Das eleições ao governo, Moisés e Borba viveram juntos ascensão e queda

Considerado um azarão por todos, Borba trabalhava para Moisés chegar ao segundo turno. Era a conta para ganhar a eleição

Douglas Borba não repreendia ninguém quando era chamado de “primeiro-ministro” do governo Carlos Moisés. Preso preventivamente no sábado (6), na segunda etapa da Operação Oxigênio, o ex-vereador de Biguaçu tinha orgulho do título informal e dos plenos poderes que recebeu para chefiar a Secretaria de Estado da Casa Civil. A condição de super-secretário não caiu do céu. Antes de migrar para o PSL, escanteado pela cúpula do PP, Borba trabalhou firmemente durante a campanha do autointitulado Comandante Moisés, que não só se sagrou governador de Santa Catarina, como também, fez a maior votação da história do Estado para o cargo.

Governador Carlos Moisés e o ex-secretário da Casa Civil, Douglas Borba – Foto: Divulgação/NDGovernador Carlos Moisés e o ex-secretário da Casa Civil, Douglas Borba – Foto: Divulgação/ND

Passou pelo então vereador de Biguaçu a definição da estratégia que vinculou o bombeiro da reserva no presidenciável Jair Bolsonaro e aproveitou para surfar na onda conservadora, que se estabelecia país afora. Os segredos dos bastidores da corrida eleitoral foram revelados pelo próprio Borba, durante um seminário político realizado em Capivari de Baixo, no Sul do Estado, em dezembro de 2018, exatamente um mês antes de assumir a chefia da Casa Civil, com total autonomia concedida por Moisés.

Borba disse aos participantes do fórum – focado em marketing e estratégia política, organizado pelo marqueteiro Laércio Menegaz Júnior – que o primeiro contato que teve com Moisés foi em 9 de agosto de 2018, quatro dias antes da convenção que oficializou a candidatura ao governo do Estado.

Naquela reunião, estava em pauta a definição da linha que a campanha adotaria. Borba e equipe concordaram em embarcar na narrativa de direita, que já estava pronta, desenhada pelo presidenciável Bolsonaro e bem recebida pela maioria do eleitorado catarinense.

Com menos de dez segundos no rádio e na televisão, foi elaborado o slogan “o candidato do Bolsonaro em Santa Catarina”. Segundo Borba, não era o melhor para expressar o que Moisés gostaria de representar aos eleitores, mas era “a única forma de dizer que existíamos”, afirmou.

A partir daí, começou a ser traçada a estratégia de trabalho para o primeiro turno. O desafio era fazer o Comandante Moisés ser conhecido. Único homem que podia chegar perto de Moisés durante os debates, Borba começou a pensar em conteúdos que pudessem chegar ao eleitor nas mais diferentes mídias. Frases como “não existe meia mudança” não eram ditas ao acaso.

Elas eram apresentadas no curto tempo disponível no horário eleitoral gratuito e nas oportunidades de entrevista, mas amplamente repetidas nas redes sociais, o motor da campanha. Conforme o raciocínio de Borba, “meia mudança” seria eleger somente Bolsonaro, mudança completa era votar em Moisés, Lucas Esmeraldino para o Senado e em candidatos a deputado federal e estadual do 17.

Paixão pelo bolsonarismo

A principal ferramenta para captar votos foi o WhatsApp. Estavam centralizados no comitê de campanha coordenado por Borba, pelo menos, 270 grupos. Cada um deles tinha entre 50 e 100 lideranças, que replicavam as mensagens para os contatos, e assim por diante.

A “paixão” desses militantes pelo bolsonarismo foi decisiva, mesmo que Borba sempre tenha procurado valorizar o seu esforço pessoal. “Não adianta colocar em uma prancha quem não sabe surfar”, gabou-se Borba para a plateia de Capivari, que reunia políticos, em sua maioria do PSL, publicitários e jornalistas.

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Considerado um azarão por todos, Borba trabalhava para Moisés chegar ao segundo turno. Era a conta para ganhar a eleição. No pleito polarizado entre Gelson Merisio, então no PSD, e Mauro Mariani, do MDB, o raciocínio é que o terceiro colocado descarregaria os votos no candidato do PSL. Foi o que aconteceu. Se o segundo lugar no primeiro turno parecia surpreendente, desbancando o MDB, a confiança na vitória pairava no comitê durante o segundo turno. “A eleição nós já ganhamos. O que temos que fazer é não perdê-la”, confessou Borba aos presentes no seminário.

O sucesso de Borba durante a campanha eleitoral não se repetiu durante os 17 meses que esteve no principal cargo do secretariado de Moisés. Preso no escândalo dos respiradores, Borba agrava para um patamar ainda maior a grave crise instalada no Palácio d’Agronômica, a casa do velho amigo de jornada.

“Ser réu não significa nada”, disse Moisés em 2018

Mesmo sabendo que seu futuro chefe da Casa Civil respondia na Justiça por improbidade administrativa no exercício do cargo de vereador em Biguaçu, Carlos Moisés foi avalista da indicação de Douglas Borba para um dos cargos mais importantes do seu governo. “Ser réu não significa absolutamente nada”, disse Moisés sobre o assunto, em dezembro de 2018. Além de Borba, os secretários Leandro Lima (Administração Prisional e Socioeducativa) e Paulo Eli (Fazenda), também respondiam a processos.

No dia 15 de maio de 2014, uma quinta-feira, a equipe de reportagem do ND flagrou servidores lotados no gabinete de Douglas Borba e de outro vereador trabalhando fora da Câmara de Vereadores de Biguaçu, durante o horário do expediente no órgão público. A reportagem motivou uma denúncia do Ministério Público, acolhida pela Justiça.

Três dias depois de ser anunciado como futuro chefe da Casa Civil, o ND resgatou o caso. Naquele mesmo dia, 10 de dezembro de 2018, o ND conseguiu uma entrevista exclusiva com o governador Carlos Moisés, fato raro, já que o governador eleito pouco falou aos jornalistas durante o período da transição.

Naquele dia, Moisés foi questionado pela reportagem nos seguintes termos: “O ND revelou hoje [segunda-feira] que três dos nomes anunciados são réus na Justiça. Douglas Borba, Leandro Lima e Paulo Eli. Como o senhor avalia essa situação?”. Moisés assim respondeu: “Eu não quero abordar essa questão aqui, até porque, ser réu não significa absolutamente nada. Tem que avaliar cada caso para poder se manifestar. Quem vai se manifestar sobre condição na Justiça é a própria Justiça”.

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