Presos políticos da ditadura ficaram em antiga colônia penal no Norte da Ilha

Operação Barriga Verde terminou numa prisão sem muros em Canasvieiras

Torturados em interrogatórios que pareciam intermináveis, para  militantes de esquerda presos entre 1975 e 1977 em Santa Catarina, a Operação Barriga Verde terminou numa prisão sem muros – a extinta Colônia Penal Agrícola de Canasvieiras. Lá, passaram a última fase dos anos de chumbo e gozaram de regalias que minimizaram os impactos, mas jamais compensaram as atrocidades da ditadura  brasileira.

A transferência para Canasvieiras, de acordo com o ex-diretor da colônia, José Vitor Amorim, 75, não foi positiva apenas para os próprios presos. “Foi importante, também, para o presídio, para a população carcerária que lá estava e para o próprio Estado”, avalia. A própria segurança foi reforçada pela guarnição especial da Polícia Militar destacada para a guarda dos presos políticos. 

Acostumado a lidar com homicidas e outros criminosos comuns, Amorim logo percebeu que os novos presos poderiam ser úteis na rotina do presídio. Eram advogados, médicos, profissionais liberais e operários com outro nível intelectual e oriundos de outra realidade social, que vinham de maus tratos, torturas psicológicas e alimentação inadequada servida nas dependências das Forças Armadas, da Polícia Federal e das Polícias Civil e Militar.

Acervo pessoal/ND

O grande casarão, que já foi uma fazenda, era usado como colônia penal agrícola

Quando chegaram, a direção da colônia passou a utilizá-los na cozinha. “Como a comida era uma das reclamações, elaboramos um cardápio próprio. Cada dia da semana era servido um prato diferente, para presos e seguranças”, conta Amorim.

A presença dos presos políticos também melhorou as condições sanitárias e de saúde da população da colônia. O médico Augusto de Melo Saraiva ajudou a organizar o dormitório e a enfermaria e criou uma escala para limpeza dos banheiros. “A convivência entre todos sempre foi de respeito e harmonia. Foi uma época muito boa”, garante Amorim.

Flávio Tin/ND

Gruta mantida pelo Sapiens Parque está cheia de pedidos e agradecimentos

Muito ainda resta das antigas estruturas

Em 1975, no início da Operação Barriga Verde seis famílias e uma dezena de presos solteiros eram os últimos moradores da antiga Seção Agrícola da Penitenciária Estadual de Florianópolis. Transformada em 1969 na Colônia Penal Urbano Salles, a antiga Fazenda Moura, comprada em 1950 pelo Estado é a atual sede do Sapiens Parque, na rua Luiz Boiteux Piazza.

De acordo com a lei 4.378, assinada em 11 de outubro pelo então governador Ivo Silveira, “a colônia destinava-se a sentenciados com, no mínimo, um terço da pena cumprido com bom comportamento carcerário, para execução de medidas de segurança detentivas”.

O objetivo da adoção de “regime adequado” era a recuperação do condenado e prepará-lo para o último estágio da pena, a liberdade condicional, antes da ressocialização. Cortada pelas águas dos rios do Brás e Papaquara, antes da poluição, a colônia penal foi construída em 6,5 milhões de m² de terras férteis, a dois quilômetros da praia de Canasvieiras. 

No casarão de dois pavimentos, logo na entrada, no térreo funcionavam administração, sala e alojamento da guarda e auditório – mais tarde, sala de televisão.  Na parte de cima, o alojamento coletivo dos presos solteiros e o temido “quarto escuro”. Lá, segundo os mais velhos, os presos castigados por infringirem as regras penais eram temporariamente mantidos incomunicáveis.

No jardim, ainda está de pé a mesma capela que, em julho de 1968, teve a primeira missa celebrada pelo então arcebispo metropolitano Dom Afonso Nihues. Era ali, diante da imagem de NS Aparecida, que pelo menos uma vez por semana, agentes do Estado e presos, comunistas ou não, se apegavam a fé. E, lado a lado, cada um com sua crença, rezavam por tempos melhores.

