“Pedimos a anulação da dívida de Joinville”, fala Mayara Colzani

Candidata do PSOL foi entrevistada pelo Grupo ND e falou sobre suas propostas para a cidade do Norte catarinense

Mayara Colzani (PSOL) é a quinta candidata a participar da série de entrevistas que o Grupo ND promove com os candidatos à prefeitura de Joinville. 

Ela tem 27 anos e é estudante de Medicina Veterinária na Unisociesc. Cursou dois anos de Matemática na Udesc e fez curso técnico em Eletrotécnica no Cedup. O início de sua trajetória política ocorreu aos 13 anos, quando participou de um encontro relacionado aos trabalhadores da antiga Cipla. Foi assessora do mandato do ex-vereador Adilson Mariano. 

Entrevista com Mayara Colzani foi conduzida pela apresentadora Sabrina Aguiar – Foto: Juliane Guerreiro/ND

Confira a entrevista:

Você defende o transporte público e gratuito para todos. Como fazer isso? Com quais recursos a prefeitura subsidiaria o transporte coletivo na cidade?

Essa é uma pergunta muito importante porque a defesa do transporte público é uma defesa histórica nossa. Hoje, o transporte é público, a gente paga por ele, Joinville tem a passagem mais cara do país e com um transporte totalmente sem nenhuma manutenção, sem nenhuma estrutura, com superlotação. Eu frequento o transporte público, sei das dificuldades, ainda mais na pandemia.

E essa é uma pergunta que me fazem muito, sobre como subsidiar. E o subsídio vem dos impostos. Hoje a gente paga imposto, paga uma dívida pública e esse dinheiro que deveria estar sendo em recursos públicos não é utilizado. Então, é daí que a gente vai tirar esse valor pra custear. E não é uma ilusão, a gente não está fazendo falsas promessas porque temos exemplos disso no Brasil.

Em Cuiabá, por exemplo, os estudantes não pagam a passagem, existe passe livre estudantil. Mas claro que isso vai ser feito junto com a população e, com certeza, essa é uma reivindicação de toda a população, da juventude e dos trabalhadores.

A falta de vagas em CEIs é um problema histórico de Joinville e você fala em oportunizar vagas para todos. Como fazer isso?

Essa é uma pergunta importante porque a gente vê que as vagas faltam principalmente nos bairros da periferia, que é quem mais precisa, os trabalhadores que precisam sair de casa e deixar seus filhos no CEI e não têm como porque não tem vaga. 

Então, a nossa luta é a defesa de pegar recursos públicos e colocar em recursos públicos, ou seja, construção de mais CEIs, construção de mais escolas com o dinheiro que a gente paga de imposto e o dinheiro que a gente paga uma dívida que não poderia pagar. Pedimos a anulação dessa dívida do município para que a gente reverta esses recursos em serviços públicos.

Você fala em democratizar a cultura no seu plano de governo. Com quais ações pretende fazer isso?

Hoje, as empresas privadas recebem isenção de imposto para promover cultura e esporte, sendo que isso também é dever do município. Então, nós vamos democratizar isso construindo mais parques, incentivando a participação da população. Com o transporte público, a gente vai conseguir levar a população a ter acesso à cultura, a um teatro, que hoje tem, mas é pouco. É dessa forma que nós vamos ampliando isso para que todos os bairros tenham centros culturais, com dinheiro público que hoje a gente tem, mas não é usado pra isso.

Você defende “todo o investimento público necessário na cultura, da arte, do esporte e do lazer” e também o fim da legislação de incentivo à cultura através de renúncia fiscal. Quanto imagina que seria necessário anualmente para atender essas áreas? De onde viria o dinheiro?

Em números, eu não consigo passar agora. Toda a nossa campanha, tudo que está sendo construindo junto, eu não estou fazendo sozinha. Muito pelo contrário, eu estou muito bem assessorada. O coordenador da campanha é Adilson Mariano, que teve 16 anos de mandato como vereador, conhece a realidade da cidade e que eu tive a oportunidade de conhecer junto com ele.

Então, o que eu falei antes também responde a essa pergunta. A gente defende justamente o fim dessa iniciativa que existe para as empresas privadas e que deveria vir do município. O dinheiro vai vir dos impostos que a gente paga.

Você defende que todos os terceirizados sejam incorporados aos seus locais de trabalho. Isso não vai contra o avanço da terceirização que desonera as empresas e ajuda a abrir mais oportunidades de trabalho? 

A prefeitura é cheia de oportunidades de trabalho, o que falta é interesse. Quando a gente fala em socialismo e em socialização, a gente fala em socialização dos grandes meios de produção. Então, a prefeitura tem que abrir concurso público e tem que incorporar terceirizados. 

Com isso, você gera emprego, você não precisa que venham grandes empresas de fora para o município para gerar lucro e para ter mais funcionários. A prefeitura pode fazer isso de uma forma certa, que é abrindo concurso público e incorporando essas pessoas.

Você defende a contratação de “todo o número necessário” de profissionais por meio de concurso público. Você sabe quantos funcionários seriam necessários? 

Em números, eu não consigo passar, mas a gente pode ver isso, por exemplo, quando a gente vai para o SUS, que falta médico, enfermeiro e atendimento e que tem uma longa fila de espera; quando a gente vai pra uma escola e fica, às vezes, um mês sem professor porque não tem professor contratado. O povo sente a falta de pessoas que estejam trabalhando, de um corpo técnico.

Tem obras paradas na cidade porque falta corpo técnico. São coisas que a gente aprofunda, mas quer discutir a real necessidade e por que é importante, por que falta. E falta, o povo sente isso, que falta todo tipo de servidor público e os que tem ainda não são valorizados.

