Não é só uma questão de votar, é de construir a política com qualidade

Os que mais criticam os políticos talvez sejam os que fazem as piores escolhas, para presidente e para o Congresso Nacional

Se a maior parte dos representantes é formada por fisiologistas que trabalham contra a sociedade, é preciso melhorar a composição, com boas escolhas - Câmara dos Deputados
Se a maior parte dos representantes é formada por fisiologistas que trabalham contra a sociedade, é preciso melhorar a composição, com boas escolhas – Câmara dos Deputados

A atual composição do Congresso Nacional é responsável, em ampla maioria, pela situação caótica vivida pelo país desde 2015. Todos os retrocessos e toda a instabilidade institucional só podem ser creditados a essa maioria que, do impeachment de Dilma Rousseff (2016) em diante só empurrou o país para o abismo, garantindo a chamada governabilidade a Michel Temer, o pior e mais impopular presidente que o Brasil já teve (e olha que antes dele tivemos Jânio Quadros, todo o ciclo civil-militar pós-64, José Sarney e Fernando Collor).

A grande questão da governabilidade está no espírito de toma-lá-dá-cá que reúne os parlamentares do chamado Centrão, mesmo bloco nefasto que apoiou José Sarney durante seus cinco anos de mandato. Em outras palavras, o mais puro fisiologismo, movido pelos interesses das bancadas, não só dos partidos, mas também dos patrocinadores de deputados e senadores. O jogo do poder é abjeto e, em suma, é o que mais provoca a repulsa dos eleitores em relação aos políticos. “Odeio política, odeio políticos”, são expressões que se relacionam diretamente à atividade dos parlamentares, dessa maioria chamada de ‘baixo clero’ que tomou conta da atual legislatura. E sempre surgem atenuantes do tipo “ah, mas foi o povo que colocou os caras lá, isso é democracia, tem que respeitar a vontade popular”. Mas se as escolhas estão erradas, se mergulham o país na escuridão social, política e econômica, elas têm que ser apontadas e combatidas.

É por causa da má qualidade da atual legislatura que muitas pessoas têm alertado, em conversas presenciais ou diálogos nas redes sociais, sobre a importância de não se descuidar da escolha dos deputados e senadores. Alguns exageram e chegam a dizer que a eleição dos representantes no Congresso Nacional é mais importante do que a eleição presidencial. Nem tanto, é claro. Mas um bom presidente, ajustado às demandas da sociedade, será refém de um Congresso com representação tosca, baseada no velho clientelismo, no balcão de negócios da política (“eu te ajudo, tu me ajudas”). Esse é um dos riscos. O outro é que a representação eleita continue entregando o país a interesses contrários à soberania nacional e à construção de um país mais justo e igualitário, como faz Michel Temer, com o aval da maior parte dos atuais congressistas.

Escolher bem, conferir os perfis (currículos, históricos nas redes sociais, históricos criminais) dos candidatos é indispensável nesta quadra da história, para que se possa ter um Congresso Nacional minimamente estruturado em bases qualitativas, com parlamentares orientados pelo senso crítico e pela percepção da realidade econômica, social e cultural do país.

Ah, mas se a maioria eleita em outubro de 2018 também tiver baixa qualidade, qual a solução? Submeter grandes temas de interesse coletivo (reforma trabalhista, reforma previdenciária, armas, aborto, agrotóxicos, por exemplo) a plebiscitos/referendos. Isso sim poria fim ao balcão de negócios entre Executivo e Legislativo. Experiências boas foram justamente os plebiscitos de 1963 (fim do parlamentarismo de ocasião), 1993 (escolha entre república ou monarquia, parlamentarismo ou presidencialismo, com a vitória do segundo sistema) e 2005 (sobre armas de fogo).

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