Pequena, a gruta mantida pelo Sapiens Parque está repleta de pedidos e agradecimentos de graças alcançadas, e permanece aberta à comunidade.

Casados cumpriam pena ao lado da família dentro do complexo

Sentenciados casados cumpriam as etapas finais da pena ao lado da família, em 12 casas – seis de alvenaria e seis de madeira – erguidas ao longo de três ruas estreitas, de terra preta, sem cercas e separadas apenas por hortas individuais. Gerador a diesel, a “usina”, fornecia energia elétrica, e a água era retirada de poços artesianos.

Padaria industrial, cozinha e refeitório, onde também eram servidos produtos cultivados na horta coletiva e suínos engordados em chiqueiros bem cuidados, eram compartilhados por presos e guardas. A despensa era reabastecida mensalmente, enquanto as famílias recebiam um rancho (cesta básica) para o mesmo período.  

Sem cercas e muros, o controle dos presos era feito em rondas noturnas casa a casa, repetidas a cada duas horas. Desarmados, os guardas de plantão circundavam o quarteirão, batiam três vezes e chamavam pelo nome do sentenciado, que respondia sem precisar abrir a janela.

Quatro décadas depois, o menino finalmente entendeu porque ao abrir a janela às manhãs ensolaradas e ao agradável cheiro de eucalipto, o pai primeiro ouvia o alvoroço da passarada. Depois, repetia para si mesmo: “Abaixo a ditadura”.

Flávio Tin/ND

José Vitor Amorim não sofreu fugas durante os 20 anos em que foi diretor

 Método de ressocialização foi criado antes do golpe

O método revolucionário para ressocialização de presos foi criado em 1959, cinco anos do golpe militar, pelo técnico agrícola João Vítor Amorim, na época um jovem servidor público da Secretaria de Estado da Agricultura. Homem de origem familiar ligada à extinta Arena (Aliança Renovadora Nacional), que apoiou os militares, Amorim nada entendia de sistema carcerário, mas sabia da fertilidade das terras cercadas pelos rios do Brás e Papaquara, e se espelhou no próprio pai para lidar com assassinos, ladrões e golpistas, alguns mentalmente desajustados.

“Percebi que precisa como pai daquelas pessoas”, lembra.  Amorim elaborou com as próprias mãos o projeto de colônia penal agrícola, autossuficiente economicamente e que se alicerçou no tripé trabalho, família e responsabilidade para produção de alimentos e atingir a surpreendente marca de 20 anos sem fugas  na direção da única prisão brasileira sem muros.

A primeira providência do diretor foi juntar nas mesmas panelas a comida do diretor, dos guardas e dos presos. Estes, receberam pratos fundos (para sopa) e rasos e talheres completos, de prata, e todos passaram a dividir o mesmo espaço do refeitório, construído em anexo à nova cozinha. “Assim, acabamos com o desperdício de arroz e feijão. A metade era, literalmente, jogada aos porcos. Os presos não comiam porque era ruim demais”, conta Amorim.

Os presos colhiam 10 toneladas de cebola por safra, e também eram produzidos arroz, feijão, milho, hortaliças e melancia. Havia criação de galinhas e porcos, estrutura que garantia alimentação de toda a colônia, com excedente vendido para pagamento dos funcionários e levado para a Penitenciária Estadual na Trindade.

A relação entre guardas e presos e seus familiares, segundo Amorim, era de total respeito e confiança. Os raros casos de funcionários que tentaram seduzir filhas ou mulheres dos sentenciados  terminaram em demissão. “Nosso método estimulava o trabalho e preparava o preso e seus filhos para a vida em liberdade”, argumenta.

Flávio Tin/ND

Hoje local abriga sede do Sapiens Parque, complexo da área tecnológica

Presos tinham uma espécie de conselho

Em depoimento ao jornalista e historiador Celso Martins, autor do livro “Os Quatro Cantos do Sol”, de 2006, um dos presos, Júlio Serpa, diz que a prisão no 4º BPM, em Florianópolis, “pareceu um paraíso”, em comparação com o período passado em Curitiba. Exceto a alimentação, a mesma servida aos soldados. “Mas fomos bem tratados e respeitados”.

