Gelson Merisio critica o combate à pandemia em SC

O ex-presidente da Alesc afirma que é um "opositor responsável" ao governo do Estado; Merisio também comentou administração e decisões sobre a pandemia em SC

Na abertura da série de entrevistas com lideranças políticas catarinenses para o ND Notícias, o jornalista Paulo Alceu recebeu nesta terça-feira (6) o ex-presidente da Alesc (Assembleia Legislativa de Santa Catarina) Gelson Merisio (PSDB).

O ex-deputado, que concorreu ao governo do Estado em 2018, falou sobre o momento atual da saúde e da economia do Estado e fez duras críticas ao enfrentamento à pandemia adotada na gestão do governador afastado Carlos Moisés (PSL).

merisio; sc; governo; opositor; alesc“Eu disputei a eleição, Moisés e Daniela ganharam a eleição para concluírem seus quatros anos. Eu não participei, não vou participar e nem quero participar do governo. Eu sou um opositor responsável”, disse Merisio – Foto: Leo Munhoz/ND

Merisio também demonstrou confiança na gestão da secretária de Saúde, Carmen Zanotto, e negou qualquer aproximação política com a governadora interina Daniela Reinehr (sem partido). “Eu não participei, não vou participar e nem quero participar do governo”, disse.

O que o senhor faria e o que não foi feito em relação à pandemia no Estado?

Primeiro montando uma equipe competente. A equipe que deixou a saúde, com toda sinceridade, foi extremamente incompetente na condução da pandemia desde o início.

Há de se considerar que houve um processo longo de impeachment que tumultuou o governo, mas nada justifica que tenhamos números tão ruins em comparação com os outros Estados do Brasil. Hoje a mortalidade em Santa Catarina é superior à média nacional. Isso não é compatível com o nosso sistema de saúde, tão pouco com a cultura do povo catarinense.

O que deveria ser feito para evitar isso?

Primeiro, como eu disse, ter uma equipe competente. Agora com a Carmen Zanotto, que é uma pessoa que conhece o setor, tem liderança sobre os secretários municipais, que pode conversar com os prefeitos. Nós podemos ajustar o passo para que achem ações coordenadas.

O que existia, até aqui, era uma desordem geral. Um dia falava uma coisa, outro dia falava outra, onde o prefeito não sabia se caminhava para um lado ou para o outro. Os hospitais não tinham protocolos claros. Não se tinha previsibilidade do que ia acontecer no dia seguinte.

É evidente que a pandemia é grave em todos os Estados. Não tem uma solução mágica, mas ter uma autoridade que dê o norte, que dê um rumo e que possa se permitir que se minimize problemas que levem ao óbito.

O senhor defende o lockdown?

O lockdown é uma palavra que ficou, absolutamente, proibida em Santa Catarina porque foi mal conduzido no ano passado. Nós não tínhamos necessidade de fechar locais que não tinham na época nenhum caso. Foi longo, penoso e, absolutamente, desnecessário em certos momentos.

Na atual fase, quem tem que dizer, claramente, que precisa ou não fechar são os técnicos da saúde. Eu hoje não faria lockdown. Porque o pico já passou, mas precisamos ter medidas restritivas que permitam que a rede hospitalar volte a desafogar e sair do colapso. Isso se faz com protocolos claros, com comunicação única e, acima de tudo, com equipe competente. E não a bagunça que estava.

No momento em que havia o interesse de se manter no poder e um alinhamento com a Assembleia Legislativa, isso também não prejudicou, um pouco, o enfrentamento à Covid-19?

No início da pandemia tivemos esse processo. Um escândalo que foi montado. Em meio a uma pandemia, R$ 33 milhões que sumiram dos cofres públicos para comprar respiradores. Eu não estou culpando ninguém. Quem culpou foi a Alesc que abriu um processo.

Aliás, dois. Para ser justo, o primeiro deles (crime de responsabilidade por conceder aumento aos procuradores do Estado no qual Carlos Moisés foi absolvido) eu fui contra desde o primeiro dia, que era mais um golpe do que um processo necessário de investigação.

No segundo, estamos tratando de desvio de R$ 30 milhões para comprar respiradores. Um ano depois não conseguimos encontrar um mordomo para ser culpado. Impossível que, simplesmente, sumam R$ 30 milhões sem ter um responsável que é o que parece está acontecendo.

