Norte de Santa Catarina garantiu amplo apoio ao regime militar

Maria Cristina Dias

Especial para o Notícias do Dia

Uma cidade pautada pelo trabalho e pela ordem. Esses eram os valores que permeavam o imaginário de Joinville nos anos 60, e que foram construídos ao longo de mais de 100 anos de fundação. O país, porém, vivia momentos tumultuados nesse período. Sob o comando de João Goulart, o brasileiro estava pressionado pelo alto custo de vida e receoso dos efeitos das reformas de base propostas pelo presidente, que prometia mudanças nas mais diversas áreas, desde a educação até a agricultura. O fantasma do comunismo assombrava  a população, especialmente a classe média. Nessa época, Joinville vivia um período de crescimento econômico e populacional acelerado. Com uma indústria forte, a cidade viu sua população praticamente duplicar em 10 anos, gerando impactos em toda a sociedade, que não estava preparada para absorver as rápidas mudanças que este crescimento acelerado provocava.

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A ideia de um movimento que pudesse “restabelecer a ordem” era visto com bons olhos pela comunidade conservadora. Assim, o golpe militar de 1º de abril de 1964 foi claramente apoiado por empresários, autoridades públicas e instituições locais de Joinville, que se manifestaram com cumprimentos por escrito para o 13º Batalhão de Caçadores _ que também aderiu ao golpe desde o primeiro momento – e a participação ativa na campanha “Ouro para o Bem do Brasil”, criada para arrecadar junto à comunidade recursos para tirar o País da crise que se alastrava. Mas ao mesmo tempo em que as manifestações de apoio chegavam ao batalhão e faziam eco na imprensa, as prisões de pessoas consideradas subversivas enchiam o quartel e sinalizavam a repressão que viria pela frente.

Gisela Müller/ND

Historiador Wilson de Oliveira Neto teve acesso aos registros internos do Exército

O historiador Wilson de Oliveira Neto, um dos organizadores do livro “O Exército e a Cidade” e estudioso sobre o período, revela que nas semanas seguintes ao golpe, o comando do 13º BC recebeu diversos ofícios e telegramas de felicitações por parte de autoridades públicas e instituições reconhecidas na cidade, como por exemplo, a Câmara de Vereadores de Joinville, a Sociedade Joinvilense de Medicina, o Lions Clube. Os cumprimentos vinham também de cidades próximas, como da Prefeitura de Massaranduba ou de uma escola de Corupá.

Os recebimentos foram registrados nos boletins internos do batalhão e Wilson teve acesso a eles durante as pesquisas para escrever seu livro. Embora não tenha encontrado nenhum registro da Acij, houve manifestações de apoio explícitas de influentes empresários da cidade, que integravam a associação. “O comando do 13º BC recebeu cumprimentos pelo golpe até o mês de junho de 1964”, afirma.

Líderes empresariais como Hans Dieter Schmidt, da Fundição Tupy, uma das mais importantes empresas da época, também se manifestaram a favor do recém-estabelecido regime militar. Professor de História, Maikon Jean Duarte cita o informativo da empresa daquele período para exemplificar este apoio. “A produção da Tupy foi parada para comemorar o golpe, com o discurso de Hans Dieter Schmidt”, revela, lembrando que, além da empresa, havia a Escola Técnica Tupy, que já era uma referência na formação de mão-de-obra técnica e ia ao encontro do modelo educacional fortalecido no final dos anos 60. “O Brasil assinou um acordo com os Estados Unidos, onde tinha o compromisso de modificar o ensino, fortalecendo o técnico”, explica o professor. Segundo ele, esse apoio do empresariado local também aparece na Marcha pela Família, ainda em abril de 1964. “As empresas liberaram seus funcionários para participar dessa marcha”, conta, destacando que esse período passou muito tempo à margem da historiografia joinvilense.

Este apoio não se restringiu a abril de 64 e, em parte, é explicado pelo contexto da época, segundo Wilson de Oliveira Neto: “Esse apoio inicial de empresários e políticos se manteve com o passar do tempo, a medida em que o regime foi ficando mais duro. Eu acredito que isso se deve ao contexto vivido na época, de incertezas, crises e radicalização política tanto de esquerda quanto de direita”, explica.

Prisões desde o primeiro dia

O 13º Batalhão de Caçadores aderiu ao movimento desde o primeiro momento, e contou com o apoio de boa parte da sociedade civil em Joinville. As prisões de cidadãos considerados subversivos, suspeitos de comunismo começaram imediatamente. “Durante as primeiras semanas após o golpe, diversas pessoas foram presas sob a acusação de Comunismo. Isso não foi algo exclusivo de Joinville, mas ocorreu em todo o país”, explica Wilson de Oliveira Neto.