Um mês depois, Serpa também foi levado para a colônia penal de Canasvieiras. Lá, os presos formaram uma espécie de conselho, formado por Jorge Feliciano, Marcos Cardoso e Ury Coutinho de Azevedo. Este grupo era encarregado das negociações com as autoridades, e organizava o cumprimento do regimento interno.

Havia a disciplina em relação à higiene do local. Cada dia, duas pessoas eram encarregadas de limpar os banheiros. As saídas também eram controladas por esse conselho. 

Os presos jogavam baralho, conversavam e tinham acesso a todo tipo de leitura, material que entrava com as visitas. Segundo relato de Serpa a Celso Martins, “nem era também tão rigoroso assim”.  O ex-preso relata casos de regalias para visitas aos familiares em casa e bebedeiras, muitas bebedeiras.

“Certa vez, Cirineu Martins Cardoso e Valci Lacerda, foram levados em casa para passar noite. Naquele dia, deu um fechamento, teve uma revista à noite”, lembra Serpa. Os dois foram buscados em casa, e Lacerda levado de volta à colônia, completamente bêbado, “com a camisa suja de vinho”.

O caso custou a prisão e o afastamento do capitão Nelson Coelho da direção, que passou a ser trocada periodicamente para evitar intimidade entre presos e guardas.

Mesmo assim, algumas regalias foram mantidas, como as visitas semanais dos parentes de primeiro grau, às quartas-feiras. As mulheres levavam cachaça em latas de leite ninho. Serpa estava entre os que tiveram a prisão preventiva relaxada em 28 de setembro de 1976.

Flávio Tin/ND

José Luiz Sardá era levado pelo pai para brincar com outras crianças da colônia

Filho de guarda lembra impacto dos presos políticos em Canasvieiras

A Operação Barriga Verde, entre novembro de 1975 e 1977, quase nem foi notada por Adélcio José Sardá, (78), um dos guardas que costumava levar o filho mais velho para brincar com outras crianças na colônia.  “Eu andava no Jeep com ele pelos campos. Comíamos no mesmo refeitório dos presos”, lembra o geógrafo José Luiz Sardá, 51.

Como o pai de Sardá, os demais funcionários da colônia eram moradores da região, a maioria de famílias tradicionais de Canasvieiras, Jurerê e Cachoeira do Bom Jesus. Adélcio lembra que sempre foi pacífica a convivência entre guardas e presos, até depois da chegada dos “subversivos”.

Mesmo assim, a presença de médicos, advogados, professores, estudantes e outros trabalhadores entre os presos comuns, interferiu no cotidiano de Canasvieiras e vizinhança. Uma das mudanças foi a movimentação de militares da guarnição especial da PM, comandada pelo capitão Nelson Coelho, responsável pela guarda dos presos políticos.

 “Canasvieiras e praias vizinhas eram pacatas e bucólicas vilas de pescadores, o turismo estava só começando. E pouca gente entendia os subterrâneos da política da época”, diz Sardá.

Em Santa Catarina, a Operação Barriga Verde prendeu 42 pessoas, entre elas duas mulheres, a maioria integrante do PCB (Partido Comunista Brasileiro). Depois de interrogados, e torturados em dependências do Exército, da Polícia Federal e das polícias Civil e Militar, em Florianópolis e Curitiba, parte deles ficou na Colônia Penal de Canasvieiras, desativada entre 1979 e 1980.

Entre os presos, estavam o professor de engenharia elétrica Marcos Cardoso Filho, da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), na época presidente da juventude do antigo MDB (Movimento Democrático Brasileiro), que antecedeu ao atual PMDB; o economista Cirineu Martins Cardoso; Márcio Campos, hoje professor de direito na UFSC; e Alésio Verzola, todos entrevistados por Martins na colônia. Outro preso, o ex-deputado estadual pelo PMDB Roberto João Motta, em julho de 1976, teve autorizada a transferência para o Instituto Psiquiátrico São José, pelo juiz Darcy Ricetti. Motta apresentava sequelas físicas e mentais das sessões de tortura sofridas durante os interrogatórios nos corredores obscuros da ditadura.