Está faltando dinheiro para Santa Catarina ou o Estado tem dinheiro e não sabe administrar?

O que anuncia o governo, o próprio secretário da Fazenda (Paulo Eli), é que existem mais de R$ 2 bilhões em caixa. Em 2020 foram investidos 14,1% no orçamento do Estado.

Existe uma emenda, que o gasto mínimo, em anos normais, não deve ser menos de 15%, mesmo no ano mais recrudescedor da pandemia foi gasto 1% a menos. Esse 1%, por si só, representa R$ 300 milhões. Tenho certeza, esses 300 mais os R$ 2 bilhões em caixa deveriam ser investidos na saúde e evitariam mais de uma centena de mortes desnecessárias.

Nós continuamos com quatro hospitais novos fechados, como é o caso de Chapecó, que é inexplicável, no caso de Lages, é inexplicável, no caso de Itajaí, que é inexplicável. Ou fizeram um elefante branco que não precisavam ou não estão tendo a responsabilidade de equipá-los com pessoal e equipamentos para poder atender a população no momento tão crítico.

Sobra dinheiro no caixa e do outro lado quatro hospitais fechados. Não tem ninguém que explique na forma que as pessoas entendam. Eu não entendo, sinceramente, como é que em um ano de pandemia os hospitais estão fechados.

O governador esteve no Grupo ND e essa pergunta foi formulada para ele. O hoje governador afastado deixou bem claro que isso era um elefante branco.

Elefante branco uma ova. Eu conheço Chapecó. Chapecó precisava de ampliação de hospital regional que tinha 30 anos sem ampliação. Quem conhece Lages sabe que não é elefante branco, que a região precisa de um hospital.

Agora construíram esses hospitais, mobiliaram e os hospitais estão lá fechados. Se ninguém precisasse dos hospitais não estavam fazendo lá em Chapecó, no centro de eventos, lugar para colocar gente na pandemia. Se não quisessem hospitais não tinham feito contrato no hospital de campanha em Itajaí (a montagem acabou suspensa pelo Tribunal de Justiça).

Nós temos as estruturas construídas há um ano. Há um ano, o Estado não ter experiência para conduzir uma pandemia seria compreensível, agora um ano depois, os hospitais continuarem fechados, anunciar que tem dinheiro no caixa e gente morrendo transferidas para outro Estado, para o Espírito Santo, isso é incompatível com a nossa condição cultural, econômica e, acima de tudo, de orgulho do catarinense.

É um tapa na cara do catarinense. A Carmen Zanotto vai dar uma nova condução, porque ela é competente, preparada, diferente do secretário que saiu, que para mim era incompetente.

O senhor está colaborando com o governo de Daniela Reinehr?

Eu não falei nenhuma vez com a Daniela Reinehr depois da votação do processo de impeachment. Eu não tenho nenhuma participação no governo e nem quero ter. Eu disputei a eleição, Moisés e Daniela ganharam a eleição para concluírem seus quatros anos. Eu não participei, não vou participar e nem quero participar do governo. Eu sou um opositor responsável.

Evidente que no meio de uma pandemia, a prioridade é contribuir para que as coisas aconteçam e minimizem-se os óbitos.

Tanto que estou aplaudindo a escolha que ela fez da Carmen Zanotto que não tem nenhuma relação política comigo, ao contrário, ela é próxima de Jorginho Mello (senador do PL) que vai ser candidato a governador e se tiver algum mérito é deles e eu reconheço. Mas ela vai fazer um bom trabalho.

O senhor acha que a Alesc se comportou bem diante desses fatos do processo de impeachment do governador afastado Carlos Moisés?

A Assembleia teve uma votação de 36 votos a zero pela abertura do processo. Na votação agora no tribunal (especial de julgamento), os quatro deputados mudaram de opinião.

Eu não conheço os motivos que os levaram a fazer isso. Tem que ter maturidade e responsabilidade, é o futuro do Estado que está sendo debatido e tem que ser passado a limpo. Para que o próprio governador se voltar, volte com o processo dissecado.

Agora, vamos conversar, nesse momento, nesse processo, tem que aparecer responsável. Não venha me dizer que ninguém sabe ninguém viu.

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