3% do sistema ela já é útil, tanto para o trabalhador na hora das negociações salariais, mas principalmente para a prefeitura, para que a gente possa calcular melhor o valor da tarifa, porque R$ 4,30 é uma vergonha!

Como é que a gente vai fazer com que o trabalhador vá e volte de casa com um custo tão alto? Como é que a gente vai fazer com que o trabalhador consiga fazer no domingo um momento de lazer com a família, se ele vai gastar quase R$ 20 só em vale-transporte? Esse valor é muito alto e a empresa pública ela serve – o pessoal do meio fala “empresa espelho” –  porque com esse espelho eu consigo calcular custos e a gente pode diminuir a tarifa de transporte.

ND+: Qual a sua proposta para as mulheres de Blumenau, considerando que elas são a maior parte da população e do eleitorado?

Kato: Primeiro, às vezes a gente pensa que a questão da desigualdade entre homens e mulheres se reduz quando temos uma sociedade um pouco mais instruída, né? E impressionantemente a gente percebe hoje, mesmo em Blumenau, que a diferença salarial entre o homem e a mulher, mesmo quando ocupam as mesmas posições, acontece também e de maneira muito intensa, de diferença de 30%, 40% no valor de salário. Então, sim, temos que ter políticas afirmativas para as mulheres, mesmo no setor público, porque temos dados da Furb que mostram nos estudos do instituto de economia e desenvolvimento regional, que mesmo no setor público, que teoricamente o ingresso é por concurso, as mulheres também recebem menos do que os homens. A gente tem que trabalhar com isso, as políticas afirmativas são importantes, nós tentamos na nossa chapa por muito tempo para que tivesse pelo menos 50% de candidatas mulheres, mas a gente tem uma dificuldade de inserir as mulheres dentro da política, e a mulher na política ela é essencial, Nós sabemos que a política às vezes é meio dura e, infelizmente, o que a gente tem visto na política é que ela também é traiçoeira, ela não é leal como deveria ser, como a gente aprende que deve ser, então a mulher muitas vezes se afasta disso.

Então, primeiro, temos uma política dentro do nosso partido de fazer condutas internas muito leais, para que a gente possa atrair mais mulheres, trabalhar de igual pra igual. Na próxima convenção do partido vamos propor que a direção tenha metade de mulheres, porque isso vai ser importante para nós. E a gente quer que essas mulheres sejam eleitas, sim, em todos os cargos eletivos, e também nos cargos de direção.

Uma das coisas que a gente tem que fazer é no secretariado, sendo que se a gente for pensar, nas secretarias de Saúde, de Educação, de Assistência (Social) onde a maioria absoluta são servidoras mulheres, a gente precisa ter nesses cargos também mulheres. E elas são muito mais competentes às vezes que os homens, porque elas estão lá no dia a dia, e se elas estão lá a gente consegue selecionar as mais capacitadas para trabalhar dentro da máquina pública também. Então, as eleições elas tem que ter mais mulheres, e também nos cargos políticos e secretarias tem que ter mais mulheres.

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