O alto preço de professar ideias

Escritor Salim Miguel foi preso e teve livraria queimada na semana do golpe militar de 64

Preso no dia 2 de abril de 1964 acusado de subversão e por ser visto como um dos líderes do Partido Comunista em Florianópolis, o escritor e jornalista Salim Miguel, então com 37 anos, soube na cadeia que a livraria Anita Garibaldi, que mantinha na praça 15 de Novembro, fora incendiada por simpatizantes do regime implantado após o golpe de 31 de março. “O episódio foi terrível e fazia lembrar o nazismo”, conta ele, por e-mail, de Brasília, onde mora atualmente. O jornal “A Gazeta” de 5 de abril (veja texto abaixo) noticiou o fato com entusiasmo, chamando os frequentadores do espaço de “pelegos” e atribuindo a “populares” a iniciativa da queima dos livros. Salim só saiu da prisão no dia 20 de maio, e mudou-se em seguida para o Rio de Janeiro, onde ficou até o final da década de 1970.

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Divulgação/ND

Escritor Salim Miguel e sua mulher Eglê Malheiros no final da década de 1950

Sobre essa passagem, ele escreveu o livro “Primeiro de abril – Narrativas da cadeia”, lançado em 1994 pela editora José Olympio e traduzido para o francês por Luciana Rassier e Jean-José Mesguen (editora L’Harmattan) em 2007. Ali ele narra, em tom ficcional e em capítulos independentes uns dos outros, interrogatórios, a tortura psicológica à qual os presos eram submetidos e reflexões sobre a vida, o mundo, a família e o absurdo da situação em que se encontrava, junto com outros 55 presos no quartel da Polícia Militar, no centro da cidade.

Embora simpatizasse com a esquerda, Salim Miguel não era membro do Partido Comunista e trabalhava como chefe do escritório da Agência Nacional (atual EBC, Empresa Brasileira de Notícias) em Florianópolis e fazia parte da equipe do gabinete de relações públicas do governo Celso Ramos (PSD). A associação feita de sua figura com o comunismo vinha, em grande parte, do caráter vanguardista de livraria Anita Garibaldi, que vendia obras de Karl Marx, Jorge Amado, Graciliano Ramos e André Gide e era ponto de encontro de intelectuais da Capital.

Todos os dramas no caderno de anotações

No quartel estavam funcionários públicos, advogados, bancários, comerciantes, estivadores, relojoeiros, alfaiates, agricultores e estudantes. “As prisões eram feitas sem nenhum critério, na base de acusações vazias”, conta Salim Miguel. Ele se lembra “daqueles que souberam enfrentar a situação com firmeza e também daqueles que se desorganizaram por completo”. E chega a brincar com a situação, lembrando de um companheiro de prisão que dizia: “Eu não sou agitador, sou só agiota”.

Foi ali, durante os quase 50 dias em que permaneceu incomunicável, que Salim anotou em cadernos escolares as impressões que mais tarde resultariam no livro “Primeiro de abril – Narrativas da cadeia”. Mais que as ações, que eram esparsas, ele se ocupou em observar as reações das pessoas que o rodeavam naquele ambiente sufocante – e as próprias impressões, reflexões, dúvidas e temores com o seu destino e o dos familiares. Quando saiu, 30 anos depois, com o devido distanciamento dos fatos, o livro repercutiu bastante, porque deslocava para fora do eixo Rio-São Paulo o foco dos acontecimentos durante o regime militar.

Também pesou contra o escritor o fato de haver sustentado acalorados debates, nos anos 50, com intelectuais conservadores da cidade acerca de arte, literatura e política, como um dos líderes do Grupo Sul, que trouxe o Modernismo para Santa Catarina. Na época, os integrantes do movimento eram comumente taxados de comunistas, pelas ideias de vanguarda que defendiam, e vistos com desconfiança porque se vestiam de forma despojada e publicavam, na revista “Sul”, textos de autores estrangeiros afinados com os ideais da esquerda.

Carreira prosseguiu no Rio de Janeiro

Quando saiu da prisão, e após ter perdido o emprego no governo estadual, Salim Miguel passou a responder pelo cargo na Agência Nacional no Rio, já que havia uma fila de interessados em substituí-lo em Florianópolis. Lá, contou com amizades como a do escritor Hélio Pólvora – que publicou um artigo no “Correio da Manhã” defendendo a liberdade de expressão, protestando contra as prisões em Santa Catarina e falando particularmente do castigo imposto a Salim – para retomar a carreira numa cidade sem tantos limites ao debate e à manifestação de posições políticas.

Pólvora diz, a certa altura: “Será que o inspirador desse movimento [o Grupo Sul] que deu três ou quatro escritores de força foi denunciado como comunista por algum mau poeta ou acadêmico atacado pelos rapazes de então, hoje pais de família e empenhados no sonho mais lúcido de uma autêntica realização literária?” Citando os livros que lera de Salim, ele brinca que “neles não encontro as agora decantadas atividades subversivas, nem sequer o tom de panfleto que tem caracterizado a ficção brasileira voltada para a terra e para o drama dos humildes”.

