Deputado cego eleito pelo ES diz que até velhos usaram chamariz da renovação

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – “Mas como é que ele vai ser deputado?”

“E se alguém mostrar algo para ele assinar e ele não souber o que é?”

“E como é que vai fazer para as pessoas não enganarem ele?”

Felipe Rigoni, 27, ouviu dúvidas como essas em sua campanha para deputado federal no Espírito Santo, pelo PSB. Tirou todas de letra, conseguiu 84.405 votos e será, pelas informações de que dispõe, o primeiro deputado federal cego do país.

Ele se habitou a responder aos que questionavam sua capacidade: “Vou fazer como eu fiz a vida toda, com apoio da tecnologia e auxílio de pessoas em quem eu confio”.

Na vida toda, conta o capixaba, já couberam muitas outras conquistas: ele se formou em engenharia de produção na Universidade Federal de Ouro Preto (MG), fez mestrado em políticas públicas na Universidade de Oxford (Inglaterra), virou bolsista das Fundações Lemann e Estudar, integrou a primeira turma do RenovaBR (entidade de apoio à formação de novas lideranças políticas), foi candidato a vereador em 2016 em Linhares (ES).

Agora irá para o Congresso com o empurrão de mais de 2.000 voluntários que o ajudaram na campanha.

Eram multiplicadores ligados a jovens e ao empreendedorismo que, divididos em núcleos regionais e temáticos, buscaram difundir as propostas de Rigoni, também espalhadas nas redes sociais.

Suas principais bandeiras: combate à corrupção e aos privilégios de governantes, redução da desigualdade com o estímulo à educação básica e fortalecimento da economia por meio da desburocratização da atividade empreendedora.

O futuro parlamentar, que já presidiu um conselho nacional de empresas juniores, quer também se juntar aos esforços pela aprovação das reformas tributária e política.

Ele chegará ao cargo impulsionado pela onda de renovação política. Sem nunca ter exercido mandato, foi um dos bolsistas do Renova e também ajudou a fundar a representação estadual do Acredito, outro movimento que prega a oxigenação dos quadros.

O apresentador Luciano Huck, entusiasta dos grupos, gravou um vídeo de apoio ao novato, prontamente compartilhado nas redes sociais do postulante ao Congresso.

Rigoni diz que durante a campanha “sentia o tempo todo um desejo por renovação”.

“Mas as pessoas não queriam qualquer renovação. Com muito trabalho, consegui mostrar que a minha era uma candidatura diferente. Até os velhos políticos estavam falando de renovação, mas os eleitores não são bobos”, afirma.

A candidatura do pessebista recebeu até agora quase R$ 816 mil, levantados com doações de pessoas físicas e um repasse de R$ 150 mil da direção nacional do partido.

Segundo a Câmara dos Deputados, não há registro de nenhum parlamentar cego que tenha atuado na Casa desde 2004, quando começou a ser feito um acompanhamento mais próximo. Informações oficiais sobre legislaturas mais antigas são desconhecidas.

Rigoni perdeu a visão aos 15 anos, por complicações de uma uveíte (doença inflamatória nos olhos). Ele lida bem com a condição. “Um dos meus papéis como deficiente é educar as pessoas. Muitas não têm preconceito. Tento ser didático”, diz.

Nesta terça-feira (9), o deputado eleito foi contatado pelo PSB para informar que tipo de adaptação terá que ser feita na Câmara para recebê-lo. As orientações serão repassadas ao Congresso.

Mas, segundo ele, não é nada complicado. Uma das necessidades, por exemplo, será instalar uma extensão nos aparelhos eletrônicos para que eles “falem” o que está escrito -tecnologia que Rigoni já usa em seu computador e celular.

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