“Estado está com cofre cheio, mas o cidadão está com geladeira vazia”, diz Antídio Lunelli

Série de entrevistas com pré-candidatos ao governo do Estado começa nesta segunda (16) no Conexão ND Especial: Voto+ Eleições 2022

Dentro do projeto da maior e melhor cobertura das eleições de 2022 por meio de todas as suas plataformas, o Grupo ND iniciou nesta segunda-feira (16) a série de entrevistas com os pré-candidatos ao governo do Estado de Santa Catarina. O primeiro da série é o ex-prefeito de Jaraguá do Sul, Antídio Lunelli (MDB).

O pré-candidato falou sobre o desejo de ser governador, mudança de modelo da administração com uma parceria maior com o setor privado, criticou a possibilidade de o partido não ter candidato próprio e a gestão do governador Carlos Moisés (Republicanos). O ex-prefeito de Jaraguá do Sul quer uma candidatura de “terceira via” nas eleições para presidente da República mas, caso não apareça, irá votar no presidente Jair Bolsonaro (PL).

Ex-prefeito de Jaraguá do Sul é o primeiro entrevistado – Foto: Reprodução/NDEx-prefeito de Jaraguá do Sul é o primeiro entrevistado – Foto: Reprodução/ND

Por que o senhor deveria ser governador de Santa Catarina?

Por que eu sou um homem que tem uma vida muito simples, uma história. Eu sou um homem da natureza, da roça, criado lá até os 16 anos. Mais tarde também fui empregado e então iniciamos a nossa empresa, que completou 40 anos dia primeiro de outubro do ano passado, e fomos assim dar a nossa contribuição, participando das eleições do município de Jaraguá do Sul. Em um momento até bastante difícil, porque nós entendemos que nós podemos fazer muito mais e melhor, apesar de que a iniciativa privada e o setor público são bastante diferentes, mas nós provamos em Jaraguá do Sul, sim, que dá para mudar. Tivemos alguns enfrentamentos no início, alteramos 175 leis para que o nosso município pudesse novamente voltar a crescer e a se desenvolver. Tivemos inclusive um período de 31 dias de greve que também enfrentamos e fomos fazendo os ajustes necessários naquele momento. E o resultado disso hoje é 22% de investimento próprio, onde tínhamos zero quando chegamos. As obras todas que nós fizemos em Jaraguá do Sul, a administração, a parceria nossa com a saúde. Os nossos postos de saúde que nós reformamos todos.

Mas no geral o que o senhor mudaria se fosse eleito governador?

Eu entendo que no setor público falta gestão. Falta administração. Eu sempre digo que o setor público e a iniciativa privada têm que andar de mãos dadas. Nós sabemos da dificuldade de um agricultor, as dificuldades que passam o trabalhador também. O que é ser empresário, a dificuldade que nós passamos, os nossos empresários, nossos prestadores de serviço, o nosso comércio. Então o que falta para o nosso Estado é uma excelente, uma grande administração, com gestão da iniciativa privada em conjunto com a pública, nós precisamos atualizar o setor público. Nós hoje temos a informação, a tecnologia e o Estado não acompanha esta velocidade. Nós somos muito bons em administrar os números, fazer os investimentos certos, onde que tem que ser, e mais um detalhe, o apoio da população, levando para a nossa população exatamente tudo aquilo que acontece. Porque hoje a população não consegue a informação. Criamos a nossa sala de administração onde temos grandes painéis que acompanhamos de forma instantânea todas as receitas e todos os investimentos secretaria por secretaria. Isso nos deu uma compra muito melhor para o município, economia de 30% em tudo que nós compramos e até 42% na saúde.

O setor público e o setor privado são bem diferentes. O setor público tem muitas amarras, licitações e muita burocracia. Como é que se derruba isso?

