“Todos estavam muito inteirados”, diz ex-superintendente na CPI dos Respiradores

Marcia Regina Geremias Pauli relatou fatos que comprovam que as principais autoridades do Estado tinha conhecimento do processo de compra de R$ 33 milhões com pagamento antecipado

Na mais esperada sessão da CPI dos Respiradores, os deputados estaduais ouviram o depoimento da servidora pública, Marcia Regina Geremias Pauli, 48 anos, por mais de três horas, na Alesc (Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina).

Exonerada da SGA (Superintendência de Gestão Administrativa) da SES (Secretaria de Estado da Saúde) após a polêmica provocada pela compra dos 200 respiradores por R$ 33 milhões sem garantias, Pauli relatou fatos que comprovam que o processo de compra era de conhecimento das principais autoridades do Estado, como o governador Carlos Moisés, o ex-secretário de Saúde, Helton Zeferino, e o atual secretário de Estado da Saúde, André Motta.

Marcia Pauli e o relator deputado estadual Ivan Naatz (PL). Reprodução TVALMarcia Pauli e o relator deputado estadual Ivan Naatz (PL). Reprodução TVAL

Acompanhada de dois advogados, Pauli foi convidada “a contribuir” com a CPI para “desvendar o mistério” da compra dos respiradores e “construir mecanismos” para evitar que fatos iguais se repitam.

“Eu considero o depoimento da senhora muito importante”, disse o relator, o deputado estadual Ivan Naatz (PL). Pauli declarou que estava tranquila e iniciou o depoimento falando sobre a estrutura da SGA e a formação do COES (Centro de Operações Estratégicas de Saúde) na sede da Defesa Civil.

Servidora conta detalhes

Pauli lembrou do ambiente tenso na sede da Defesa Civil com frases fortes que eram direcionadas ao grupo de trabalho, e definiu como “rudimentar” a forma de contabilização de leitos no Estado. “A divergência era tanta que equipes pegavam o carro da Defesa Civil para se dirigir aos hospitais e fazer a contagem”, contou.

A servidora também fez crítica ao modelo instalado pelo governo do Estado para gerenciar a crise. “O COES foi um erro. Aquela estrutura montada daquele jeito foi um erro gravíssimo”, definiu.

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Pauli também relatou que o então secretário adjunto e atual secretário de Saúde, André Motta, fazia pressão para atendimento dos fornecedores, alguns deles com acesso ao segundo andar da sede da Defesa Civil.

Segundo Pauli, Motta acumulava a função de superintendente hospitalar e foi responsável pela definição da necessidade, quantidade e a especificação dos equipamentos que deveriam ser comprados.

Negociação com a Veigamed

Em relação ao então secretário de Estado da Saúde, Helton Zeferino, Pauli voltou a atribuir a responsabilidade de negociação com a Veigamed e fechamento da compra no dia 26 de março.

Questionada porque a negociação foi fechada, ela disse acreditar que seria pela prontidão da entrega do primeiro lote, prometido para o dias entre 5 a 7 de abril.

Depoimento de Marcia Pauli na CPI dos Respiradores durou mais de três horas – Foto: Fábio Queiroz / Agência ALDepoimento de Marcia Pauli na CPI dos Respiradores durou mais de três horas – Foto: Fábio Queiroz / Agência AL

Detalhista, a servidora confirmou que a proposta da Veigamed chegou via whatsapp, “dia 22, as 10h27min”, pelo então secretário de Estado da Casa Civil, Douglas Borba, com quem passou a trocar mensagens, em uma delas recebendo o contato do advogado Leandro Barros, com quem passou a tratar a partir do dia 23 de março.

Participação de Douglas Borba

Pauli ressaltou a importância de Borba nos processos de compras da SES naquela época, de início de pandemia. “Para nós, no COES, e-mails que eram do Douglas (Borba) tinham um tom: dê a prioridade”, destacou.

Em relação ao pagamento antecipado, Pauli fez questão de ler a transcrição da live diária do governador Carlos Moisés e do secretário de Estado da Saúde Helton Zeferino, realizada no dia 27 de março, 24 horas após o fechamento da negociação com a Veigamed.

No encerramento da live, Moisés ressalta que um dos desafios do governo do Estado “é ter que fazer uma compra direta, porque não tem menor preço. E se você não paga, não vai ter leitos de UTI suficiente para atender a população”. “Eles estavam muito inteirados”, declarou.

Pauli também destacou a necessidade de a CPI ouvir ordenador da SES, José Florêncio, que seria o responsável pelo pagamento dos R$ 33 milhões no sistema de compras. “José Florêncio foi a pessoa que mais teve contato com Fabio Guasti, o fornecedor que fez toda articulação para a compra dos respiradores. Era dele a responsabilidade de cobrar a garantia. Ele não dava expediente na Defesa Civil”, relatou.

Questionada sobre quem fez o pagamento, Pauli não soube precisar. “Dentro da COFS (Coordenadoria do Fundo de Saúde). Arrisco dizer que foi dentro da gerência financeira. Não vou afirmar 100% de certeza”, disse.

Pedido de ajuda

A servidora também relatou que pediu ajuda para outros setores do governo do Estado, como a CGE (Controladoria Geral do Estado) mas não foi atendida.

“Primeiro dia que pedi socorro foi 16 de março. As áreas estavam se estruturando para trabalhar”, respondeu, com a resposta que lhe deram. Pauli ainda destacou que dois auditores da SGA se prontificaram a ajudar e foram até a Defesa Civil no dia 9 de abril, uma semana após o pagamento feito a Veigamed.

Diante dos relatos da servidora, os integrantes da CPI ressaltaram a necessidade de intimar o ordenador José Florêncio e cogitaram chamar novamente o advogado Leandro Barros para esclarecer “contradições” entre o depoimento dele e de Pauli, além de algum representantes da Secretaria da Fazenda para apontar como foi realizada a liberação do recursos pela fonte 100 para pagamento da compra.

Outro servidor será intimado

“Nós vamos ouvir o José Florêncio, pois “obviamente ele tinha um papel que não cumpriu. Os prazos eram tão apertados que qualquer um saberia que aquilo não ia se concretizar”, declarou o relator Ivan Naatz (PL)CPI.

Para o deputado Valdir Cobalchini (MDB), pelo menos duas perguntas estão sem respostas: quem pagou e quem certificou para possibilitar o pagamento e a consequente liquidação de empenho.

Outra situação que preocupou os deputados foi a citação feita por Pauli em um depoimento ao Gaeco, onde afirma ter recebido a ligação de um deputado que buscava informações sobre a elaboração de um passaporte especial para um empresário envolvido em outro processo de compra.

Pauli disse não lembrar o nome do deputado e que não saberia dizer porque o telefone celular foi entregue para a força-tarefa, mas ressaltou que não foi coagida ou pressionada pelo parlamentar.

02 Comentários

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  • Noemi
    Noemi
    Pois é D. Márcia, aqui se faz, aqui se paga
  • Nelson Luís Roepke
    Nelson Luís Roepke
    Primeiro coisa não vai dar em nada, segunda coisa quanto vai custar essa CPI, terceira coisa ninguém vai preso, quarta coisa não vão devolver o dinheiro e a quinta coisa, todos os envolvidos já arrumaram uma outra boquinha no estado.

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