Um Herzog catarinense?

Suspeita de suicídio forjado cerca morte de Higino João Pio, prefeito de Balneário Camboriú, em 1969, em Florianópolis

Na tarde de 19 de fevereiro de 1969, uma quarta-feira de Cinzas, após regressar de Blumenau, onde fora realizar exames médicos, Higino João Pio entrava em casa quando foi abordado por policiais que saíram de uma Veraneio do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) e lhe deram voz de prisão. Ninguém, a não ser ele próprio, conheceu o teor da acusação. Foi ali, em sua residência em Balneário Camboriú, onde era prefeito havia pouco mais de três anos, que a família o viu com vida pela última vez. Duas semanas depois, aos 47 anos, seu corpo foi enterrado no cemitério da Fazenda, em Itajaí, acompanhado por cortejo gigantesco, sem precedentes na história da região.

:: Clique e leia todas as reportagens do especial do ND

Passados 45 anos do episódio, o filho Júlio Cesar Pio, 59, não aceita a versão de suicídio do pai por enforcamento num banheiro da Escola de Aprendizes de Marinheiros, em Florianópolis, dada por laudo emitido quatro dias após a morte pelos legistas José Caldeira Ferreira Bastos e Léo Meyer Coutinho. Mais do que ninguém, os filhos, netos e demais parentes de Higino aguardam com ansiedade o relatório da Comissão Nacional da Verdade sobre as circunstâncias em que ocorreu o fato. “Só queremos saber a verdade, mas creio que há 99% de possibilidade dele ter sido morto na prisão”, diz Júlio Cesar, empresário da área da construção civil em Balneário Camboriú.

Daniel Queiroz/ND

Júlio César espera esclarecimento definitivo da morte de seu pai, Higino Pio

Primeiro prefeito do município, que se emancipara de Camboriú em 1964, Higino Pio tinha pouco estudo, era um homem simples que aceitara concorrer ao cargo porque outros indicados pelo PSD (Partido Social Democrático), que apoiara o golpe militar de 1964, desistiram um após outro. “Ele era feliz no meio do povo, falava com todo mundo e chegou a construir mais de 100 casas para famílias pobres”, conta o filho, destacando que ele vencera as eleições locais por apenas 28 votos.

Amigo do então governador Ivo Silveira, e com apoio deste, implantou a avenida Atlântica e o sistema de água que ainda hoje abastece o principal balneário de Santa Catarina. “Creio que denúncias mentirosas e rixas políticas provocaram a prisão”, diz Júlio Cesar, ressaltando que o AI-5 havia sido baixado pelo governo militar no final do ano anterior. Também a amizade com o ex-presidente João Goulart, deposto cinco anos antes, pode ter pesado contra ele.

Tática para diminuir a tortura

Um episódio marcante dá a ideia de como o caso impactou a família do prefeito de Balneário Camboriú. Em 3 de março de 1969, sua mulher Amélia Cherem Pio, que estava de aniversário naquele dia, tentou falar com ele na Escola de Aprendizes de Marinheiros, no bairro Estreito, em Florianópolis. Ficou aliviada ao ser informada de que ele seria libertado horas depois. Saiu dali, foi para a casa de um parente no centro da Capital, e ouviu pelo rádio que o marido se enforcara na prisão. “A família praticamente acabou”, conta Júlio Cesar, que tinha 14 anos na época. “Minha mãe era uma mulher de fibra, mas ficou muito tempo abatida e sem vontade de fazer nada”.

O corpo foi parar na sala de necropsias da Faculdade de Medicina da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), de onde foi levado, após a conclusão da perícia, para Balneário Camboriú. O velório foi marcado pela presença de muitos policiais à paisana, e ninguém podia ficar a menos de dois metros do caixão lacrado.

