As histórias de Antônio da Luz Amaral Filho, um comunista do berço de ouro

Amigo de Luís Carlos Prestes e secretário do “partidão” não alimenta ilusões sobre a esquerda

Ele exibe bilhetes de Luís Carlos Prestes, cartas de Anita Leocádia, um envelope enviado por Oscar Niemeyer, convites para reuniões do Partido Comunista Brasileiro e outros documentos que atestam seus vínculos com importantes figuras da esquerda e do trabalhismo, como João Amazonas, Mário Lago, Leonel Brizola e João Goulart.

Além dos momentos históricos, guardados na memória, Antônio José da Luz Amaral Filho conserva registros como cartões de boas festas enviados pela família Prestes, um assinado por Luís Carlos – Flávio Tin/NDAlém dos momentos históricos, guardados na memória, Antônio José da Luz Amaral Filho conserva registros como cartões de boas festas enviados pela família Prestes, um assinado por Luís Carlos – Flávio Tin/ND

De cara, ressalva que conviveu e privou com a burguesia, porque nasceu em berço de ouro em Pernambuco, estudou nos melhores colégios, formou-se em direito e atuou como procurador do Estado no Paraná.

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Foi secretário do “partidão” e, no entanto, hoje condena o comunismo ao esquecimento eterno. Paradoxalmente, vê o socialismo como o destino da humanidade, a partir de uma nova sociedade criada pela cibernética, da derrocada dos mercados e da homogeneização dos governos.

Esse poço de (aparentes) contradições é Antônio José da Luz Amaral Filho, advogado aposentado que trocou Curitiba por Florianópolis quando ficou viúvo, dois anos atrás. Sua pasta é repleta de recortes de jornais e correspondências de próceres do PCB, de Agliberto Vieira de Azevedo, célebre militante que estava no partido quando da Intentona Comunista de 1935, a personalidades que ficaram até os anos 80 e 90, quando os regimes comunistas foram esboroando em todas as latitudes.

Diz uma das cartas assinadas por Prestes: “Ao companheiro e amigo Antônio J. da Luz Amaral Filho, nossos votos de boas festas e feliz ano novo e de paz no mundo. Abraço fraternal”.

Uma correspondência de Anita Leocádia Prestes (filha do “cavaleiro da esperança” com Olga Benário), cuja presença ideológica era muito forte no Partido Comunista, explica as razões pelas quais ela não aceitou a pensão de coronel do Exército oferecida postumamente ao pai, em 1992.

Também há, no espólio, pedidos de apoio financeiro para as causas do PCB e um chamamento para os atos comemorativos de aniversário de 85 anos de Prestes, em 3 de janeiro de 1983. Os textos eram datilografados ou escritos a mão, e os envelopes contêm os endereços de residências e de comitês ligados ao partido, no Rio.

Ações de guerrilha no Paraná

Antônio José da Luz Amaral Filho é um estudioso da história e da política, mas também fez guerrilha no Paraná, ajudando a assaltar o navio argentino Misiones, fundeado na baía de Paranaguá.

“Tiramos três geradores e a casa de rádio, doada depois a Carlos Lamarca, que passou, graças a isso, a ter contato com o mundo inteiro”, orgulha-se. Amaral ajudou ainda a assaltar um quartel em Alto Piquiri, no Oeste do Paraná, e os fuzis, granadas e demais munições saqueadas também foram parar nas mãos do polêmico guerrilheiro que afrontou a ditadura.

“As pessoas dizem: ‘o Amaral é louco’. É por essas coisas que os atuais dirigentes do partido não gostam de mim”, afirma.

Ele identifica a gênese do socialismo em tempos bem anteriores a Marx e Engels, nas pregações de Santo Ignácio de Loyola, cujas ideias combatiam o protestantismo na Europa no século 16 e teriam baqueado a estrutura da economia capitalista judaica.

Fala com conhecimento da influência de Calvino sobre a igreja, das origens do capitalismo e da ascensão do império americano. E sente-se à vontade para dizer que “a burguesia é ranzinza e os políticos só erram no poder: têm co-responsabilidade prática contra o povo”.

Hoje, assevera que a utopia da revolução está descartada, assim como ocorreu com a luta armada. E se há um futuro para o socialismo, não é com a participação do Partido Comunista.

Críticas a Lula, Serra e Roberto Freire

Falar – bem ou mal – dos próceres da esquerda é um bom passatempo para Antônio José da Luz Amaral Filho. Ele diz que Brizola “foi o burguês mais patriota e nacionalista que tivemos” e que, como João Goulart, era um “socialista empírico”.

Critica Lula – “veio para destruir Brizola, é a esquerda que a direita ama” –, Roberto Freire, José Serra e até Rui Barbosa, que “nunca falou inglês”. Também afirma que “a guerrilha já foi útil, mas hoje é fascista”. E destaca as figuras de Álvaro Ventura, catarinense que deu posse a Prestes no PC quando este voltava da Bolívia (“foi um dos melhores comunistas que conheci”), e de Anita Leocádia, braço direito do pai e marcada pela luta em defesa dos ideais do comunismo. “Prestes teve dez filhos, mas nenhum chegou perto da Anita”, afirma o ex-secretário do partido no Paraná.

