Catarinenses presos no Congresso de Ibiúna em 1968

ND teve acesso a ficha do Dops dos estudantes catarinenses presos no Congresso da UNE em outubro de 1968 e a lista usada pelo Exército para monitorar os militantes do movimento estudantil que resistiu ao golpe de 1964

O movimento estudantil, principal foco da resistência ao regime militar e ao golpe de 1964, teve participação destacada de estudantes catarinenses.Documentos aos quais o Notícias do Dia teve acesso detalham como foram fichados e identificados os 15 estudantes de Santa Catarina presos em outubro de 1968, em Ibiúna (SP). As prisões acabaram impedindo a realização do Congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes). Além de mostrar a ficha de cada um deles (veja abaixo), o processo do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) de São Paulo revela o número total de estudantes fichados pela repressão: 723.

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Outras fontes, afirma Derlei de Luca, coordenadora da Comissão Estadual da Verdade, são menos precisos e falam em quase 800 estudante e outras até em mais de 1.200 presentes ao evento. O documento foi conseguido por Derlei no Arquivo Público do Paraná, pois no Dops de Santa Catarina a informação nunca foi entregue apesar dos pedidos feitos pela comissão estadual e por familiares de ex-militantes políticos.

As fichas de todas as delegações presas foram enviadas pelo Dops paulista para todos os estados, justamente para que os órgãos de repressão pudessem controlar a atuação dos estudantes presos em todo o país a partir daquele momento. Outro documento é a lista dos presos mantida em segredo pelo Exército (veja ao lado) e que o ND teve acesso com exclusividade.

Nas folhas datilografadas aparecerem o nome de 14 dos 15 presos em Ibiúna. Sebastião Hulse, na época estudante da Escola de Engenharia Industrial da UFSC e nascido em 9 de fevereiro de 1946 em Tubarão, é o único dos integrantes da delegação de Santa Catarina que não aparece relacionado nas duas páginas do documento do Exército.

A lista, além de ter a grafia errada de vários nomes e sobrenomes, tem a inclusão de Celso Pereira de Souza, nascido em Lages e identificado pelo Dops como funcionário público e estudante da Faculdade de Filosofia da UFSC, escrito a caneta após a lista dos demais estudantes presos pela repressão em Ibiúna. “Ibiúna foi uma prisão light comparado com o que veio depois. Não houve tortura e nem interrogatórios. Só perguntaram o nome, o que estudávamos e se sabíamos que o encontro era ilegal”, afirma Derlei de Luca.

Divulgação/ND

Arquivos do Dops têm fotos das prisões de Derlei de Luca e Edison Andrino (1ª fila)

Apesar de não serem torturados em São Paulo, os presos em Ibiúna passaram a ser monitorados e alguns deles foram novamente presos pelo Dops em Santa Catarina. A invasão no Congresso de Ibiúna é ponto mais conhecido da repressão contra os estudantes, mas ainda em 1964, uma das primeiras ações da ditadura militar foi invadir e incendiar a sede da UNE, na Praia do Flamengo, na noite de 30 de março para 1º de abril.

O regime retirou legalmente a representatividade da UNE por meio da Lei Suplicy de Lacerda e a entidade passou a atuar na ilegalidade. Segundo o memorial da UNE sobre o período, as universidades eram vigiadas, intelectuais e artistas reprimidos, e em 1966, um protesto em Belo Horizonte na Faculdade de Direito foi brutalmente reprimido.

No mesmo ano, também na capital mineira, a UNE realiza um congresso clandestino no porão de uma igreja. Já no Rio de Janeiro, na Faculdade de Medicina da UFRJ, a ditadura reprimiu com violência os estudantes no episódio conhecido como Massacre da Praia Vermelha. Na madrugada de 23 de setembro de 1966 as forças policiais do regime militar espancaram cruelmente os jovens estudantes que haviam se abrigado no antigo prédio da Faculdade Nacional de Medicina, no campus da Praia Vermelha, e depredaram suas instalações.

Os estudantes engrossaram a passeata dos Cem Mil no Rio de Janeiro, pedindo democracia, liberdade e justiça em 1968. No entanto, os militares endureciam a repressão em episódios como o assassinato do estudante secundarista Édson Luis em 28 de março de 1968.

Divulgação/ND

Os estudantes catarinense presos em Ibiúna foram levados, assim como os demais, para o Presídio Tiradentes, na capital paulista. Depois de oito dias encarcerados foram surpreendidos com a chegada de três veículos marca Rural Willys com dois bancos de madeiras e um estofado, mandados pelo Secretário de Segurança de Santa Catarina, General Rosinha (Paulo Gonçalves Weber Vieira da Rosa), para levar de volta os estudantes catarinenses. Esse é parte do relato do integrante da delegação de Santa Catarina, Gerônimo Wanderley Machado, ao jornalista e historiador, Celso Martins.

Machado lembrou também da chuva, do frio e da a água e da comida que eram escassas até a chegada dos militares no sítio onde os estudantes estavam reunidos. Ele diz que tomou banho num lago e foi dormir, sendo despertado no início da manhã com a presença de centenas de militares. “Comunistas, filhos da puta, vagabundos, acordem”, gritavam.

Segundo Celso Martins, todos foram trazidos de volta a Florianópolis, fichados na Delegacia de Polícia de Biguaçu e mandados para suas casas e deixados em pontos diferentes da cidade. A dispersão dos estudantes foi planejada pelo General Rosinha, pois uma manifestação organizada pelos estudantes esperava a volta dos presos em frente a Catedral Metropolitana e que na época ficava ao lado de Secretaria de Segurança Pública.