Os outros presos no quartel da PM (*)

Mauri, contador de gráfica, Florianópolis

Aurélio Alves, inspetor de trânsito aposentado, Florianópolis

Mário Moraes, funcionário do TAC, Florianópolis

Luiz João de Andrade, funcionário do DCT, Florianópolis

Waldir Silveira, estudante, Florianópolis (pai estivador/Itajaí)

Luiz Henrique da Silveira, acadêmico de Direito, Florianópolis

Benito Machado, presidente do Sindicato de Energia Elétrica, Florianópolis

Orival Prazeres, estudante, Biguaçu

Arno Lippel, funcionário da Celesc, Florianópolis

Luiz João, motorista/funcionário público, Florianópolis

Armando Muniz, engenheiro químico, Lages

Guarino Iléo, alfaiate, Lages

Jaime Garbelotto, funcionário do IAPC, Lages

Hugo Borges de Melo, proprietário de alfaiataria, Lages

Pedro Antônio Miguel G. Maza, industrial, Lages

Ariovaldo Caon, fiscal do IAPC, Lages

Edésio Caon, advogado/professor/jornalista, Lages

Arnaldo Rosa, comerciante, Lages

Jonas Ramos Martins, fiscal do IAPC, Lages

Carlos Vogel, eletrotécnico, Itajaí

Dirceu de Senna Madureira, médico, Itajaí

Nilson Vasco Gondim, funcionário da CEF/ex-pracinha, Itajaí

Dalmo Vieira, advogado, Blumenau

Francisco José Pereira, advogado, Blumenau

Alfredo José Gonçalves, cobrador, Blumenau

José Rosa da Silva, funcionário público, Blumenau

Afonso Schirmer, jardineiro, Blumenau

Hilton Zimermann, mecânico, Blumenau

Edelui Farias, motorista, Blumenau

Erwin Loeschner, relojoeiro, Blumenau

Manuel de Souza, mecânico da Força e Luz, Blumenau

Saul Buchelle, engenheiro, Blumenau

Herbert Giorgi, advogado, Blumenau

Sálvio Cunha, estivador, São Francisco

Ilsan Rosalvo Silveira, conferente, São Francisco

José Cedro de Athayde, marítimo, São Francisco

Ruberval de Oliveira, estivador, São Francisco

José Januário de Oliveira, arrumador, São Francisco

Antenor Rinaldo da silva, funcionário autárquico, São Francisco

Álvaro da Conceição, arrumador, São Francisco

José Silvério da Cunha, operário, São Francisco

Santino Marçal, operário, Araquari

Nício Lopes, lavrador, Araquari

Eduardo Mussi, estudante, Laguna

Antonio Carlos Bahiense, bancário, Florianópolis

Dibo Elias, gráfico, Florianópolis

Israel Gomes Caldeira, diretor do DCT, Florianópolis

Arthur Rodolfo Sulivan, professor, Florianópolis

Nézio Jacques Pereira, funcionário do DCT, Florianópolis

Alcebíades Pinheiro, advogado, Bom Retiro

Edilberto Jung, bancário, Concórdia

Emanuel C. dos Santos, bancário, Concórdia

Luiz Godinho

Silvério

Cabo Anfrísio

Agiota, São Joaquim

(*) De acordo com as anotações no caderno de Salim Miguel

‘Foco pernicioso no coração da cidade’

O jornal “A Gazeta” de 5 de abril de 1964, domingo, estampava, na parte superior da página, a manchete “Populares incendeiam livros marxistas na Liv. Anita Garibaldi”. A livraria, localizada na praça 15 de Novembro, se caracterizava, segundo o periódico, pela comercialização de “livros essencialmente marxistas e esquerdistas” a “elementos reconhecidamente vermelhos residentes nesta Capital, que ali fazem seu ponto de reunião”.

Segue, na íntegra, o complemento da matéria: “Nessa livraria, reuniam-se funcionários públicos federais, amplamente conhecidos nesta Capital, advogados, estudantes e acima de tudo inúmeros pelegos pagos para propagarem as ideias marxistas-leninistas em nossa Capital, numa afronta aos brios democráticos de nossa gente”.

“Anteontem, por volta das 18 horas, um grupo de populares dirigiu-se àquela livraria que se encontrava fechada desde o dia 1º de abril, com receio de que com a vitória das forças militares que se revoltaram contra o Comunismo internacional, e viesse (sic) a sofrer represálias dos mesmos e do povo da Capital”.

“Entretanto, ao cair da tarde do dia 3, populares arrombaram aquela livraria, e retirando de lá todos os livros de literatura marxista puseram-no (sic) fogo em plena via pública, sob os aplausos da multidão que acorreu ao local”.

“Assim, uma vez mais, o povo florianopolitano deu provas sobejas de sua fibra de democrata, extinguindo um foco pernicioso que há vários anos se instalara em pleno coração da cidade, bafejado pela inércia proposital do governo federal, comandado pelo Sr. João Goulart”.

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