Laudelino Sardá

Causos da Ilha, seus personagens, histórias e momentos do cotidiano de Florianópolis com quem conhece os cantos da Capital de Santa Catarina.


História em demolição

O Cacau Menezes pediu explicação, mas todo mundo ficou em silêncio, com medo do construtor, quem sabe

– Venanço, certa vez o meu tio ia derrubá a casa dele pra fazer outra. A gente pegou no cangote dele e não deixou. A casa foi do vô do vô dele, entende?

– E o teu tio ia destruir uma história. E foi isso que aconteceu na avenida Mauro Ramos, onde, num sábado, derrubaram um casarão do começo do século passado. Com certeza, vão levantar um espigão.

Demolição de casas – Foto: PixabayDemolição de casas – Foto: Pixabay

– Posentão, Venanço, e nem a prefeitura sabe explicar isso. O Cacau Menezes pediu explicação, mas todo mundo ficou em silêncio, com medo do construtor, quem sabe.

– Ou do destruidor. E os vereadores ficaram caladinhos. Inocentes!

– Venanço, gozado né, os vereadores gostam é de dar nome de ruas e praças.

– É isso, eles não querem saber da nossa história, até porque morto não vota.

– Olha, aquele que tá vindo não é o Batata?

– Poxa, Lelo, é o velho Arcanjo. Faz tempo! E parece meio zambetado. Será que tá cozido?

– Não, Venanço, o Batata não bebe.

– Pois pois, meus amigos, há alguns pares de século que não os vejo? Pudera, fiquei mais de 10 anos em Açores e Portugal.

– Batata, já que você acaba de vir daquelas bandas: pois acabaram de destruir uma casa açoriana na avenida Mauro Ramos.

– Lelo, podes me chamar agora de Pedro, Pedro Arcanjo. Mas a prefeitura deixou derrubar essa casa?

– Ninguém abriu a boca, nem prefeito, nem vereadores…

– Lá na Europa isso é crime. Eu sempre falava com orgulho da nossa Floripa lá em Lisboa e na Ilha de São Miguel.

– Arcanjo, nossa Ilha é do faz de conta. Todo mundo fecha os olhos pra não vê o que tá errado; eles não sentem a cidade; só querem saber de urnas.

– Pois é, Venâncio e Lelo, o que será desta nossa terrinha? Vocês viram no ND de sexta-feira? A Justiça teve de impedir que vereadores dessem nome a ruas clandestinas! A ambição impede uma cidade de ter passado, presente e futuro. Enquanto o passado é enterrado, o presente torna-se descartável e não há profecia do futuro.

– É verdade, Batat…. ou melhor, Pedro. Na Ilha só com dinheiro, opina Lelo.

– É, história e cultura formam as bases de uma cidade progressista.

– Sim, Arcanjo, mas a cidade sem cidadão consciente é de cada um e não de todos. O mercado é a alavanca do progresso, tá certo, mas o dinheiro só não salva. Por isso que o nosso turismo naufraga, conclui Venâncio.

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