“Grande desafio é a pessoa em situação de rua”, fala nova secretária de Joinville

Fabiana Cardozo, titular da Assistência Social, explicou ao ND+ os planos para a área na nova administração

A série de entrevistas com os novos secretários de Joinville continua aqui no ND+. E nesta segunda-feira (25) é a vez de conhecer as demandas e os planos da Secretaria de Assistência Social, em entrevista com a secretária Fabiana Cardozo.

Graduada em Pedagogia e Assistência Social, especialista em Gestão de Pessoas e mestre em Educação, ela é servidora pública do município há 15 anos. Também fez cursos de aperfeiçoamento em temas como proteção social, sistema único de assistência social, famílias, direitos da criança e do adolescente, direitos violados, inclusão e sistema de garantia de direitos.

Fabiana Cardozo assumiu a Secretaria de Assistência Social no novo governo – Foto: Rogério da Silva/NDFabiana Cardozo assumiu a Secretaria de Assistência Social no novo governo – Foto: Rogério da Silva/ND

“Desde o dia em que soube que assumiria a secretaria, minha cabeça fica girando a mil. Há muitas ideias que haviam sido guardadas, muita gente boa. Me sinto muito tranquila e segura porque a legislação e os caminhos eu conheço, tenho uma equipe excelente de servidores, um prefeito que tem o olhar de que precisa melhorar e a sociedade querendo ajudar. Estamos com a faca e o queijo na mão”, destaca Fabiana. Confira a entrevista:

Quais os principais desafios e as prioridades nesse primeiro momento?

Um dos grandes desafios da nossa cidade é em relação à pessoa em situação de rua. São muitas denúncias e demandas. O SUAS (Sistema Único de Assistência Social) prevê, dentro da política, que a gente tem que pensar tecnicamente, politicamente e estrategicamente e já temos um grupo de trabalho em relação à pessoa em situação de rua. 

Temos envolvidas pessoas da proteção social básica, da proteção social especial, do planejamento e da segurança alimentar e, em um primeiro momento, estamos discutindo isso de forma interna. O que eu trabalhei com o grupo e com os moradores de rua é que tudo tem que ter uma contrapartida. O que eles querem, viver na rua? Eles podem, é um direito. Mas a gente não vai dar comida de graça a vida toda, vamos atribuir condicionalidades. 

A nossa ideia é trabalhar em todas as frentes. Tem uma mulher que uma cidade vizinha colocou no carro e trouxe para Joinville. Os municípios vizinhos fazem isso: botam no carro da polícia ou de uma empresa e deixam a pessoa na BR. Eu vou para as reuniões do Estado e dos municípios fazer uma conscientização com as cidades vizinhas. Vamos fazer um levantamento com a saúde, o Centro Pop e a Assistência e ligar para a cidade e dizer que temos essa pessoa, vamos colocá-la num carro e levar pra vocês.

Segundo secretária, cidades vizinhas destinam moradores em situação de rua para Joinville – Foto: Carlos Jr/NDSegundo secretária, cidades vizinhas destinam moradores em situação de rua para Joinville – Foto: Carlos Jr/ND

É um trabalho que a sociedade tem que entender que leva tempo. Não temos uma política higienista, mas precisamos fazer com que Joinville não seja atrativa. Eu trabalhava no planejamento e fazia pesquisa de satisfação com os usuários e um deles, que veio do Uruguai, me falou que quando chegou na rodoviária de Porto Alegre falaram pra ele que Joinville era um bom lugar. É uma questão que vamos ter que discutir com a sociedade. Entre eles, tem aliciadores, traficantes, se for com muita sede ao pote eles vêm com represália.

Se tiver mil moradores de rua, quantos são alcoolistas, drogaditos, quantos são de cada caso? Estamos fazendo levantamento e precisamos entender quem é esse público e quais ações são efetivas. Hoje, a gente está no paliativo, se dá café, se dá banho. Mas precisamos oferecer cursos e encaminhar para o mercado de trabalho. Vamos fazer a qualificação da mão de obra por meio de contratos com empresas. Se cada empresa ajudar com uma vaga, tiramos todo mundo da rua. 

Não vamos tratar ninguém de forma desumanizada, mas é preciso que haja um processo educativo para que eles superem essas demandas. Precisamos empoderá-los para que consigam prover o próprio sustento e seguir o seu caminho. No Centro Pop, estamos apagando incêndio, mas precisamos evitar que a pessoa chegue na rua. Eles estão na rua por vários motivos e a minoria é porque quer.

