Moacir Pereira

moacir.pereira@ndmais.com.br Notícias, comentários e análises sobre política, economia, arte e cultura de Santa Catarina com o melhor comentarista politico de Santa Catarina. Fundador do Curso de Jornalismo da UFSC. Integrante da Academia Catarinense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, é autor de 53 livros publicados.


Precisamos falar sobre “viadagem”: Brasil é o país que mais mata LGBTQIA+ no mundo

Expressão preconceituosa - usada por prefeito para classificar conteúdo usado em sala de aula e justificar exoneração de professor em Criciúma - escancara a ponta do iceberg de intolerância e mortes

O procedimento para apurar o suposto atentado à dignidade humana na exoneração de um professor da rede pública municipal de ensino em Criciúma foi instaurado pelo Ministério Público Estadual.

É o desdobramento desta quinta-feira (26) da história que começou na noite anterior.

Além da exoneração em si, também será examinado o vídeo em que o prefeito Clésio Salvaro (PSDB) usou uma expressão homofóbica para se referir ao motivo da demissão.

Ainda que mantenha aquilo que disse, o vídeo sumiu das redes do prefeito, mas pode ser assistido a seguir.

Vídeo foi excluído das contas oficiais do prefeito Clésio Salvaro – Vídeo: Reprodução/ND

A denúncia partiu da vereadora Giovana Mondardo (PCdoB) e mais de 90 cidadãos e entidades são signatários da notícia crime assinada pelo advogado Elias Trevisol, e que será tratada pelo promotor de Justiça Fred Anderson Vicente, da área de cidadania e direitos humanos.

As autoridades públicas têm o dever de abordar o assunto com maturidade. É fundamental que os achismos e os juízos de valor baseados em crenças e preconceitos sejam colocados de lado, assim como as motivações políticas.

Um dos princípios básicos da administração pública é a impessoalidade. Portanto, não interessa a opinião de quem está “de plantão”, como Salvaro disse no vídeo. E muito menos a busca de dividendos políticos às custas de falas como essas.

O motivo da polêmica foi a apresentação do clipe da música “Etérea”, composta e interpretada pelo cantor Criolo durante uma aula de Artes. A canção fala que “é necessário abrir discussões” sobre todos os tipos de relacionamentos e traz performances LGBT+. O clipe pode ser assistido a seguir.

Na escola, a decisão do conteúdo didático cabe a profissionais absolutamente qualificados. Esse vácuo permite a análise subjetiva dos conteúdos. Como consequência, situações lamentáveis como essas, que Salvaro considerou “viadagem”.

Não há dúvida – nenhuma – que a proteção de todo e qualquer cidadão, independentemente da sua orientação sexual, precisa ser ensinada, seja em casa, seja em sala de aula.

Um futuro melhor, de respeito mútuo, depende de cada um de nós.

“Ele está com medo”

Por meio de um amigo do professor, solicitei uma entrevista. A vítima recusou. “Ele optou em não falar com ninguém, está com medo”, respondeu o intermediário. Esse temor é legítimo.

A LGBTfobia é crime há mais de dois anos no Brasil e os casos de violência não param de crescer. Dados do Anuário do Fórum de Brasileiro de Segurança Pública – divulgado no mês passado – mostram crescimento superior a 20% no número de ocorrências.

O Brasil tem o maior índice de mortes de pessoas LGBTQIA+ no mundo. Além disso, há alto percentual de subnotificações.

Em 2020, a média foi de quatro crimes por dia motivados por intolerância sexual – lesão corporal (1.169), homicídio (121) e estupro (88).

É por isso que o tema precisa, sim, ser tratado em sala de aula.

Altair Magagnin Jr., interino

Loading...