A prisão do professor e uma decisão de vida

Antônio José da Luz Amaral Filho nasceu há 78 anos num palácio da ilha do Retiro, que depois foi vendido pela avó ao Sport Club Recife, que ergueu ali seu estádio de futebol. Filho de pai paraibano, ele também veio ao mundo pelas mãos de um médico, o que era raro naqueles tempos.

“Foi um nascimento burguês”, ressalta o ex-procurador. A família tinha posses, mas sempre foi de esquerda, embora ligada ao poder. Quando o pai, fiscal federal e militante do PTB, foi transferido para São Paulo, a casa da família era frequentada por Leônidas Cardoso, militar e pai do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni, Florestan Fernandes e Alcebíades Monjardim, pai da cantora Maysa.

Foi aos 11 anos, quando era estudante em Cambará, no Norte do Paraná, que Antônio ouviu pela primeira vez a palavra “comunismo”. O ano era 1946, o mesmo da eleição do general Eurico Gaspar Dutra para a presidência da República, após o duro período do Estado Novo de Getúlio Vargas.

A prisão de seu professor de educação física, de orientação esquerdista, teve tanta influência que dali para frente ele se tornou comunista, mesmo sem saber bem, naqueles anos de juventude, o que isso significava. Depois, em Londrina, seu professor de português também era do PCB, o que reforçou a decisão tomada anteriormente.

Quem o colocou no partido foi Almo Saturnino Magalhães, numa das épocas que o PCB estava na legalidade, embora não tivesse como competir, em termos eleitorais, com o PSD (Partido Social Democrático), a UDN (União Democrática Nacional) e nem o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro).

O engenheiro civil Iedo Fiúza, natural de Santos (SP), chegou a concorrer com Eurico Dutra no pleito de 1946, mas o general, vitorioso, colocou os comunistas na clandestinidade pouco tempo depois.

“Capitalismo não acomoda o amanhã”

Antônio José da Luz Amaral Filho gosta de afirmar que era do grupo de Luís Carlos Prestes, que não tinha a simpatia da turma de João Amazonas, cabo de Prestes em 1922 na célebre coluna que cortou o país de Sul a Norte. Amigo de Prestes (como o foram seu pai e um irmão), Niemeyer (o único dos históricos que nunca abandonou o partido) e João Saldanha, entre outros, ele também não gostava de Giocondo Dias, que era do segmento de Agliberto de Azevedo e morreu aos em 1987 como presidente de honra do PCB.

Numa das visitas de Prestes a Curitiba, hospedou-o na melhor suíte que encontrou. Também diz que advogou para os pobres, que recusou cargos públicos e não esconde que transita em todas as frentes. “A burguesia me ama”, fala, com ironia, mesmo tendo sido secretário do “partidão”, onde enfrentou brigas intestinas com correntes rivais.

Antônio não tem ilusões sobre a viabilidade do comunismo nos dias de hoje, porque “o mundo é capitalista”. Nem tem nostalgia em relação a temas como a luta de classes, utopia que o velho Prestes também abandonou no devido tempo. No entanto, cultiva a crença de que a prevalência do capital como a conhecemos hoje está com os dias contados.

“O capitalismo só divide, não soma, não acomoda o amanhã da humanidade”, filosofa. De outro lado, o socialismo é o futuro, quando “ninguém vai ser dono de nada” graças à força da tecnologia e da produção que cada indivíduo fará a partir de suas próprias potencialidades.

Dilma é uma “mulher preparadíssima”

Se há uma figura da política atual que Antônio respeita é a presidente Dilma Rousseff. Ele acredita no acerto do governo brasileiro ao construir um porto em Cuba, porque é preciso abrir a economia daquele país e quebrar a lógica que concentra as transações comerciais e a circulação do dinheiro no hemisfério norte.

O ex-procurador também aposta no sucesso do Mercosul e no êxito de uma aproximação com a União Europeia. Outro projeto no qual coloca suas fichas é o da ligação do Brasil com o Pacífico, por meio do desvio de rios e a construção de túneis e estradas que cortarão o território boliviano. “Quando isso acontecer, o canal do Panamá vai quebrar”, preconiza.

Ele considera a presidente “uma mulher preparadíssima”, a primeira a ter coragem de enfrentar o poder hegemônico que vem do Norte. Num mundo cada vez mais competitivo, não há mais lugar para a ideologia.

“A cibernética dissolverá o capitalismo e criará uma nova sociedade”, vaticina. “O filho será o socialismo”, acredita. Os governos serão homogêneos e os mercados mudarão de cara. “No Estado socialista, todos participam da administração. Na democracia do capitalismo, manda que tem [dinheiro]”.

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