Exatamente. Em função de todas as dificuldades, toda a burocracia que se foi criada durante estas décadas nos últimos tempos, o dinheiro que tem que chegar lá na ponta para a nossa população, para quem mais precisa, acaba às vezes chegando 20% daquilo que realmente se faz necessário. Nós precisamos mudar as leis. Precisamos do apoio da população. Para isso nós temos que levar a informação e os números para o cidadão mais simples até o mais esclarecido, para que ele entenda realmente o que acontece no setor público e aí sim, com a força da população, alterarmos todas as leis que se faz necessário para que o dinheiro renda muito mais. Dinheiro público é coisa séria, tem que ser muito bem cuidado, muitas pessoas acham que dá em árvore e não dá e ele se acaba muito rápido. O governo tem que ser administrado como se administra as melhores empresas do nosso país e do mundo. Esta é a nossa visão. Hoje nós temos um Estado rico e a população está pobre. O Estado está com o cofre cheio, mas o nosso cidadão está com a geladeira vazia. Então isso tem que ser mudado. Nós precisamos da economia forte, Santa Catarina é modelo, é o melhor Estado do Brasil, indiscutivelmente. Agora, se nós fizermos o dever de casa, tenho certeza que nós vamos acabar com a pobreza e com a miséria.

Na primeira edição do Conexão ND – Voto + Altair Magagnin e Moacir Pereira conversam com Antídio Lunelli – Foto: Reprodução/NDTVNa primeira edição do Conexão ND – Voto + Altair Magagnin e Moacir Pereira conversam com Antídio Lunelli – Foto: Reprodução/NDTV

O senhor, para ser candidato oficialmente do MDB, que é o maior partido de Santa Catarina, vai precisar ser aprovado na convenção estadual. E agora?

O que acontece é o seguinte: o nosso partido é muito grande, um partido que não tem dono. Nós temos diversas alas dentro do nosso partido. Desde esquerda, centro e centro-direita, que é o que eu sou. Tivemos dois anos conturbados no governo do Estado. O que houve? O governo se fechou, nós não tínhamos acesso ao governo, talvez bem intencionado, mas mal assessorado. Chegou a um momento que talvez haveria um impeachment, a cassação, e precisou do apoio dos deputados. Então, e como eu sempre digo, não existe velha política, não existe nova política, existe a boa política. Houve um acordo pela governabilidade e ninguém quer o mal de Santa Catarina. Este é o acordo que foi feito. Olha o aumento do nosso combustível, da energia, do gás, 25% de ICMS em cima. Claro, os cofres encheram, então sobrou dinheiro. Começou a se distribuir dinheiro, emendas parlamentares para os nossos deputados e eles, naturalmente, que estão levando esses recursos aos seus municípios. Até aí tudo bem. Mas os grandes projetos para o Estado hoje não estão acontecendo. E em relação à questão dos deputados isso tem data de vencimento. Nós estamos fazendo um trabalho fora da bolha política. Nós precisamos falar com a população. Com as entidades de classe, com as nossas associações comerciais, industriais de todo o Estado. Nós somos do povo, nós temos o sentimento da necessidade.

Os deputados não estão com o povo?

Os deputados estão, mas eu diria que estão muito mais focados e alinhados hoje na distribuição dos recursos. E vejam bem, nós, no passado, quando conseguimos R$ 100 mil, nós erguíamos a mão para o céu, hoje ninguém fala menos de milhão, é milhão para cá, milhão para lá, Pix para cá, Pix para lá. Pix de R$ 5 milhões aqui, R$ 10 milhões, é muito dinheiro que está acontecendo neste momento. Tudo bem, os recursos indo para os municípios, a população, nós precisamos. Todos os municípios precisam.

O senhor falou em um pacto pela governabilidade em torno do governador Carlos Moisés. A postura da bancada do MDB é muito clara. Com toda essa liberação de recursos por meio das emendas parlamentares. A bancada do MDB está sendo fisiológica nesse momento?

Olha, eu diria o seguinte, não se pensou em nenhum momento, do fortalecimento partidário, eu sou muito partidário e eu entendo que talvez deveria se ter um diálogo no início. E se trabalhar para o reforço do nosso partido. Tanto é que se continuar da forma como está, o MDB, sendo o maior partido de Santa Catarina, vai se apequenar, ele vai se encolher. O que vai acontecer é que nós vamos aí eleger, no máximo, cinco deputados.

O maior problema de Santa Catarina hoje é a falta de reconhecimento de recursos do governo federal. O senhor tem alguma ideia para resolver esse problema dessa discriminação de Brasília?