Como equilibrar a folha de pagamento, já que há um teto de gastos, contratando mais funcionários?

O equilíbrio da conta de pagamento é, justamente, não abrir mais que o necessário, não abrir concurso público a rodo, prometendo emprego a rodo. Mas sim abrir concurso público para manter a população com tudo o que ela precisa, que é saúde, educação, cultura, esporte e lazer. Então, é nesse sentido.

É preciso ver esse teto, se pode ampliar isso sem prejudicar a economia da cidade. Não estamos prometendo concurso público a rodo, mas avaliando a real necessidade da nossa população.

Você defende a quarentena enquanto não houver vacina para a Covid-19. Como fica a economia?  

A gente viu todo o estímulo, os recursos para as empresas privadas sobreviverem à quarentena. A gente viu milhões sendo pagos para todas as empresas, enquanto os trabalhadores dos pequenos comércios, das áreas essenciais, ficaram totalmente jogados de lado. 

Então, o direito à quarentena e manter a economia é, justamente, você deixar somente os serviços essenciais funcionando. Assim, você não vai sobrecarregar nenhum ponto e diminuir o contágio. Com certeza, essa curva estaria muito mais baixa se isso tivesse sido feito desde o início, mas houve uma abertura de tudo de forma exagerada, justamente para as empresas poderem voltar a trabalhar, sendo que deveriam ter sido mantidos só os serviços essenciais.

Hoje, as obras e a licitação do rio Mathias estão suspensas. Como você pretende lidar com esse impasse?

Eu até conversei com uma das técnicas que estava trabalhando na obra do rio Mathias e ela fala que isso é complicado porque sempre tem uma interrupção da obra que não se sabe por que e dizem que é por falta de corpo técnico. Então, a gente volta na valorização dos servidores públicos. Se a gente abre um concurso público, se a gente faz obras que são de interesse da cidade, investindo o necessário sem depender de licitação com grandes empresas e sim dependendo da vontade da prefeitura de realizar a obra, a gente vai conseguir concluir. Então, é contratação de corpo técnico suficiente e, de fato, fazer com que a obra funcione e não ficar interrompendo o tempo todo.

Qual seria o plano para resolver o impasse?

Primeiro, eu reuniria o corpo técnico que entende, traria todas as pessoas que entendem da obra do rio Mathias para, junto com eles, encontrar a melhor solução investindo todo o dinheiro público que existe voltado para essas áreas e terminar a obra.

Joinville carece de parques, de áreas verdes, de mais convívio social. Como pretende resolver essa carência, em que prazo e com quais recursos?

Eu vou dar o exemplo do parque do meu bairro, o Adhemar Garcia, porque acho que é um exemplo muito legal, o Parque São Francisco. Não tinha nada, era um terreno baldio, e foi uma luta da associação de moradores junto com os moradores do bairro pra que houvesse alguma coisa ali. Então, foi arborizado, foi investido e hoje ele é ocupado todos os dias por famílias. Mas ainda é uma alternativa muito pequena. Então, é avaliar cada área da cidade onde a gente possa fazer ações como essa e consiga fazer com que as pessoas sintam que Joinville tem um lugar diferente para ir no fim de semana. 

A habitação é um problema histórico de Joinville. Como pretende resolver essa questão principalmente em um cenário de escassez de recursos federais?

A questão da moradia é muito importante e o que a gente coloca no nosso plano de governo é a questão da regularização fundiária. Hoje, a gente tem vários prédios vazios e várias pessoas morando em ocupação, nas ruas, porque não existe a regularização desses lugares. Então, no nosso plano a gente defende a regularização fundiária de todas essas moradias que estão irregulares hoje do pobre, primeiramente do pessoal que mais precisa e que está na periferia. 

A gente vê muitas ocupações na cidade que são criminalizadas, onde tem ações para tirar famílias de casas em que as pessoas precisam morar porque não há interesse em regularizar. Acho que uma das coisas que entra aqui também é a questão do imposto progressivo, que é o que a gente defende, que os ricos paguem o imposto mais caro e a população pague o imposto mais barato. 

As ocupações, muitas vezes, ficam em áreas com passivo ambiental. Como equilibrar isso?

Então, só no centro da cidade tem, no mínimo, 25 prédios abandonados sem nenhum uso. Se você regulariza esses prédios que estão vazios por todo o restante da cidade, você consegue tirar as pessoas desses lugares que são precários e que pra eles também não é saudável. Ao ficar em cima de um mangue, por exemplo, eles correm risco, estão expostos a bactérias e vírus. Então, não é simplesmente desocupar porque é uma área de preservação ambiental, porque quando é do interesse de grandes empresas, eles conseguem fazer de tudo e aprovar construções grandes nessas áreas de preservação. 

Entrevista foi transmitida no programa Balanço Geral – Foto: Juliane Guerreiro/ND

Por que o eleitor joinvilense deve votar em você?

Eu acredito que a nossa candidatura é muito importante porque a gente quer inverter a ordem desse sistema, a gente quer trabalhar com os trabalhadores e a juventude. Acredito que a população deve votar nos candidatos contra o sistema se querem ter o rumo do seu futuro nas suas mãos, se eles querem mudar a situação que a gente está vivendo. E sem falsas promessas, não estou dizendo coisas que são inalcançáveis, mas de coisas que ninguém fala porque não é comum querer mudar a situação. 

Acho que Joinville precisa, a gente vê a cidade crescendo, vê cada vez mais moradores de rua, está vivendo uma situação de aprofundamento da crise do sistema e a gente precisa encontrar uma saída. Então, é pra essa saída que eu estou chamando todo mundo pra votar nos candidatos contra o sistema pra gente mudar o futuro da nossa sociedade.

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