Mobilização para criar a Comissão Municipal da Verdade ganha força em Joinville

Representantes políticos e de entidades definem como será conduzido o trabalho de investigação do período da ditadura

Lideranças políticas e representantes de entidades estão articulando a criação da Comissão Municipal da Verdade em Joinville para mexer e remexer no período da ditadura. O grupo de trabalho foi proposto em uma audiência realizada pelo CDH (Centro de Direitos Humanos), que, em 11 de março, comemorou o aniversário de 35 anos da entidade. Na oportunidade, os vereadores Adilson Mariano e Manoel Bento (ambos do PT) e Rodrigo Fachini (PMDB) estavam presentes e se comprometeram em levar a proposta adiante.

Desde então, a proposta de instalar a comissão está sendo comandada pela Comissão de Participação Popular da Câmara de Vereadores. Integrante do grupo, Mariano diz que a sociedade precisa conhecer a história “para que não se repitam os mesmos crimes contra a humanidade”. “De repete uma juventude que não conheça a história possa achar que os anos de chumbo eram bons tempos,” disse.  

O vereador James Schroeder (PDT) também defende a criação da comissão. “Famílias daqui tiveram a experiência de sofrer a repressão com a prisão e também perdas de mandatos [no caso dos políticos]. A própria Câmara se manifestou a favor da ditadura,” afirmou.

Na última quarta, uma reunião foi realizada entre vereadores e entidades para começar o debate de formação da comissão. Aos parlamentares, foi entregue uma carta de solicitações relativas à futura Comissão da Verdade.

Participaram do encontro os parlamentares Mariano, Fachini, Schroeder e Fábio Dalonso (PSDB); a chefe do Departamento de História da Univille, professora Iara Andrade Costa; o presidente da Comissão da Verdade da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de Joinville, Eugênio Pacelli Paz Vieira da Costa; e os representantes do CDH Irma Kniess e Maikon Jean Duarte.

Sabrina Seibel/CVJ/Divulgação/ND

Conversa inicial. Interessados em apurar a época da ditadura em Joinville se reuniram com vereadores, no início deste mês

Nova reunião este mês

No próximo dia 21, líderes políticos e entidades interessadas se reúnem novamente para apontar quais devem ser os objetivos específicos, os participantes e o prazo da comissão municipal a verdade. Representantes do governo Udo devem participar do encontro.

Segundo Adilson Mariano, a comissão deve ser criada a partir de um projeto de lei, podendo ser apresentado pelo Executivo ou pelo Legislativo. O vereador esclarece que comissões da verdade – abertas nos âmbitos federal e estadual – partiram de leis propostas pelo Poder Executivo. Em Joinville, ainda não sabe qual será a posição do município.

Se a comissão da verdade for proposta pelo Executivo, ela poderá ter vínculo com a Procuradoria-geral ou com a Secretaria de Proteção e Segurança. E se partir da Câmara de Vereadores, estará atrelada à Comissão de Participação Popular. 

Comissões investigaram morte de ex-presidente

O trabalho investigativo feito por comissões da verdade confrontam informações para chegar mais perto dos fatos reais daquele período obscuro da história do Brasil. No fim de abril, a imprensa nacional publicou matéria sobre um relatório parcial divulgado pela Comissão Nacional da Verdade, que descartou a versão de assassinato do ex-presidente Juscelino Kubitschek e de seu motorista Geraldo Ribeiro.

Eles teriam morrido em um acidente na rodovia Presidente Dutra, no Rio de Janeiro, em 22 de agosto de 1976. Essa conclusão contrastou com a da Comissão da Câmara Municipal de São Paulo, que apontou como causa da morte um atentado preparado pela ditadura brasileira (1964-1985).

Univille e CDH participam do debate

Líder do Departamento de História da Univille, a professora Iara Andrade Costa vê com bons olhos a criação da Comissão Municipal da Verdade. “O departamento tem todas as razões para ser favorável à implantação da comissão”, enfatizou. Aliás, ela sugere a expansão da investigação para municípios da região.

Iara reclama da falta de registros e de documentos em Joinville sobre a época do regime militar. Entre as raras exceções, a professora cita um artigo no livro História de Imigrantes. A pesquisa quase se restringe ao arquivo de jornais. Segundo a professora, a ditadura teve impacto significativo em Joinville pelo tamanho e pela importância da cidade na época.

Segundo o CDH, 70 pessoas foram presas e torturas em Joinville, com detenções em Florianópolis e Curitiba. Iara também lembrou do fato de a Câmara de Vereadores ter se manifestado publicamente favorável ao golpe de 64 e à ditadura. “Depois de apoiar o golpe, vereadores perderem mandatos”, afrontou. Segundo ela, até hoje a Câmara não fez uma retratação pública, assumindo que o apoio ao golpe foi um erro.

Integrante do CDH, o professor de história Maikon Jean Duarte espera que a comissão tenha como foco examinar violações de direitos humanos. Ele também não quer a interferência de entidades e setores que tiveram ligação com a ditadura.

Duarte discorda do vereador Fabio Dalonso (PSDB), que é ex-militar, e que sugere a participação de integrantes da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra de Joinville na Comissão da Verdade. O tucano defende o contraponto. “Temos de mostrar os dois lados”, opinou Dalonso.

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