Em primeiro lugar eu acho que o alinhamento do governador em relação ao presidente é fundamental. Nós tivemos aqui um problema em Santa Catarina, que o nosso governador se distanciou, se desalinhou do nosso presidente. Isso é seríssimo. Eu peguei o último com número na Fiesc. Me parece que em 2021 foram R$ 94 bilhões transferidos para o governo federal.

E voltou quanto?

Na média de 10%. Santa Catarina é o quinto maior arrecadador, inclusive ultrapassamos Rio Grande do Sul e o Paraná. Mas aí vem o meu questionamento também: até onde que nós vamos conseguir manter isso? Hoje uma carreta para vir do Extremo-Oeste para chegar nos nossos portos leva em média 22 horas, isso é o cúmulo da vergonha. Nós não temos infraestrutura. Nós temos um problema seríssimo, por exemplo, em relação à energia elétrica. A Celesc hoje é um desmando total para Santa Catarina. Leva mais de um ano para nós conseguirmos tirar um poste. Nós fizemos obras em que o poste da Celesc ficou no meio da rua mais de um ano. É uma vergonha. Nós precisamos rever isso tudo. Nós precisamos de gestão, nós precisamos de pulso firme.

Pré-candidato ao governo de SC fez uma avaliação do Estado – Foto: Reprodução/NDTVPré-candidato ao governo de SC fez uma avaliação do Estado – Foto: Reprodução/NDTV

Existe um debate sobre liberdade de expressão no âmbito nacional que permeia Santa Catarina também. Até que ponto é possível à liberdade de expressão e em que ponto ela passa a ferir direitos?

Eu entendo que a imprensa tem um papel fundamental no esclarecimento dos fatos. Levando os números para nossa população, a informação. Agora, o que acontece é que nós temos hoje muitas redes sociais, que é uma terra sem lei. Então é isso que nós precisamos identificar: os meios de comunicação com credibilidade. É fundamental a liberdade de expressão, a informação, o jornalismo é fundamental para a nossa democracia e para uma grande gestão, porque através de vocês, pelo papel que vocês fazem é que o governo cresce, que enriquece o trabalho. E tem que ser criticado quando é necessário, tem que ser mostrado também.

O governo federal está privatizando a Eletrobras. O senhor foi muito crítico aqui com a Celesc. O senhor privatizaria a Celesc?

Eu acredito que sim, que é o caminho. Naturalmente tem que ser muito bem analisado, mas hoje o que nós temos esta questão é de incoerência. A questão, por exemplo, do funcionalismo hoje, essa estabilidade que existe, nós estamos prestando um serviço de má qualidade para a nossa população e eu diria que, muitas vezes onde poderíamos ter um grande técnico, um grande colaborador recebendo um salário justo, porque o setor público paga muito mal os bons e paga muito bem os ruins. Então isso tudo nós precisamos de planejamento e de mudança. Eu acredito que certamente é o caminho.

A Casan também, o senhor pensa que seria uma…

Nós lá temos o Samae. Hoje em Jaraguá do Sul temos 90% de tratamento do esgoto, 100% água tratada para toda a nossa população, para os próximos 25 anos. Só na nossa gestão nós investimos R$ 120 milhões no Samae. Temos uma taxa de água infinitamente menor do que a cobrada pela Casan. O nosso esgoto, uma eficiência extraordinária, mas são as diferenças que nós temos entre uma empresa estadual ou nacional. E uma empresa que ela é do município, mas ela é gerida pelo município. Temos que fazer uma integração entre todos os municípios e fazer uma empresa público-privada, que aí o funcionamento é garantido, a qualidade dos serviços e também a manutenção de preços sempre no nível de concorrência baixo.

O maior problema do Brasil hoje é a geração de empregos. Eleito governador, como é que o senhor acha que é possível gerar, criar novos empregos, quem é que vai criar os empregos?