“Fui deixada na Trindade junto Rosimarie Cardoso e foi a pé para casa, próxima de onde hoje é o hotel Majestic. Sabemos que todo mundo estava na praça, mas estávamos uma semana sem tomar banho. Depois de Ibiúna tínhamos que voltar a vida na universidade. A gente não podia ser mau aluno. Todo mundo frequentava a aula. A militância não podia atrapalhar os estudos”, completa Derlei de Luca.

Antes de seguir viagem para Santa Catarina, de acordo com o relato de Gerônimo Machado, a caravana parou no Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo para que Derlei de Luca pudesse pegar suas roupas. Em artigo que será publicado em junho no livro “Histórias na ditadura Santa Catarina: 1964/1985”, organizado pelos historiadores Ana Brancher e Reinaldo Lohn para edito pela Editora da UFSC, Martins completa o relato de Machado sobre o retorno dos catarinenses depois das prisões em São Paulo.

“Ela foi sozinha até um quarto, pois a polícia não se atrevia a entrar. O Crusp era considerado território livre, onde a repressão não se atreveu a entrar antes do AI-5. Os demais ficaram aguardando nos carros da SSI, pintados de preto e branco. Ao voltar ao carro, alguém segurou Derlei e disse-lhe que era loucura voltar com seus próprios pés para o carro da polícia, ao que ela respondeu: loucura é ficar em São Paulo. A primeira parada foi em Registro, ainda em São Paulo, onde os estudantes e sua escolta comeram filé, churrasco e galeto, tudo pago pelos policiais. Repetiram a dose em Curitiba, Paraná e depois em Itajaí, Santa Catarina. Segundo Machado, os policiais tinham ordens de ir soltando os presos pela periferia, próximos de suas residências.”

Para Celso Martins, o Congresso de Ibiúna é um marco no movimento estudantil em Florianópolis, que só se expandiu para outros municípios na década de 80. “Toda essa geração que foi presa lá já estavam se formando ou abandonaram a militância logo depois. O movimento fica acéfalo, do ponto de vista da combatividade e da resistência até 1975. Tem esforços individuais e fora do Estado, mas não tem mais o caráter de contestação por aqui”, explica.

Daniel Queiroz/Reprodução/ND
Reprodução de documento inédito do Exército de lista com catarinenses

Nova prisão na visita de Costa e Silva e a primeira tortura em Santa Catarina

O Ato Institucional nº 5, AI-5, baixado em 13 de dezembro de 1968, durante o governo do general Costa e Silva, foi a expressão mais agressiva da ditadura militar brasileira (1964-1985). Vigorou até dezembro de 1978 e deu poder de exceção aos governantes para punir arbitrariamente os que fossem inimigos do regime ou como tal considerados. Em Santa Catarina e após as prisões de Ibiúna, a cada visita de uma autoridade, estudantes eram novamente presos e fichados pelo Dops para tentar evitar novas passeatas e manifestações. Dias antes da decretação do AI-5, estudantes voltaram para prisão quando foi anunciada a visita do presidente Costa e Silva e alguns deles articularam uma manifestação na capital.

“Quando o Dops nos prendeu novamente em dezembro de 1968, entre os presos de Ibiúna estávamos eu e o Paulo Alves, era por termos organizado uma manifestação contra o presidente Costa e Silva que participaria de um evento no Teatro Álvaro de Carvalho. A manifestação estava marcada para às 17hs, mas de manhã eles começaram a nos prender. Também foram presos Sergio Bonson, então chargista do jornal O Estado, Roberto Maciel Cascaes e Heitor Bitencourt, presidente da época do Diretório Acadêmico dos Estudantes (DCE). Eram os que tinham chamado a manifestação e nos levaram direto para Biguaçu”, relembra Derlei de Luca. As prisões aconteceram no dia 5 dezembro, antes do Ato 5, e, por isso, acredita Derlei, ninguém foi torturado.

Mas logo depois, em janeiro de 1969 já sob a vigência do AI-5, os estudantes Roberto Maciel Cascaes e Gildo Braz de Lima foram presos pelo Dops e torturados na delegacia de Biguaçu depois de uma manifestação na UFSC. “Além de pancadas e palmatórias eles ficavam encostados na parede e com latas de pontas agudas cortando os pés. Essa foi a pior tortura contra eles”, afirma Derlei ao informar que este é o primeiro caso de tortura relatado em Santa Catarina durante a ditadura militar.

Em depoimento a Comissão da Verdade na Alesc (Assembleia Legistiva de Santa Catarina) em outubro de 2013, Cascaes confirmou as torturas e a prisão. Ele tinha 18 anos e era estudante secundarista ligado ao movimento estudantil. Segundo seu relato, foi detido quando saía de casa. Levado para o Dops de Florianópolis, foi torturado por quase oito horas. “Me puseram descalço em cima de uma lata de leite em pó. Levei socos, pontapés, ‘telefones’, da uma da tarde às nove da noite”, afirmou Maciel no depoimento na Alesc. Depois da sessão de tortura, afirma, foi levado para a cadeia de Biguaçu e transferido para Curitiba. Depois do episódio, permaneceu preso por quatro meses. E depois de solto foi processado e preso em outras duas ocasiões, novamente por quatro meses.

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