Júlio Pio cita o depoimento de um médico que conhecera seu pai durante a prisão, na Capital, e disse que ele reclamava muito de dores para obter a permissão de ficar mais tempo na enfermaria. Na versão do médico, essa era a maneira que Pio encontrava para encurtar as sessões de tortura dentro de sua cela.

Fotos enfraquecem tese de suicídio

No laudo de 7 de março de 1969, assinado por José Caldeira Bastos e Léo Coutinho, da diretoria de perícia técnica e científica da Secretaria de Segurança Pública do Estado, a morte de Higino João Pio foi atribuída a “asfixia por enforcamento”. O documento atestava que o corpo da vítima não tinha fraturas e equimoses, mas apresentava uma “hemorragia no pescoço e no terço superior da carótida primitiva direita”. As jugulares estavam túrgidas e havia congestão nos rins e pulmões.

No entanto, a tese do suicídio deve ser desacreditada, segundo Júlio Cesar Pio, porque seu pai tinha grande estatura e o registro do encanamento de água do banheiro no qual aparece uma toalha amarrada não suportaria o seu peso. Além disso, ele está com os pés encostados no chão, em posição vertical. Outra foto mostra o prefeito de cima, com o corpo ereto, o que segundo o filho reforça a convicção de que a postura foi arranjada para reforçar a idéia de que ele se matou. A famosa foto do jornalista Vladimir Herzog morto nos porões do DOI-Codi, em São Paulo, em 1975, ainda que forjada, é menos tosca, em termos de arranjo, que a do prefeito de Balneário Camboriú.

Uma cidade que se orgulha de Jango

Júlio Cesar Pio não conheceu João Goulart, mas conta que ele descia de hidroavião em Balneário Camboriú, visitava a prefeitura e tinha, além de Higino, outros amigos na cidade. Ele comprou uma casa perto da foz do rio Camboriú e frequentava a praia na região da Barra Sul. Com o tempo e suas obras sociais, o prefeito ganhou o apelido de “pai da pobreza”, mas não tinha a fleuma e a verve do ex-presidente, e menos ainda as ideias socialistas que os militares associavam à influência do comunismo internacional.

Hoje, num banco da calçada entre a avenida Atlântica e a praia, há uma estátua de Jango sentado pegando uma menina no colo, enquanto um garoto brinca de carrinho aos seus pés. A cena lembra o ex-presidente e seus filhos pequenos, num local próximo à casa que mantinha na cidade. Ali perto há um ponto de ônibus, e poucos parecem conhecer aquele personagem. Há até quem passe a mão na cabeça da estátua e faça algum comentário jocoso. Goulart está de sandálias e a inscrição na calçada diz: “Balneário Camboriú – A praia do presidente Jango”.

Praça com busto está mal cuidada

Além da mulher Amélia, Higino João Pio deixou os filhos João Jorge (já falecido), Eliane Cherem Pio, que também mora em Balneário Camboriú, e Júlio Cesar. O prefeito já possuía um bom patrimônio antes de se candidatar, conta o filho mais novo, sugerindo que ele não tinha necessidade de valer-se do cargo para obter vantagens pessoais – fora acusado de enriquecimento ilícito por seus adversários políticos. Ele comerciava terras e tinha um hotel (hotel Pio), que foi vendido tempos depois de sua morte.

Uma praça da cidade leva o seu nome, mas ela está mal cuidada e o busto do homenageado se encontra em péssimo estado. “Já pedi ao atual prefeito que troque o nome da praça”, diz Júlio Cesar, revoltado com o abandono do local pelo poder público. Um colégio estadual projetado para o bairro das Nações, em Balneário Camboriú, levará o nome de Higino Pio. Após a Lei da Anistia, uma indenização de R$ 100 mil foi concedida à família pela morte do primeiro prefeito do município.

Participe do grupo e receba as principais notícias
da Grande Florianópolis na palma da sua mão.

Entre no grupo Ao entrar você está ciente e de acordo com os
termos de uso e privacidade do WhatsApp.
+

Política

Loading...