Santa Catarina tem o índice de desemprego baixíssimo e normalmente mão de obra não qualificada. Santa Catarina tem a diversidade da nossa economia. Nós precisamos levar isso também para os nossos municípios e formar os nossos jovens, as nossas crianças hoje não têm perspectiva de sucesso. Precisamos, nas regiões mais pobres de Santa Catarina, diversificar a economia. Hoje Florianópolis é o que é mais em função do quê? Da tecnologia. Blumenau já foi o celeiro têxtil do nosso Estado, sofreu grandes crises, hoje tem a tecnologia e a diversidade da economia. É isso que nós temos que fazer. Agora temos que formar os nossos jovens, formação maciça. Nós temos que ter orgulho dos nossos professores.

Quais são as maiores carências do Estado de Santa Catarina hoje? O que é que mais trava o desenvolvimento do nosso Estado?

Em primeiro lugar, a questão da infraestrutura. Nós não temos estradas hoje. As nossas e as nossas BRs estão uma vergonha. É uma vergonha o que está acontecendo na questão da infraestrutura. Segundo lugar a questão da energia elétrica nos nossos interiores. O nosso pessoal do interior hoje não tem condições de ligar um resfriador de leite. Porque não tem energia elétrica, não tem energia trifásica. A questão da ambulância-terapia. Pelo amor de Deus. Nós temos pessoas que vêm do Oeste catarinense para Florianópolis para fazer um exame. Um tratamento de saúde. Isto é inadmissível. As pessoas têm que ter condições de se tratar. Os pacientes, os nossos doentes, têm que ser tratados regionalmente e parar com esse negócio de ambulância para cima e para baixo.

Santa Catarina passou quase meio bilhão de reais dos cofres públicos em rodovias federais. O senhor acha correto esse aporte de recursos? E a segunda, qual o milagre a ser feito para que o governo federal aporte mais recursos em Santa Catarina?

A questão, por exemplo, do investimento que o Estado fez nas rodovias, se foi bem negociado, que vão abater da dívida do Estado, se a federação vai abater, tudo certo, sem problema nenhum, mas isso também está acontecendo porque não tem projeto. Nós precisamos cuidar com esse derramamento de dinheiro para ver se realmente está havendo investimentos ou se só estamos criando gastos. Isso é muito importante. Em todos os segmentos. Mas eu diria que precisamos ver se foi bem negociado e se haverá a compensação. Segundo lugar, a questão da União, eu quero dizer o seguinte, um alinhamento forte à Presidência da República, independente de quem seja o presidente, eu acho que aí tem que haver uma ação política muito forte, o esclarecimento dos nossos investimentos, dos nossos repasses e com as nossas necessidades. Isso tem que ter existido uma conversa de homem para homem. É isso que falta e não você desalinhar com o presidente que estiver lá.

Quem é o seu candidato a presidente da República?

Hoje como nós estamos vivendo os extremos, infelizmente eu acho que o ideal seria o centro. Mas se nós estivermos nessa bipolaridade, o meu candidato é Jair Bolsonaro porque eu sou um centro-direita apesar de que nós vamos ver se nós teremos a [senadora] Simone Tebet (MDB-MS) que será candidata pelo nosso partido. Gostaríamos muito que pudéssemos ter um candidato de centro, um candidato de equilíbrio. Mas, mediante aos extremismos que nós estamos, eu sou Bolsonaro.

Jaraguá do Sul é considerada um primor em termos de integração do setor produtivo com a comunidade, projetos turísticos, culturais, educativos. O que o senhor a partir da experiência de Jaraguá do Sul tem a oferecer como candidato para cultura e turismo?

Hoje a questão da cultura do turismo em Santa Catarina é uma vergonha. Não houve sequer investimento, nada, nada, foi abandonado. Santa Catarina, pelo amor de Deus, o potencial turístico que tem. Então, nós precisamos investir maciçamente e também na formação. Gente, o turismo, movimenta a nossa economia, é um dinheiro limpo. Nós precisamos retomar estes investimentos

E a cultura?

Igualmente e quero fazer falar mais um detalhe. Nós por exemplo temos em Jaraguá do Sul a nossa Scar (Sociedade Cultura Artística). Administramos a nossa cultura em Jaraguá do Sul com 10% do que normalmente se administra em órgãos públicos onde é somente público. Então o sistema de gestão, aquilo tudo que nós fizemos em Jaraguá do Sul, a integração público- privada.

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