Dilma enferrujou as alças do poder

O estilo da presidente da República, sem jogo de cintura político, ajuda a fomentar a cobrança pela saída dela, não bastasse o quadro delicado de corrupção que envolve correligionários, aliados e o PT

Pergunte a qualquer petista sobre o porquê Dilma Rousseff não deve perder o cargo por um processo de impeachment e a primeira reação dele será dizer que “tem coisas que eu não gosto na maneira dela governar”, para depois completar que não há motivos para apeá-la do poder. O sentimento de contrariedade à postura de Dilma também é o que move os outros milhares de brasileiros, não petistas, que devem tomar as ruas nas manifestações de domingo. 
A presidente perdeu a determinação como governante. Em pouco tempo, viu ser desmentida a imagem, criada pelo ex-presidente Lula – cobrado hoje por mazelas históricas -, de que nela estavam reunidas qualidades de uma gerente e a de “mãe” do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), que quase desapareceu do noticiário como a credibilidade de Dilma. O maior mal de dela é ser Dilma, uma pessoa de temperamento difícil, incapaz de gestos políticos. Não possui a longevidade de articulador de José Sarney, o histrionismo de Fernando Collor, o irresponsável saudosismo de Itamar Fraco, o brilhantismo de Fernando Henrique Cardoso, capaz de citar Friedrich Nietzsche com propriedade, ou a esperteza de Lula, que não conhecia o intelectual alemão, mas, intuitivamente, é nietzschniano ao exagerar nas metáforas e na ironia. 
Dilma é um desastre em suas manifestações. Saúda a mandioca em um discurso e usa o “gênio” para dizer que não está resignada com a atual condição de pressionada pela renúncia em outro, bons temas para paródias musicais ou piadas. Sem o brilho de seu antecessor, que, em plena chuva de acusações sobre corrupção no mensalão de seu primeiro governo, era saudado como “o cara” pelo presidente dos Estados Unidos Barack Obama e aplaudido pelo mundo inteiro, Dilma esqueceu de enfatizar que a crise econômica mundial chegou e com ela acabaram-se as mágicas da renúncia fiscal, o IPI reduzido do automóvel, do fogão e da geladeira, do material de construção ou o crédito abundante, o que agradava os mesmos empresários e banqueiros que lhe pedem a cabeça. Em um cenário de falta de credibilidade nas instituições, de recessão e de uma roubalheira desenfreada com o dinheiro público a inércia a levou a ganhar a culpa junto com o PT. As pessoas que querem Dilma fora do poder não estão exatamente cansadas das velhas práticas, mas cobram de uma presidente eleita com pequena margem de diferença, essencialmente, o atributo da arte de fazer política e o porte de um estadista.

Com a palavra
Se o consenso é por Michel Temer na presidência, mesmo antes da convenção nacional do PMDB iniciar, neste sábado, os peemedebistas estaduais já carregava na bagagem dos mais de cem integrantes da comitiva estadual, 46 deles delegados, moções da juventude da sigla e do segmento mulher que pediam o desembarque da sigla do governo federal e o afastamento do PT. Na noite desta sexta, o presidente estadual Mauro Mariani reuniu o grupo catarinense, em Brasília, para fechar uma posição única, com uma antecipação na ponta da língua.

“Independentemente da posição nacional, em Santa Catarina deveremos entregar os cargos federais, uma determinação partidária que deverá ser seguida por todos.”
Mauro Mariani, presidente estadual do PMDB, pouco antes de se reunir com a delegação catarinense à convenção nacional.

Perspicaz
Ex-governador e ex-senador Casildo Maldaner, um dos defensores do rompimento com o governo Dilma Rousseff, foi mais entusiasmado para a convenção do PMDB depois de participar da prévia regional, há uma semana, em Porto Alegre. E lembra de um passagem que para ele é singular, a manifestação do vice-prefeito da Capital gaúcha, Sebastião Mello, que não titubeou quando foi proposta a ruptura com o governo federal: “Mas como a gente debater a saída do governo se nós nem entramos”. Prova de que nem todo o partido, principalmente os sulistas, veem-se representados na administração Dilma Rousseff.

JAMES TAVARES/SECOM/ND

Raimundo Colombo recebe o abraço coletivo de alunos de uma escola, em Ituporanga, em meio à expectativa da renegociação da dívida com a União

O PERSONAGEM
O governador Raimundo Colombo terminou a semana em alta por ter liderado, mais uma vez, os demais estados que discutem a dívida com a União, que acenou com um acordo para baixa os valores. Cercado por alunos da Escola Estadual de Ensino Fundamental João Carlos Thiesen, de Ituporanga, durante a entrega de residências às famílias da região que tiveram as casas interditadas por estarem em área de risco, Colombo relaxou com tanta manifestação de carinho. Na segunda, o Estado volta conversar com o ministro Nelson Barbosa (Fazenda).

A perspectiva
Se não prosperar a ação de Santa Catarina no Supremo, a que pede o cumprimento do indexador com Selic Acumulada, aprovada no Congresso, o Estado dirá sim à proposta de desconto de 40% nas próximas 24 parcelas da dívida com a União, o que o governo federal deverá topar, mesmo que tenha oferecido 20% de desconto no mesmo período. O governador Raimundo Colombo e o secretário Antonio Gavazzoni (Fazenda) devem oficializar a decisão na próxima segunda-feira no encontro com o ministro Nelson Barbosa (Fazenda), o que representará a diminuição do R$ 90 milhões para R$ 25 milhões na parcela paga pelo Estado, o que é sinônimo de vitória na empreitada, até porque Santa Catarina não desistirá da ação no STF.

E agora?
Depois de 15 anos de filiação no PPS, Luciano Formighieri, das direções nacional, estadual e municipal de Florianópolis, formalizou a saída do partido. Lotado no gabinete do deputado Mário Marcondes, deve seguir o mesmo caminho e ir para o PSDB.

Quase lá
Vereador Deglaber Goulart, hoje no PMDB, teve uma conversa quase que definitiva com o presidente municipal do PSD da Capital, o ex-deputado Pedro Bittencourt Neto. Deglaber reconhece que o martelo deve ser batido na próxima terça, a não ser que algum fato maior o mantenha na atual sigla.

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