Movimento estudantil volta a se organizar em Santa Catarina

Leia abaixo trechos do artigo do jornalista e historiador Celso Martins sobre os “Ensaios da resistência” antes do Congresso e Ibiúna e a retomada do movimento estudantil em 1975 com a participação de militantes do PCB

…Faltava quem puxasse a cantoria. A noite de Música Popular Brasileira no Restaurante Universitário da UFSC nos primeiros meses de 1975 estava destinada a dar a partida na reorganização do movimento, mas nenhum estudante se habilitava a soltar a voz. Havia mistura de medo e acanhamento. Quem rompeu o impasse foi o professor Marcos Cardoso Filho cantando, desafinado, a música Roda Viva de Chico Buarque de Holanda, mas que serviu para quebrar o gelo e deslanchar a cantoria. Dois anos depois a experiência das rodas de samba seria repetida ganhando o nome de Forró do RU, animado inicialmente pelo conjunto V-0, depois Grupo Engenho.

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Foi dessa forma que ressurgiu o movimento estudantil, sob a iniciativa de militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB). A investida do partido foi planejada pela base de agitação e propaganda, coordenada por Marcos Cardoso Filho, atuando simultaneamente na UFSC e na então Juventude do Movimento Democrático Brasileiro (JMDB). O esforço teve a acolhida do Diretório Acadêmico do Centro de Educação (Daced), ampliando-se com o passar do tempo para os centros de Engenharia (Dactec), Saúde e, na sequência, o Diretório Central dos Estudantes (DCE). A iniciativa do PCB começou com a abordagem de temas específicos da área de educação universitária e aos poucos ampliou o foco para chegar ao ponto nevrálgico: a luta contra a ditadura militar, pela unidade e as liberdades democráticas.

O fio condutor desta narrativa é a ação do PCB entre os estudantes e professores universitários em Santa Catarina. Tal opção leva em conta a hegemonia exercida pelos comunistas no movimento estudantil catarinense nas décadas de 1960 e 1970. Mas outras forças políticas também se fizeram presentes. Embora mais discretamente, pode-se mencionar os remanescentes da antiga Ação Popular (AP) e outras forças, envolvidos numa articulação que desembocaria, mais tarde, na criação do Partido dos Trabalhadores (PT), além da Associação Cultural Sapiens, com base no Centro Sócio Econômico da UFSC, surgida por volta de 1976.

Segundo Léo Rosa de Andrade, um dos fundadores, a Associação Cultural Sapiens era um “grupo de debate composto por democratas de todos os tipos, objetivando trazer a discussão política e cultural para dentro da Universidade, intentando contribuir com o retorno do Brasil à normalidade democrática”.

Ensaios da resistência

A noite de 31 de março para 1º de abril de 1964 foi de vigília na sede da União Catarinense de Estudantes (UCE) na rua Álvaro de Carvalho, no Centro de Florianópolis, relatou Rogério Queiroz, então presidente da entidade: “Ficamos acompanhando pelo rádio, fazendo ligações telefônicas a membros da UNE, membros do Governo e pessoas no Rio Grande do Sul”.  A sede dos estudantes foi ocupada por militares que efetuaram prisões, confiscaram um veículo Kombi e, posteriormente, extinguiram a UCE.

A Kombi fora comprada na concessionária C. Ramos, em Florianópolis, com parte dos recursos de um convênio entre a UCE e o Ministério da Educação e Cultura, visando a “execução de programa de alfabetização de adultos pelo método Paulo Freire, através do Centro Popular de Cultura”, conforme Queiroz. O jornal Reforma de 20 de março de 1965, órgão da UCE, noticiou que o veículo fora confiscado pelo comando do 5º Distrito Naval .

Além das prisões, inquéritos e outras formas de perseguições, que afastaram as antigas lideranças das décadas anteriores, o movimento estudantil viu-se logo esvaziado. A sua rearticulação, ao longo do período ditatorial, contou com novos nomes entre os quais Roberto João Motta e Vladimir Amarante, ligados ao PCB, além de Derlei Catarina de Luca e Valmir Martins (AP).

Os desafios também passaram a ser diferentes. Nascido em Criciúma no dia 23 de março de 1947, Roberto João Motta estava com 18 anos de idade quando chegou em Florianópolis em 1965 para estudar Direito na UFSC. Morou inicialmente numa pensão  na avenida Mauro Ramos, depois na rua Presidente Coutinho, com os também estudantes e militantes de esquerda Gerônimo Machado e Jarbas Benedet. Em 1967, Motta já era secretário do Centro Acadêmico XI de Fevereiro da Faculdade de Direito da UFSC.

