Vereadores de Biguaçu se dizem envergonhados, após renúncia de Douglas Borba

O ex-secretário de Estado da Casa Civil, considerado o “primeiro ministro” do governo Carlos Moisés (PSL), renunciou ao cargo no Legislativo Municipal na segunda-feira (18)

O regimento da Câmara de Vereadores de Biguaçu prevê que a sessão comece com a leitura da Bíblia Sagrada. Na segunda (18), na primeira sessão após mais de um mês de recesso – em função da pandemia do novo coronavírus – foi escolhido um trecho do livro do Êxodo. O texto falava sobre mentiras, calúnias e falso testemunho. Nada mais apropriado para o enredo que envolve o personagem principal daquela sessão.

Pedido de renúncia foi entregue na terça-feira (19) – Foto: Rodolfo Espínola/Agência AL/NDPedido de renúncia foi entregue na terça-feira (19) – Foto: Rodolfo Espínola/Agência AL/ND

Na reunião, foi formada uma comissão especial para apreciar o pedido de cassação do mandado do vereador Douglas Borba (PSL). Os trabalhos, no entanto, não duraram 24 horas. Na terça (19), o ex-secretário de Estado da Casa Civil, considerado o “primeiro ministro” do governo Carlos Moisés (PSL), renunciou ao cargo no Legislativo Municipal.

Por meio de um documento com 18 linhas, Borba disse que “é chegada a hora” de se “desligar da vida pública”. Alegou que irá se dedicar à “família” e às “atividades privadas”.

Na verdade, tem nas costas a missão de explicar as graves denúncias envolvendo a compra de 200 respiradores pulmonares para equipar hospitais catarinenses no tratamento da Covid-19. Os equipamentos, importados da China, foram pagos antecipadamente, ao custo de R$ 33 milhões. Além de supostas irregularidades, até mesmo a eficiência técnica dos dispositivos é questionada.

Pedido de cassação

O pedido de cassação foi protocolado no dia 7 de maio pela vereadora Salete Orlandina Cardoso (PL).

“O vereador é eleito para trabalhar pelo município. No caso, além de fugir ao compromisso assumido junto ao eleitor, também traz uma situação vexatória para o Legislativo”, afirmou Salete. Para a parlamentar, o momento é “triste e delicado”. “Se não fosse desgraça, pareceria piada. O que fizeram com esse hospital de campanha, com a compra dos respiradores, e tantas outras ações, infelizmente, só vem a denegrir o nosso município”, acrescentou.

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Quem assume a vaga, agora em definitivo, é o vereador João Luiz Luz. Assim como Borba, Luz migrou do PP para o PSL, o partido do governador Moisés.

“Eu gostaria de agradecer pelos serviços prestados pelo agora ex-vereador Douglas Borba. Até ser condenado, todo mundo é inocente. Com muita sabedoria, para não misturar as coisas, pediu o afastamento do cargo”, afirmou Luz.

Escolhido para presidir a comissão que iria investigar Borba na Câmara, o vereador João Domingos Zimmermann, o Nino, (MDB), lamentou a renúncia. “A comissão daria todo o direito dele se defender. Quando ele sai, ele deixa para nós que não tem como se defender”, afirmou Nino.

“Eu não sei quem ganhou com essa situação toda. Isso ainda precisa ser apurado pela Justiça. Mas, eu sei que quem perde com tudo isso é a sociedade catarinense. Quero rogar que não se percam vidas, porque a sociedade vai colocar os mortos na conta dos envolvidos neste lamaçal”, afirmou Salete.

Vereadores se dizem envergonhados

O título de vereador de Biguaçu, até então ostentado por Douglas Borba, virou motivo de vergonha para os demais pares. “Um vereador ter ido para o Estado, ocupar um cargo tão alto, e fazer o que está fazendo. Me sinto muito envergonhado. Sem julgamento, mas, se fez, tem que pagar”, afirmou o vereador João Domingos Zimmermann, o Nino, (MDB).

O vereador Fernando Duarte, o Pissudo, (PP) lamentou que o assunto tenha virado manchete nacional e criticou a cobertura da imprensa, por relacionar o escândalo com a cidade de Biguaçu. “Nossa cidade está sendo julgada como se todo mundo fosse dessa índole. Estamos sendo julgados pelo comportamento de alguns”, reclamou.

O vereador Ednei Müller Coelho, o Patê, (DEM) também lamentou que os vereadores como um todo estejam sendo “discriminados”. O vereador Angelo Ramos Vieira (PSD) defendeu que as denúncias sejam “apuradas com transparência”.

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