O “xerife” do consumidor de Florianópolis

Entrevista com o ex-diretor do Procon Tiago Silva

Débora Klempous/ND

Tiago Silva (E) passou o cargo de diretor do Procon para Marcos Rosa

Ele fechou agências bancárias que descumpriram o limite de tempo para atender o cliente, suspendeu por 48 horas a venda de linhas telefônicas da TIM, notificou os Correios, lacrou postos de combustíveis e mudou a cara do Procon  Municipal. Dois anos depois de assumir o cargo de diretor do Procon, Tiago Silva, 28 anos, entregou, ontem, a função para o bacharel em direito Marcos Rosa, para tentar uma vaga na Câmara de Vereadores. Além de defender as causas do consumidor, Tiago Silva é ativista dos direitos dos homossexuais. Homossexual assumido, ele é o mentor e coordenador da Parada da Diversidade. Em entrevista ao Notícias do Dia, Tiago Silva falou um pouco do trabalho desenvolvido no Procon.

Vinte e um anos depois da entrada em vigor do Código de Defesa do Consumidor, o que mudou na relação consumidor e fornecedor?
Se for lei tem que valer na prática. E aqui nós fizemos valer a lei. Desrespeitou o código, é autuado. Assim foi com bancos, operadoras de telefonia, postos de combustível e outros ramos comerciais. O Estado tem que fazer a sua parte. Esse código do consumidor é maravilhoso. Agora, se o Estado não aplicar a lei, não adianta. Quando o Estado é ausente, ninguém respeita a lei. Interditamos uma agência bancária – o primeiro banco que fechei foi o Banco do Brasil, que já tinha sido notificado 81 vezes.  Muitos falavam: imagina se o Procon vai fechar um banco. Nós saímos da sala e fomos para a rua notificar os infratores da lei.

E o outro lado da questão, depois que o Procon multou, fechou e notificou, os fornecedores melhoraram o atendimento?
Quando ainda não havia uma decisão dessas, de fechar e suspender venda de linhas telefones e internet, como fizemos por 48 horas com a TIM, eles duvidavam do poder do órgão. Na dúvida, não respeitavam. Quando nós fomos lá, lacramos e dissemos: em Florianópolis, existe um Procon.

Você acredita que seu sucessor dará continuidade ao trabalho?
O Marcos Rosa trabalhou comigo desde o início. É funcionário da Prefeitura. Ele me acompanhou nas horas difíceis. Muitas vezes pensei em largar tudo e ir embora. No Brasil, ainda temos a cultura de que quem manda é quem tem dinheiro, e todos se ajoelham. Eu acredito que o Marcos vai dar continuidade.

O senhor teve uma passagem pela Câmara de Vereadores e agora tenta voltar por outro partido. Por que trocou o PPS pelo PDT?
Até então, só tinha estado em um único partido, o PPS. A meu ver o PPS mudou de rumo. O PPS que nasceu do antigo PCB, mas mudou de rota política. E faz oposição a Dilma. Eu acho a Dilma uma grande presidente. A minha simpatia já era na época pelo legado de Leonel Brizola, principalmente na principal bandeira que é a Educação.  Por isso fui para o PDT.

Que nota você dá para a administração Dario Berger?
Eu dou nota nove.

Não é muito?
Não. A história vai mostrar que ele foi o prefeito da revolução. Ele revolucionou a área de saúde. Eu nasci no morro e você sabe o que é ficar com dor de dente na madrugada e ter uma policlínica para atender 24 horas. Ter dentista 24 horas foi uma grande revolução. A educação avançou. O Dario rompeu com a grande muralha oligárquica que existia na cidade. O processo de levar obras e políticas públicas ao morro por meio do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) foi junto ao prefeito. A história vai mostrar porque ele foi perseguido por não ter origem numa oligarquia. Não ter vindo de uma corrente que dominou a cidade de Florianópolis durante décadas.

Mas existe muito descontentamento com o prefeito, muitas críticas contra ele. Em que áreas que ele pode ter falhado ou não apresentou o mesmo resultado que nessas que você citou?
O prefeito Dario colocou algumas pessoas que não tiveram o mesmo compromisso que ele teve. E aí torno a dizer: o secretariado tem que ser escolhido a dedo. Eu destaco que na educação escolheu bem, na secretaria da saúde também.

Durante a campanha você vai puxar votos para o candidato oficial?
Claro que sim, eu sou partidário. E acredito que o Gean Loureiro tem que fazer uma comparação do que era Florianópolis e como está agora. E mostrar a evolução feita. Ouço críticas. Agora, essas pessoas que criticam a cidade ou a administração Dario, o que eles fizeram pela cidade? Temos que ser críticos? Temos. Mas temos que ter o que oferecer além da crítica. Todo mundo, independente de ocupar cargo público, tem que ter compromisso com a cidade. Antes de assumir o cargo eu tinha compromisso com a cidade, na questão da quebra do preconceito.

Além de defensor das causas do consumidor você é um ativista político pelos direitos dos homossexuais e idealizador da Parada da Diversidade. Como nasceu essa luta?
Eu sou idealizador da Parada da Diversidade e fui fundador do movimento dos direitos humanos, minha luta sempre foi essa. Eu vivenciei que existia muito preconceito quando você coloca um homossexual, como eu, assumido, como temos vários homossexuais que não são assumidos, em cargos que são desafiadores. Pela cultura que se colocou nas novelas, na televisão, era só chacota, só humorístico, o homossexual do folclore. Quando vim para cá, dei um basta nisso. Podem até me criticar e fazer piada, mas não na minha frente. Na minha frente ninguém fala. Eu sei separar o lado pessoal do profissional. Não vou deixar que façam chacota de mim publicamente.

Ao assumir você recebeu perto de cinco mil processos. Como está a situação hoje?
Estou entregando para meu sucessor 1.200 processos. E recebi com 5.800.  Antes de eu entrar aqui a média de processos era 400 por mês. Hoje nós recebemos 1.400.

Esses processos são em sua maioria de que áreas?
A maioria tem a ver com telefonia, bancos, postos de combustíveis.

Quem é o campeão de reclamações no Procon?
 A telefonia.

E esses processos vão para onde?
Vão ser analisados, autuados, as empresas que não prestaram serviço adequado ao consumidor, e muitos deles serão enviados ao Ministério Público.

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