O que tem motivado os ataques de ódio a vereadores em Joinville

Em uma semana, Ana Lucia Martins (PT) e Alisson Júlio (NOVO) foram alvos de ataques de ódio e ameaças de morte

Uma semana se passou desde que as urnas apontaram a eleição de Ana Lucia Martins (PT) e Alisson Júlio (NOVO) pela primeira vez à Câmara de Vereadores de Joinville, no Norte de Santa Catarina. Os dois fizeram história na maior cidade do Estado. É a primeira vez que uma mulher negra e que um cadeirante se elegem para o Legislativo joinvilense.

Vereadores são alvos de ataques de ódio e ameaças de morte – Foto: Reprodução/NDVereadores são alvos de ataques de ódio e ameaças de morte – Foto: Reprodução/ND

Mas, ao cravar o nome na história da cidade, os dois têm sido alvos de ataques de ódio intensos. Ana Lucia Martins foi ameaçada de morte em comentários nas redes sociais horas após a divulgação do resultado das eleições. Em comentários nas redes sociais, um perfil a ameaçou de morte e sugeriu que o assassinato da vereadora pudesse “abrir caminho” para um vereador branco substitui-la.

O caso ganhou repercussão e ela voltou a ser atacada em e-mails direcionados diretamente a ela. O suspeito foi identificado pela polícia, prestou depoimento e foi liberado por ainda não ter um mandado de prisão contra ele. De acordo com a Polícia Civil, a família do jovem de 22 anos alegou que ele sofre de esquizofrenia.

Nesta segunda-feira (23), Alisson Júlio também foi ameaçado. A ameaça teria sido motivada após declarações do vereador mais votado em defesa e apoio a Ana Lucia. Apesar de muito semelhantes às ameaças anteriores, a delegada Claudia Cristiane Gonçalves de Lima, afirma que, em princípio, não há relação com o suspeito ouvido no fim de semana. “Pode ser que seja de um mesmo grupo que ele faça parte, não é algo que possamos afirmar, mas parecem ser fatos distintos. No entanto, pode ser que um grupo tenha tomado essa iniciativa”, explica.

Os e-mails enviados novamente à Ana Lucia têm como remetente outro endereço e, por isso, a delegada conta que orientou a vereadora a registrar um novo boletim de ocorrência.

Para cientista política, não há pluralidade política na cidade

Para a cientista política Karolina Mattos Roeder, a ascensão da extrema direita no país e no mundo estimula esse tipo de comportamento reacionário, mas ela destaca, também, que se trata de uma minoria.

Alisson Julio foi eleito o vereador mais votado de Joinville  – Foto: Redes Sociais/DivulgaçãoAlisson Julio foi eleito o vereador mais votado de Joinville  – Foto: Redes Sociais/Divulgação

“O que pode ter mudado é a ascensão da extrema direita, as pessoas se sentem mais à vontade para externar posições racistas, machistas, xenófobas. Em nível local, Joinville já tem histórico, as cidades catarinenses possuem esse histórico, são de imigração germânica e tem essa dificuldade de lidar com o diferente, tem pouca diversidade, pouco respeito à diversidade”, salienta.

A cientista política ressalta, ainda, que a cidade tem um histórico de pouca pluralidade nos ambientes de poder e a chegada de grupos pouco representados nesses espaços causa uma reação extremista e de pessoas que não têm constrangimento em atacar o outro por ser diferente.

“Joinville nunca foi muito democrática do ponto de vista da pluralidade, há uma dificuldade em conviver com o diferente. A cidade sempre foi racista e isso reflete na composição da Câmara. O fato de termos sempre poucas mulheres em espaços de poder, evidencia um pouco esse preconceito, machismo e racismo presente na sociedade joinvilense. É preciso avançar muito nesse sentido de pluralidade política que é própria da democracia. É absurdo alguém ser ameaçada por ser eleita e outra pessoa ser ameaçada pelo apoio”, destaca.

Mulher, negra e de esquerda, o tripé que causou ataques de ódio, fala cientista social

Pela primeira vez na história uma mulher negra ocupará uma cadeira no Legislativo joinvilense. Além de mulher, negra e professora, Ana Lucia Martins tem uma posição política de esquerda que ultrapassa a sigla escolhida para a corrida eleitoral. O PT (Partido dos Trabalhadores) retorna à Câmara de Vereadores com ela, que sempre se posicionou politicamente e sempre movimentou a cidade por meio de movimentos negros e feministas.