Então, precisamos fortalecer os vínculos familiares e fazer parceria com a educação, saúde e esporte para promover que a criança e o adolescente tenham o que fazer depois da escola. Em relação à pessoa em situação de rua, é preciso consertar o que está quebrado. Temos que avançar na proteção social básica, que é investir no Cras para trabalhar o fortalecimento do vínculo. Na assistência social, nada é pra hoje. A gente planeja, traça objetivos e vai para o enfrentamento.

Uma das propostas do Adriano seria descentralizar o restaurante popular, oferecendo refeições em vários restaurantes de bairro. Qual é a previsão para que isso aconteça?

O restaurante tem parte da coordenação que é da secretaria, mas o Conselho de Segurança Alimentar também está muito próximo porque valida muitas questões. É algo importante, mas temos que estudar como isso vai ser feito porque tem que garantir a segurança alimentar e nutricional. A ideia não é só fazer convênio, mas um ótimo convênio. Assim como nas creches e nos abrigos, estamos com um grupo de trabalho para pensar sobre esse assunto, de que forma isso vai ser feito, sem perder a forma de trabalho valiosa da segurança alimentar e nutricional. No restaurante popular, por exemplo, não tem fritura, é tudo com muito equilíbrio nutricional. Não tenho um prazo de como isso vai ser feito, mas já há um grupo de trabalho sobre o assunto.

Proposta do governo é descentralizar os restaurantes populares – Foto: Reprodução/Google MapsProposta do governo é descentralizar os restaurantes populares – Foto: Reprodução/Google Maps

No plano de governo, também se fala em unir quem tem necessidade a quem pode ajudar. Como isso pode ser feito na assistência social?

Estamos pensando muito sobre isso, principalmente em relação à pessoa em situação de rua, que é emergência na nossa cidade. Se temos 20 que fizeram um curso de jardinagem, por que uma pessoa não paga para que trabalhem? Com isso, eles poderiam comprar alimentação, um quarto para dormir. Nós vamos fazer termos de parceria com pessoas que têm esse desejo.

Tem que avaliar qual é o perfil da pessoa e fazer um banco de voluntários para ajudar efetivamente. Não é o paliativo. É dar a cesta básica, mas, ao mesmo tempo, oportunizar qualificação para a pessoa e encaminhar para o mercado de trabalho. É promover ação imediata, mas, atrelado a isso, auxiliar para que a pessoa possa superar essas demandas. Se tiver emprego e atividade para os filhos, vamos conseguir diminuir, e muito, o número de pessoas em situação de rua e a violência. 

Qual é o papel das empresas e startups nesse sentido?

Elas podem ajudar de várias formas. O FIA, que é o Fundo da Infância, tem recursos destinados para a área da criança e do adolescente e, com eles, as entidades podem desenvolver os seus projetos. A empresa, às vezes, não tem noção de que pode fazer isso.

Também tem a questão da oferta de emprego e do aproveitamento dos espaços. Hoje, a gente usa o espaço do Sesc para sala multimídia. Então, a gente pode utilizar espaços que muitas vezes ficam ociosos. Quando vamos conversando, a própria empresa vai falando como pode contribuir. Tem muitas frentes em que a gente pode trabalhar.

O plano também fala em apoiar os CRAS e CREAS. Quais são os desafios desses lugares e como fortalecê-los?

O Cras é a proteção social básica. Hoje, temos nove Cras que precisamos investir e fortalecer para aumentar os grupos de fortalecimento de vínculos e fazer parcerias com a cultura, o esporte e a educação. Precisamos aumentar o número de servidores no serviço de convivência, mas principalmente as parcerias para conseguir tirar as crianças e adolescentes da rua e fortalecer o vínculo com a família. Assim, vamos diminuir o número que vai para o Creas.

Nós temos a defasagem de servidores que vai ser trabalhada para ampliar as equipes e reduzir a demanda reprimida. Tudo gira em torno das políticas públicas intersetoriais e do fortalecimento da proteção social básica. Temos equipes muito boas, mas precisamos de mais contratação, o que é um desafio para a gestão.

O que se tem hoje em relação ao atendimento a famílias vulnerabilizadas e como melhorar?

Hoje, nós temos nove Cras. No primeiro momento, todas as regiões estão contempladas. Claro que o ideal seria ampliar, mas enquanto não tem isso, vamos fazer parcerias nos territórios com empresas, associações, igrejas, para que a criança, o adolescente, o idoso e a família não precisem sair do seu local para ir a outro bairro. Temos que tirar a política higienista da cabeça e trabalhar para resgatar o lado positivo. Os jovens precisam de acesso, que é o que não tem. A criança é o meio em que ela vive, o que nós estamos dando pra ela?

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