Folhapress/ND

 

Centenas de pessoas foram presas durante o congresso clandestino da UNE em Ibiúna

Vladimir Salomão do Amarante, nasceu em 6 de abril de 1946, em Videira, no Vale do Rio do Peixe, região do Meio Oeste catarinense. Ao chegar em Florianópolis em meados da década de 60 para cursar Direito na UFSC, ligou-se ao PCB. Juntamente com Motta, tornou-se um dos principais militantes, entre os quais figuravam Gerônimo Machado, Munir Chamone, estudante de Medicina, Nelson Wedekin, estudante de Direito e Getúlio Kalinoski, entre outros. “Motta era a chave”, assegura Gerônimo Machado,  condição reconhecida mesmo por aqueles que não estavam alinhados com o PCB, como Heitor Bittencourt. Motta “tinha uma visão histórica das coisas, ele sabia em que processo estava”.

Em maio de 1965 a cidade de Florianópolis foi despertada por uma passeata dos universitários protestando contra a invasão norte-americana da República Dominicana, marcando a retomada das mobilizações de rua, após um período de refluxo. Assim como a UNE, também a UCE e demais entidades estaduais de estudantes foram extintas pela Lei nº 4464, de 9 de novembro de 1964 , conhecida como Lei Suplicy, e substituídas pelo Diretório Nacional dos Estudantes (DNE) e Diretórios Estaduais Estudantis (DEEs).

Os centros acadêmicos existentes foram transformados em diretórios e surgiram os Diretórios Centrais de Estudantes (DCEs) e Diretórios Acadêmicos (DAs). O assunto foi tratado em julho de 1965 no XXVII Congresso da UNE, realizado em São Paulo, dividindo os presentes: enquanto a AP, POLOP (Política Operária), PC do B (Partido Comunista do Brasil) e grupos menores negavam-se a participar das novas entidades criadas pela Lei Suplicy, outros, como o PCB, defendiam a presença estudantil nestas organizações.

Em meados de 1965 a UCE viu ameaçado o restaurante universitário dos estudantes, que funcionava em sua sede da Rua Álvaro de Carvalho, então privado dos recursos oriundos do Ministério da Educação. Num primeiro momento as lideranças recorreram à Reitoria, que aceitou com a condição de assumir interinamente a sua administração.

Os universitários rejeitaram a proposta e convocam o III Congresso Extraordinário da UCE, realizado em 15 de setembro de 1965, com os estudantes em greve e em acampamento em frente à Reitoria. Na ocasião decidiram recusar a proposta da Reitoria e manter a greve até a solução do impasse, desenvolvendo uma campanha de coleta de alimentos junto às famílias da cidade, forçando a decisão de abertura de um novo restaurante universitário.

Em outubro de 1965 o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) entrou em cena e, por duas vezes, impediu a realização da eleição em chapa única para o Diretório Acadêmico XI de Fevereiro, da Faculdade de Direito, recolhendo as urnas. As ações foram ordenadas pelo Coronel Danilo Klaes, Secretário de Segurança, sob a alegação que o candidato a presidente da entidade “era conhecido como subversivo.” 

Fatos como esse dificultavam a movimentação dos estudantes, o que os não impediu de continuarem em contatos com a UNE, e participarem do XXVIII Congresso realizado sob intensa repressão policial em julho de 1966, usando os porões do Convento Franciscano de Belo Horizonte, em Minas Gerais.

Heitor Bittencourt foi um dos estudantes que seguiu para a Capital mineira, num ônibus em que estavam outras lideranças, como o presidente da UCE, Athaualpa G. M. Passos (eleito em abril de 1966), José Leal e Otávio Lima. As dificuldades começaram em Florianópolis, onde o General Paulo Weber Vieira da Rosa, conhecido como ‘Rosinha’, tentou impedir a saída: “Não sei por que cargas d’água a gente conseguiu passar”, lembra Heitor. Quase chegando ao destino foram parados numa barreira policial, onde “todos foram presos, menos eu, que não tinha cara de estudante, tinha cara de 14 anos, fiquei num cantinho”.

Para sua sorte estava no ônibus uma funcionária da Assembleia Legislativa de Minas Gerais que, notando o constrangimento do jovem, mandou que se sentasse a seu lado. “Faz de conta que tu és meu filho”. Heitor acabou dormindo na casa da protetora e na manhã seguinte tentou chegar ao local do Congresso, mas não conseguiu “porque a cidade toda estava sitiada, a gente não conseguia chegar ao local do encontro.”

Heitor foi eleito para a presidência do DCE da UFSC, entidade que, por uma série de razões políticas e administrativas, assumiu o papel da UCE na organização dos estudantes bem como o patrimônio da mesma. Com o fim do mandato de Athualpa Passos na UCE, em 1967, não foi convocada nova eleição, esvaziando de vez a entidade.  Os estudantes e o novo regime continuaram a queda de braços em torno da Lei Suplicy, depois transformada no Decreto-Lei 477 que vetou a manifestação e participação políticas. Além disso foi imposto o Acordo MEC-USAID, uma reforma universitária com vistas à privatização do ensino…

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