Localizado estrategicamente entre Curitiba e Florianópolis, o batalhão funcionou como um centro de triagem. Segundo o pesquisador, presos de Joinville, São Francisco do Sul, São Bento do Sul e Mafra eram levados para lá e depois encaminhados para outras prisões. “Inicialmente, elas foram encaminhadas ao xadrez do batalhão. Mais tarde, porém, foram enviadas a Florianópolis para mais investigações. Pelo que pude apurar, não ocorreram torturas por aqui, durante as prisões de abril de 1964”.

O motivo destas prisões variava muito e nem sempre estavam vinculadas com a filiação partidária. Maikon conta o caso de quatro estudantes que fundaram a União Joinvilense de Estudantes Secundaristas (UJES), no início dos anos 60. A principal pauta deles era a instalação de uma escola pública de ensino médio (o antigo segundo grau ou científico) em Joinville, que, na época, só contava com este nível de ensino na rede particular. A mobilização contribuiu para a instalação do Colégio Celso Ramos, em 1963. “Mas no momento do golpe, este foi o motivo da prisão deles. Foram considerados comunistas ou subversivos por pedirem uma escola pública”, avalia.

Uma lista produzida pela Comissão Estadual da Verdade Paulo Stuart Wright (SC) e revista com dados cruzados do livro “O Exército e Cidade”, aponta mais de 30 presos de Joinville e cidades vizinhas no dia 24 de abril de 1964. Eram figuras públicas, sindicalistas ou profissionais liberais, como por exemplo o advogado Carlos Adauto Vieira, que atuava na área trabalhista. “Não são militantes do PCB nesse primeiro momento”, ressalta Maikon. Wilson complementa: “Na época, a radicalização era tanta, que qualquer um com ideias mais progressistas ou rebeldes era acusado de ser comunista”.

“Ouro para o Bem do Brasil”

Parte da sociedade joinvilense participou ativamente da campanha “Ouro para o Bem do Brasil”, orquestrada pelo recém-estabelecido regime militar e que tinha o objetivo de arrecadar recursos para recuperar a economia nacional da crise econômica iniciada no começo da década de 1960, conforme explica o historiador Wilson de Oliveira Neto.

Era um movimento patriótico, em que os cidadãos doavam seus objetos para “o bem da nação” e ocorreu em todo o País. “O meu sogro costuma comentar que o pai dele entregou para a campanha a aliança de casamento. As pessoas ganhavam um troca um anel de metal, simbólico, com a inscrição: ‘Eu doei ouro para o bem do Brasil’”, conta Wilson.

Na cidade, a campanha foi auxiliada pela União Cívica Feminina, formada por senhoras da sociedade joinvilense, que defendiam  “os valores conservadores da moral católica”, segundo a historiadora Sirlei de Souza, no livro “História de (I)migrantes – O cotidiano da cidade”. Essas senhoras eram alinhadas ao governo militar – que traduzia os ideais de ordem, progresso – e encamparam a luta contra o comunismo e a campanha “Ouro para o Bem do Brasil”.

Registros de cumprimentos recebidos pelo comando do 13º BC pela instalação do regime militar, até o mês de junho de 1964

Curt Alvino Monich, Presidente da Câmara de Vereadores – 1 de abril de 1964.

Sociedade Joinvilense de Medicina – 8 de abril de 1964.

Emilio Manne Júnior – Prefeito de Massaranduba – 13 de abril de 1964.

Caetano Evora Silveira Júnior – Câmara Municipal de Joinville – 27 de abril de 1964.

Hans Dieter Schmidt – Empresário – 27 de abril de 1964.

Lions Clube – 15 de maio de 1964.

Escola Apostólica do Sagrado Coração de Jesus – Corupá – 8  junho de 1964.

Fonte: Pesquisa de Wilson de Oliveira Neto

Lista de presos em Joinville em abril de 1964

Abelardo Lopes da Silva

Alceu Vidal Lopes

Antonio de Assis

Antonio Justino

Benjamin Ferreira Gomes

Brigitte B de Souza

Carlos Adauto Vieira

Conrado de Mira

Edgar Schatzmann

Heitor Klein de Souza Lobo

Humberto Izidoro Maia

Irineu Ceschin

Ivan Kitto

Julio Adelaido Serpa

Laercio Silva

Lenir Justino

Linete de Oliveira Borges

Lucia Schatzmann

Luiz Henrique da Silveira

Marcos Cardoso Filho

Maria da Glória Rocha

Maria Damásio Zeferino Domingos

Mauricio de Sena Madureira

Nelly Osmar Picolli 

Orlando Bento da Costa

Osni Rocha

Pedro Picolli

Rosemarie Cardoso

Teodomiro Fagundes Lemos

Turíbio de Oliveira

Waldemar João Domingos

Zilma Gonçalves Serpa

Fonte: Comissão Estadual da Verdade Paulo Stuart Wright (SC). Dados cruzados do livro “O Exército e Cidade”, organizado por Wilson de Oliveira Neto

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