Ana Lucia Martins é a primeira vereadora negra eleita em Joinville – Foto: Redes sociais/Divulgação/NDAna Lucia Martins é a primeira vereadora negra eleita em Joinville – Foto: Redes sociais/Divulgação/ND

O posicionamento da vereadora é, para o cientista social Belini Meurer, parte do tripé que “incomoda” as pessoas que mantém pensamentos de supremacia. “Eu vejo que além da vertente política de esquerda, ela é mulher e, em uma cultura machista, a presença da mulher sempre é vilipendiada. Ana é negra e se posiciona como negra. Tudo isso soa para essas pessoas como um atrevimento”, fala.

Belini salienta, ainda, que há um retorno de pensamentos supremacistas nos últimos anos fomentando a segregação racial, sexual e de diversos segmentos e, em um período de mudanças, as pessoas não aceitam resultados que as contrariem. “Estamos vivendo um período grande de mudanças, mas algumas pessoas não aceitam isso, permanecem em uma visão completamente ultrapassada. Há um recrudescimento, as pessoas se acham superiores umas às outras”, diz.

O cientista social fala que no caso de ameaça ao vereador Alisson Julio há uma “contrariedade” porque, para essas pessoas, ele não seria “capaz”. Já no caso de Ana Lucia, há o tripé que contraria todo o pensamento supremacista. Ele ressalta, ainda, que a cultura germânica não apenas de Joinville, mas de todo o Sul do país fomenta a organização de grupos de cultura neonazista que se identificam de diversas maneiras. “Quando eles veem uma mulher negra e de esquerda se elegendo, é um prato cheio para dar vazão à visão fascista”, destaca.

Casos de ataques de ódio são “comuns” em Joinville

Em uma semana, a região de Joinville viu casos de racismo se multiplicarem e virem à tona, mas os ataques de ódio não são nenhuma novidade na maior cidade do Estado. Em 2016, uma pichação no muro de uma grande empresa na região central já trazia casos de racismo e xenofobia. “O Haiti não é aqui”, dizia a pintura. À época, o caso foi amplamente discutido e provocou reações de grupos e entidades sociais da cidade, que criticavam a falta de políticas públicas de acolhimento aos imigrantes e de investigação e responsabilização.

Recentemente, pelo menos três casos de ataques racistas em eventos educacionais trouxeram novamente à tona a cultura de intolerância. Em agosto, um professor universitário foi alvo de ofensas racistas durante um evento online promovido pela Acij (Associação Empresarial de Joinville).

Na primeira quinzena de novembro, mês dedicado a discutir e cobrar pautas étnico-raciais, uma professora sofreu ataques racistas durante um seminário online promovido pelo NEABI (Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas) do IFC (Instituto Federal Catarinense), em Araquari. Um dia antes do Dia da Consciência Negra, novamente o evento online promovido pelo NEABI do IFC foi invadido com ataques racistas, mas desta vez, no campus São Francisco do Sul.

Para o cientista social Belini Meurer, é a forte migração provoca reações que são potencializadas quando já há uma cultura segregacionista. “Em todos os momentos em que houve migração muito forte, a região que recebeu, se tornou xenófoba, contrariada. Claro que se tem já uma cultura segregadora, de superioridade, isso fica mais evidente, como acontece no Sul do Brasil, não só em Joinville. A população não pode se deixar levar por esse tipo de coisa e os candidatos e alvos não podem arredar o pé, tem que fazer o enfrentamento porque se arredar, esses que fizeram essas ameaças, venceram. É preciso que façam enfrentamento”, finaliza.

PT encaminha documento ao TSE e à PGR

O Partido dos Trabalhadores encaminhou, na última sexta-feira (20), documentos oficiais ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e à PGR (Procuradoria Geral da República) solicitando, com urgência, providências a respeito de diversos ataques que candidatas têm sido alvos nestas eleições.

Entre os casos citados pela Executiva Nacional do PT, está o da vereadora Ana Lucia Martins. “Crimes de racismo e ameaça de morte contra a vereadora eleita Ana Lucia Martins, do PT, em Joinville/SC, primeira negra da história da Câmara Municipal da cidade. Um dos comentários justificava a ameaça de morte com a pretensão de “entrar o suplente que é branco. A referida candidata sofreu um ataque hacker para que, no domingo, dia da eleição, suas fotos e dados da biografia fossem apagados – e foram”, cita o documento remetido ao TSE e à PGR.

Além de Ana Lucia, o partido mencionou, ainda, casos de ataques e violência à Leila Arruda, assassinada; Leda Mota, agredida; Thays Bieberbach, atacada com ofensas em comentários; Marina Helou, vítima de violência de gênero e Adriana Accorsi, ameaçada.

As candidatas representam siglas diversas e o partido pede urgência e atenção do TSE e da PGR.

Acesse e receba notícias de Joinville e região pelo WhatsApp do ND+

Entre no grupo
+

Eleições 2020