Guerra do Contestado: como começou o confronto entre caboclos e coronéis em SC

Conflito que mudou o território catarinense durou quatro anos e teve como pano de fundo a religiosidade e a desigualdade social

Um conflito que teve como pano de fundo a religiosidade e a desigualdade social: assim foi a Guerra do Contestado, confronto que durou quatro anos e mexeu com as estruturas na divisa entre Paraná e Santa Catarina.

Toda a história começa em 1912, com a construção de uma ferrovia para escoar a produção da empresa Lumber, à época a maior madeireira da América Latina, que ficava em Três Barras, no Planalto Norte catarinense.

Estrada de ferro foi construída para escoar a produção da madeireira Lumber – Foto: Claro Jansson/Acervo Dorothy Jansson MorettiEstrada de ferro foi construída para escoar a produção da madeireira Lumber – Foto: Claro Jansson/Acervo Dorothy Jansson Moretti

“Onde havia a linha de tem de São Paulo ao Rio Grande do Sul, foram 15 quilômetros de terras cedidas para cada lado como forma de pagamento para a estrada de ferro”, conta o turismólogo Carlos Eduardo Fiolet.

O problema é que essas terras não estavam desocupadas. “Nesses locais, morava um povo chamado de caboclo que estava há muito tempo na região, mas não tinha escritura. Com a desapropriação, eles foram reivindicar, ocasionando a Guerra do Contestado”, complementa Carlos.

A ferrovia foi o estopim para a Guerra do Contestado – Foto: Claro Jansson/Acervo Dorothy Jansson MorettiA ferrovia foi o estopim para a Guerra do Contestado – Foto: Claro Jansson/Acervo Dorothy Jansson Moretti

Do outro lado, estavam coronéis e fazendeiros que viam na região uma possibilidade de lucrar e não queriam os caboclos no local. “Quando surge a estrada de ferro, era uma terra considerada de ninguém e os coronéis do litoral e de Curitiba entenderam que o território teria alguma riqueza, afinal, por que fazer a estrada de ferro no meio do sertão?”, explica o historiador Sandro Moreira.

Assim, os coronéis e fazendeiros decidiram que o povo que ocupava aquelas terras precisava sair. “No entendimento deles, era um pessoal que perturbava e atrapalhava os negócios. Havia a necessidade de ‘limpar a região’, isto é, tirar os caboclos e índios da área, começando o conflito social”, destaca o historiador.

Os chamados caboclos reivindicavam a posse das terras – Foto: Claro Jansson/Acervo Dorothy Jansson MorettiOs chamados caboclos reivindicavam a posse das terras – Foto: Claro Jansson/Acervo Dorothy Jansson Moretti

Religiosidade envolta no conflito

De um lado, o povo caboclo. De outro, fazendeiros e coronéis. Estava iniciada a guerra que duraria quatro anos e seria palco de cerca de 10 mil mortes. E neste cenário, destacou-se a religiosidade, principalmente por meio de um monge conhecido como João Maria de Jesus, que pegou em armas para defender os caboclos e, hoje, tem em sua homenagem um santuário em Porto União.

“A tradição religiosa do João Maria é muito antiga e extensa. Por onde ele passa, vai impressionando as pessoas em função da aparência dele, por ser eremita. Na época, não havia auxílio médicos e os monges eram as pessoas a quem as pessoas procuravam em busca de cura”, explica o historiador Alexandre Tomporoski.

A história oral, passada de geração em geração, ajuda a relembrar a trajetória do monge. Um exemplo vem de seu Roosevelt Savi, que lembra que a avó paterna oferecia alimentos a João Maria. “Ela dava os ingredientes e ele escolhia um lugar onde havia água potável para pernoitar e fazia a própria comida”, conta.

Guerra do Contestado durou quatro anos e teve mais de 10 mil mortes – Foto: Claro Jansson/Acervo Dorothy Jansson MorettiGuerra do Contestado durou quatro anos e teve mais de 10 mil mortes – Foto: Claro Jansson/Acervo Dorothy Jansson Moretti

Conflito que mudou a divisa entre estados

Muitos interesses econômicos estiveram em pauta durante a Guerra do Contestado, que mexeu, inclusive, com o território catarinense.

A secretária de Educação de Porto União, Aldair Muncinelli, é um exemplo disso. “Minha mãe nasceu em 1914 no bairro Santa Rosa, que era Paraná. Eu nasci no mesmo bairro como catarinense porque em 1916, depois da Guerra do Contestado, essa parte passou para Santa Catarina”, destaca.

O conflito terminou em 1916, tornando Porto União (SC) e União da Vitória (PR) cidades irmãs. É possível, inclusive, ficar com um pé em cada cidade no marco divisório entre as duas que, não coincidentemente, ocorre por trilhos de trem e fica na chamada Praça do Contestado.

Caminhos do Contestado é uma produção especial da NDTV Record Joinville exibida em três episódios que vão ao ar às quintas-feiras, no programa Balanço Geral. Assista ao primeiro abaixo e confira os demais nas próximas semanas:

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Caminhos do Contestado

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