Hoje complexo tecnológico está no lugar

Antes da primeira reforma para abrigar a sede do Sapiens Parque, em 2006, o casarão e o prédio da cozinha foram utilizados pela prefeitura e pelo Estado. Em 1994, na gestão do ex-prefeito Sergio Grando (PCB), serviu como salas de aula durante a reforma da Escola Básica Municipal Osmar Cunha.

Em 2004, o local foi usado como depósito da Codesc (Companhia de Desenvolvimento do Estado de Santa Catarina). Lá, ficaram guardadas as máquinas caça-níqueis apreendidas em bingos ilegais.

Com previsão de abrigar 400 empresas até 2023, o Sapiens transformou os 6,5 milhões de m² da velha colônia em área voltada à base tecnológica. “Trata-se de parque de inovação para desenvolvimento regional do Norte da Ilha”, explica a gerente Carolina Menegazzo, 33, que tem sala no mesmo casarão que até 1979 abrigou sentenciados e presos políticos.

Lista de presos políticos

Operação Barriga Verde

Os presos

Alésio Verzola, 27, Florianópolis/SC

Amadeu Hercílio da Luz, 42, Porto Alegre/SC

 Antônio Justino, 32, Criciúma/SC

Celso Padilha, 26, Chapecó/SC

Cinirio Arnoldo Vicente, 36, Itajaí/SC

Cirineu Martins Cardoso, 26, Laguna/SC

Ciro Manoel Pacheco, 42, Jaguaruna/SC

Edésio Ferreira, 51, Tijucas/SC

 Edgar Schtzman, 35, Joinville/SC

Elenice C. Martins, 25, Porto União/SC

 Emanuel Alfredo Maes, 49,  Itajaí/SC

Everaldo Brodborck, 36, Joinville/SC

Irineu Ceschim, 32, Curitiba/PR

 João Augusto de Melo Saraiva, 44, Florianópolis/SC

 João Borges Machado de Souza, 28, Florianópolis/SC

Jobê da Nova, 43, Santiago/RS

João Jorge Feliciano, 46, Turvo/SC

Jorge Vieira, 35, Sombrio/SC

Júlio Abelardo Serpa, 26, Guaramirim/SC

Lourival Espíndola, 38, Lauro Muller,/SC

Luiz Geraldo Bresciani, 28, Orleans/SC

 Luiz Jorge Leal, 51, Tubarão/SC

Marcos Cardoso Filho, 25, Tubarão/SC

Márcio Campos, 38, Florianópolis/SC

 Nahor Cardoso, 45,Joaçaba/SC

Nelli Osmar Calduro Piccoli, 60, Porto Alegre/RS

Newton Cândido, 39,  Bauru/SP

Osni Rocha, 27, Joinville/SC

Paulo Antonio, 31, Urussanga/SC

Roberto Cologni, 37, Bérgamo/Itália

Roberto João Motta, 28, Criciúma/SC

Roque Felipe, 39, Criciúma

Rosimere Cardoso Bitencourt, 28, Pedras Grandes/SC

Sebastião Ernesto Goulart, 45, Jaguaruna/SC

Sergio Giovanelli, 35, Blumenau

Teodoro Ghercov, 56, Bessarabia/Romênia

Ury Coutinho de Azevedo, 48, Florianópolis/SC

Valci Lacerda, 37, Florianópolis

Túlio Volmar Bresciani, 0rleans/SC

Wladimir Salomão do Amarante, 38, Videira/SC

Waldemar Domingos, 37, Laguna/SC

Walter Hernich Wily Horn, 43, Porto Alegre/RS

Fonte: 5ª Região Militar/Exército Brasileiro

Participe do grupo e receba as principais notícias
da Grande Florianópolis na palma da sua mão.

Entre no grupo Ao entrar você está ciente e de acordo com os
termos de uso e privacidade do WhatsApp.
+

Política

Loading...